Cândida

‘Eu que não sabia o que era ser feliz, descobri no mundo a grandeza da minha ingratidão’. Suas últimas palavras foram sua maior realização. Não porque aquele momento fora o final de uma terrível e dolorosa doença; sua realização se deu diante da grande verdade sobre sua vida.

A descoberta

Cândida nascera em um casebre, próximo de um longo rio que circunda certa cidade do interior da França. Sua mãe morrera ao dar a luz – ou ‘dar a sombra’, como costuma sempre ironizar. Foi uma criança como outra qualquer, num lugar qualquer. Pode-se até dizer que era menos do que uma qualquer: não tinha identidade. Não pertencia a ninguém, não possuía ninguém. Como é de se notar, sua infância foi um desenvolver de uma miséria, ou era assim como Cândida pensara por toda sua vida. ‘Se você soubesse o que é o sofrimento, não iria me contrariar…’. Retrucava sempre quando um de seus amantes questionava seus hábitos. ‘…não me importo com o que pensas, se não quiseres admitir…’, e assim envolvia-se em melancolia e ódio por sua existência.

Ao completar sua maioridade, decidiu sair de sua cidade de origem. Cândida gostaria de conhecer todo o mundo. Não era uma questão de desejo pelo desconhecido. Sua ambição era, em primeiro lugar, deixar de ser alguém. Ouvira certa vez uma velha resmungando a seu respeito. ‘Se temos um lugar na Terra que pode ser chamado de inferno, é esta cidade… não há lugar mais desagradável e perturbador, mais feio e melancólico… todos os lugares por onde andei não encontrei uma única criança mais sinistra que Cândida. Sua mania de perambular pelas ruas faz dessa cidade um pesadelo… um pesadelo que já tem quase dezoito anos!’. Sua decisão fora imediata: tão logo voltou para sua moradia – debaixo de uma pequena ponte da cidade – e recolheu os seus míseros pertences; perambulou pela última vez por toda a cidade – assim esperava.

Cândida, apesar de miserável e perdida, podia ser considerada como uma pessoa de relativa inteligência. Não lera muitos livros, mas possuía grandes indagações sobre o mundo. Ao sair da cidade, pois, reconheceu necessário considerar o que estava ignorando por toda sua vida.

‘O que te faz sair em busca do nada?’, perguntou o homem que estava dirigindo o caminhão.

‘Sobre o nada… eu já o presenciei por dezoito anos. Pretendo apenas confirmar que de fato vou presenciá-lo pelo resto de minha vida’.

‘Não está sendo um pouco radical? Quero dizer, a vida é complicada! De fato! Mas por que pensas assim?’. O caminhoneiro, sem compreender, sentiu crescente um interesse por aquela estranha garota que aparecera em seu caminho. Cândida apenas permanecera em silêncio dali em diante, sem respondê-lo.

Na mesma noite, tornaram-se amantes. Cândida estava prestes a fazer seu primeiro teste. Sua primeira confirmação de que não sentiria nada. Sentiu dor, sentiu ódio. Decidiu, enfim, sair daquele lugar. Deixara somente um bilhete; transformara em lei os dizeres de seu pensamento. ‘Em resposta a sua pergunta, tudo que vivi me faz acreditar que o mundo é repleto de maldade. Não possui bondade, só uma maldade camuflada, que corrompe aqueles poucos que poderiam nascer e crescer virtuosos. Tudo que ocorre neste mundo é para o mal.’ Ao deixar o bilhete próximo ao volante do caminhão, e vislumbrando pela última vez aquele homem – era o que esperava –, sussurrara. ‘Se você soubesse o que é o sofrimento, não iria me contrariar…’. E partira.

A confirmação

Cândida viajou por toda a França. Conhecera muitos lugares e pessoas. Foi encontrar em Paris, poucos anos após deixar sua cidade, uma utilidade para seu desprezo à vida. Quando menos esperava, se viu diante de uma prova de ingresso à universidade. ‘Os tempos são propícios à Academia’, diziam os jornais. Por mais inútil que achasse ser, Cândida conseguiu finalizar seu curso com relativo sucesso. Seus estudos tornaram-se conhecidos. Fora chamada para lecionar na América.

Seus vinte próximos anos de vida, como Cândida costumava dizer, não sofreram grandes mudanças. ‘Minha vida é monótona. Sempre transmito o mesmo conteúdo aos mesmos alunos imbecis. Sempre encontro homens monótonos. Sempre tenho ódio.’ Considerava sua vida pessoal um fracasso. Sua vida profissional, uma mentira. Cândida não conseguia ver mais sentido no que estava fazendo, onde estava fazendo, com quem estava fazendo. Todo aquele sentimento, nunca descartado, porém longamente esquecido voltou à tona. Foi em certa tarde, durante um almoço supostamente rotineiro, a confirmação de sua maior verdade.

‘Você não compreende, Cândida. Está sempre ausente, e quando está presente, parece-me que estou diante da pessoa mais infeliz do mundo. Como pode acontecer isso? Tem uma carreira brilhante, tento lhe proporcionar toda a felicidade possível. Não consigo mais suportar isso. É um adeus’. Disse seu atual amante.

‘Estou grávida’.

‘Não me importo mais. Você criou toda essa situação, já sofri muito e não pretendo sofrer mais’. O amante levantou cordialmente da mesa e se retirou, para nunca mais voltar.

‘Se você soubesse o que é o sofrimento, não iria me contrariar…’. Sussurrou Cândida enquanto observava o homem a sair do restaurante.

            Apesar do aparente controle, Cândida escondia dentro de si um ódio tão grande quanto a certeza de que tudo ao seu redor acontecia para o mal. Após os monótonos vinte anos, decidira voltar para a França. E partira.

A refutação

            Cândida deu luz a gêmeos. Acreditou ser uma infelicidade, uma grande punição, ter que conviver pelo resto de sua vida com um duplo fardo. Uma dupla lembrança de que sua vida fora sempre regada por infortúnios. Como já esperava, seu retorno fora problemático. A universidade já não mais considerava recontratá-la. Recorrentes problemas em trabalhos passados, o fato de possuir dois filhos novos; tudo conspirava contra ela. A única saída encontrada por Cândida, ironicamente, foi a de retornar para sua cidade de origem. ‘Ao menos poderei me preocupar menos com vocês, e quem sabe até posso esquecê-los em algum lugar onde não lhes encontraria novamente’. Seus pequenos filhos escutavam-na sem compreender.

            Retornou então à cidade que planejara nunca retornar. Conseguiu um emprego em uma escola precária, na saída da cidade, próxima ao grande rio. Alugou um pequeno cômodo próximo à escola. Viveu ali, monotonamente, por vários anos. Em um dia como outro qualquer, entretanto, encontrou, nos arredores da cidade, o primeiro amante que planejara nunca reencontrar. Fora um choque. Um ódio; um arrependimento.

‘Agora que te reencontrei, não a deixarei fugir’, e assim tomou cuidados dos dois filhos de Cândida.

Cândida já considerava confirmada sua teoria. Agora já não mais via sentido em viver; atestara a maldade do mundo. A inutilidade da vida. Sentiu-se pesada. Adoeceu.

‘Por que, com todo o meu desprezo, você continua cuidando de meus filhos, e de mim?’, Cândida perguntava todos os dias, indignada, perturbada.

‘Vou cuidar de você’, dizia o caminhoneiro.

A doença espalhou por todo seu corpo. Cândida estava se definhando a cada dia, cada vez mais. Ironicamente, quanto mais sofria com a enfermidade, mais refletia sobre sua vida. O sofrimento que a doença lhe proporcionara relevou todo o suposto sofrimento de sua vida. Tudo que sentira por toda sua vida, tudo que a rodeara, era amor; a maldade, ela mesma. ‘Eu que não sabia o que era ser feliz, descobri no mundo a grandeza da minha ingratidão’. Suas últimas palavras foram sua maior realização. Não porque aquele momento fora o final de uma terrível e dolorosa doença; sua realização se deu diante da grande verdade sobre sua vida. E partira. Nunca mais voltou.

Daniel Vasconcelos é petiano e, por mais que pareça contraditória a vida, acredita que o sofrimento e a maldade são apenas a interpretação que todos nós, ingratos, damos a ela. A vida é bela, se não conspirarmos contra.

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5 comentários em “Cândida

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  1. Sofrimento e prazer são sensações provenientes dos mesmos mecanismos psíquicos. São necessários para o equilíbrio perfeito. Assim como o dia e a noite, a juventude e a velhice, o frio e o calor, o trabalho e o descanso, o fogo e a água, o prazer e a dor. Fugir de um em detrimento do outro não é senão imaturidade, covardia.
    Sofrer faz parte da existência humana, nossos sentidos nos despertam o prazer e a dor pelos mesmos mecanismos. Fugir de um deles em detrimento do outro somente nos remete ao primarismo infantil por que ambos os aspectos fazem parte do nosso sistema fisiológico.

  2. Gostei também! parabéns de verdade! mas acho que tendo a pensar como o roberto, o sofrimento é necessário, pois inevitável. E dele se extrai o suco da sensatez. Ao que me parece, Candida apenas não chegou a essa conclusão. vou ler o livro e aí então conversaremos! : )

  3. Vc me provovou ontem. Gostei.
    Não se queixe da vida por que ela está monótona.
    Eu, apesar de evangélico, gosto de pensar que o Céu é um lugar muito monótono, sinceramente não gostaria de viver lá.
    Parece a Suécia: tudo perfeittinho, sem pivetes, ladrões, brigas e sem prostitutas, bêbados e adolescentes rebeldes. Que coisinha mais sem futuro! Deus me perdoe!
    A Bíblia Sagrada reflete as expectativas do homem ocidental, que excetuando os estóicos dão excessivo valor ao prazer, a felicidade e a alegria. Isso tudo, uma dose de cachaça resolve, um pacote de latinhas, ou uma dose de cocaína fazem o mesmo efeito. Pra quê trocar alguns instantes de euforia se se vai cair de novo na mesmice monótona? É mais prudente saber administrar rotina do que tentar escapar dela, não é!
    Me parece que os orientais são mais sábios. Em lugar do prazer eles buscam a tranquilidade, buscam a harmonia interior, buscam a integração à natureza, buscam a valorização do sofrimento e do sacrifício.
    Mesmo uma vida de sucesso não deixa de ter maus momentos nos casos excepcionais. O normal é que tenhamos na vida mais dissabores do que sucessos, no entanto somos preparados no Ocidente para triunfarmos sempre, mas não estamos preparados para os frequentes fracassos.
    O sucesso quase nada nos ensina. Mas quando fracassamos nos preocupamos em descobrir as causas e os culpados, ao contrário do sucesso este não nos tira o sono e não nos faz meditar e nos preocuparmos com conseguimos alcançar o êxito. Já pensou nisso!

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