1933 Foi um Ano Ruim

“Se o mundo fosse claro, a arte não existiria”.

1933 foi um ano ruim, é o título de um interessante livro escrito por John Fante, que descreve a história do jovem e pobre garoto, Dominic Molise, em seu processo de questionamento do mundo, tentando justificá-lo através do amor e da religião. Em seu processo de diferenciação frente à uma sociedade uniforme, tentando desesperadamente encontrar em si algum talento (que no seu caso era jogar baseball), por menor que fosse. Dominic vive essa desventura durante o ano de 1933 e aposta tudo o que tinha (vendendo a única máquina de trabalho de seu pai em segredo) para juntar alguns dólares e tentar seguir a carreira de atleta arremessador em outra cidade. O livro termina com o amigo de Molise (que, diga-se de passagem, era peça fundamental para que a empreitada desse certo) abandonando-o, seu pai sem trabalho, a máquina valendo o dobro do que se vendeu e um beco sem saída para o jovem garoto que, buscando atingir seu sonho abandonou tudo o que o prendia a uma vida normal. Que absurdo! Pode-se dizer, que não há nada mais certo que isso, a vida é mesmo um absurdo! Que é o pressuposto da reflexão de hoje. Deixando de lado a tragédia de Dominic, atentemo-nos para outro autor, a saber, Albert Camus. Trataremos hoje de sua obra “O mito de Sísifo” e o absurdo que é a vida humana. Neste livro, Camus literalmente constrói e defende esta idéia. Basicamente seu pressuposto é o de que a vida não faz sentido algum e que os homens são fúteis por buscar desesperadamente algum sentido para viver. O mundo encontra-se desprovido de Deus e da eternidade, e principalmente não possui lógica alguma, seu determinante é o caos, a desordem, a falta de justificativa. Ao contrário do que se pode pensar não são apenas loucos e filósofos que chegam a esta conclusão, na verdade, quanto mais tempo se passa buscando um sentido, menos sentido faz esta busca. Na verdade é neste absurdo que ancora-se a religião, que nada mais é que a tentativa, desesperada (sem ofensa), de evidenciar uma justificativa para essa empreitada irracional terrena. Segundo Paiva (2003), “um mundo que podemos explicar, mesmo por viés das más razões, é suportável, mas num mundo privado de justificação o homem é estrangeiro, privado da esperança, condenado ao sofrimento” (p. 159). Bem, antes de tudo, até mesmo deste pressuposto, descrevamos a história trágica de Sísifo. Segundo nos conta Homero (2002), Sísifo foi um sagaz ser humano cuja trajetória em vida resumiu-se ao questionamento divino. Em sua experiência terrena, foi capaz de enganar pelo menos 3 divindades diversas. Primeiro enganou à Asopo exigindo água para sua cidade em troca de informações falsas sobre o rapto da filha do deus em questão, em seguida foi capaz de enganar a morte aprisionando-a em um colar, é claro que os deuses em função do aprisonamento da morte resolveram tomar a vida de Sísifo que, antes de morrer disse à sua mulher que não o enterrasse e jogasse seu corpo em praça pública. Ao acordar no Hades, Sísifo convence Hades a deixá-lo retornar para se vingar do desprezo de sua mulher, o deus do mundo inferior permite e assim que este volta a ver o mundo dos vivos, foge desesperadamente para longe da morte, assim conseguiu viver até idade anciã quando já encontrava-se preparado para morrer. Mas ao contrário de suas intenções Zeus não lhe deu a morte, antes, aplicou-lhe um castigo, deveria Sísifo carregar uma pedra gigantesca nas suas costas até o topo de uma montanha bem alta. Ao chegar no topo, a pedra rolaria até o pé da montanha e Sísifo teria de recomeçar este trabalho por toda a eternidade. E o que isso tem a ver com Camus? Bem, Camus vê em Sísifo nada mais nada menos que o héroi do absurdo, aquele indíviduo que reconhece a irracionalidade de sua sina, de sua vida, não obstante, continua executando sua tarefa diária. Contudo, não antecipemos as conclusões sem dizer antes outros dados de importância absurda! O primeiro questionamento trazido na obra de Camus é o seguinte, se a vida é um absurdo e a constatação da burrice e da estupidez de viver é mais comum do que se imagina porque o suicídio não é regra e sim exceção? Como um homem que constata o absurdo da vida pode continuar a viver? Para Camus, constatar o absurdo da vida não exige a anulação desta, antes exige revolta para com a mesma. O que isso quer dizer? Primeiro atentemo-nos para o que é exatamente absurdo. Não é nem o mundo nem o pensamento humano, o absurdo surge antes do esforço e da necessidade humana de entender um mundo que é incompreensível, o que se objetiva é mostrar impossível a redução da complexidade do mundo a um princípio racional, razoável e explicável. Para Camus, este é o momento da consciência adquirida. Cada um de nós deve, em algum momento, vislumbrar o conhecimento e chegar à conclusão de que não importa quão duro se trabalhe, estamos fadados a falhar no sentido de que mais cedo ou mais tarde morreremos sem compreendê-lo inteiramente. Logo, o absurdo não nasce do mundo per si ou do homem per si, mas da relação dos dois, suicidar-se seria anular uma das partes, anulando o absurdo, o que é absurdo, pois em uma lógica relacional, anular uma das partes (necessárias), é anular o todo (suficiente), anulando por sua vez o mundo e o resto da humanidade. “O absurdo depende tanto do homem como do mundo” (Camus, 1989 p 40). Em outras palavras, o não ser não pode ser, ou seja, suicidar-se e tornar-se o que não é, não é tornar-se feliz, porque isso seria ser, antes é tornar-se nada reduzindo tudo a este mesmo nada, o mundo, a humanidade e o absurdo, simplesmente as coisas não são, para aquele que não é. Para os que não se convenceram do absurdo da vida, menciono que Camus o procura demonstrar, através de uma lógica e três analogias, respectivamente, da tentativa do homem de justificar a vida e dar um sentido a ela sobre o amparo da esperança, dos planos, da vida após a morte, enfim. O fato é que quanto mais se espera o amanhã, mais próximos estamos da morte que é o não ser e isso torna a esperança uma lógica absurda. As analogias são respectivamente, a de Don Juan, que desesperadamente busca o amor e a beleza em tudo (o que é um absurdo), a do ator, que representa, em apenas duas horas de palco, uma vida, uma história inteira o que escancaria sua efêmeridade tornando um absurdo viver (visto que a morte é evidente), e a do guerreiro conquistador, que se vê convicto na glória, na eternidade, na imortalidade de seus feitos, (pensemos que tudo o que realizamos na vida não é tentar deixar algo para a posteridade?) o que é absurdo porque vivendo o que está por vir deixa-se de viver o que é real. Se ainda não foi possível se convencer do absurdo da vida (que é tentar dar a ela uma razão, uma lógica, uma justificativa), sugiro a leitura da obra, se não resolver, sugiro uma boa dose de reflexão existencial ao assistir o programa Fausto Silva num domingo bucólico e entristecido, ou a leitura do mundo como vontade e representação de Arthur Schoppenhauer. Enfim, já que a vida é o absurdo e o suicídio não resolve o problema do absurdo, (o suicídio erradica a consciência do absurdo sem deslindá-lo, e aqui é importante lembrar que o olhar de Camus ao suicida não é sociológico e estrutural, ao contrário, é individual. “Começar a pensar é começar a ser minado. A sociedade não tem muito a ver com esses começos”, Camus, 1989, p.40), o que devemos fazer, por Deus!? Camus nos responde com um raciocínio fino e extremamente complexo, a saber, devemos fazer o óbvio: aceitar o absurdo. Contudo essa aceitação possui, pelo menos, duas consequências: a liberdade e a revolta. Sobre a 1a, não nos diz Camus sobre a liberdade em si, metafísica, mas a liberdade inerente a condição humana, aquela referente à ação do espírito, que é maximizada com o reconhecimento do absurdo. Ou seja, constatar que a vida não possui sentido, é estarmos livres da desesperada, dolorosa e terrívelmente satânica busca pelo sentido. O homem absurdo goza da liberdade no que se refere às regras comuns. Ah, meu saudoso Sr. Mersault, que ao matar um árabe é condenado à morte. Nada faz sentido para este rapaz, sua vida não é explicada por nenhuma fé, religião, ideologia, ciência, não tem nada em que se amparar. É na verdade o sr. Mersault um condenado? Eu prefiro vê-lo como livre, pode se fazer a si mesmo, sua vida não ancora-se nas leis que o obrigam a cumprir, no poder delegado a poucos, na desigualdade, na lógica intelectual, na moral, na verdade, nas exigências do Sr. Capital, porque tudo isto é baseado na justificação, logo tudo é uma fuga falha ao absurdo. Ao descobrir que a percepção do absurdo implica na liberdade absoluta, encontra paz (algo muito difícil de se encontrar). Tudo é permitido para aquela liberdade anárquica metafísica de Camus, “O que conta não é a melhor vida, mas a maioria dos que a vivem”. Pensemos na vida moderna, trabalhadores em empregos fúteis e fábricas de escritórios, presos aos grilhões maléficos já citados, são como Sísifo sim, pois acordam todo dia às 6 para escalar a montanha, porém apenas aquele Sísifo é capaz de se aproximar de algo entendido como liberdade. Aquela interna, anárquica, que pauta solidamente certas correntes do pensamento político. Ele e somente ele pode determinar a essência da existência. Sobre a questão da revolta, é mister dizer que esta revolta não se concentra na raiva, na luta, na agressividade, no combate e no conflito, antes, é uma revolta porque se dá justamente no fato de que se a vida não tem sentido, só poderá ser vivida em sua absurdidade, sua tragicidade, e não anulada. Se revoltar contra essa lógica ilógica é torná-la certa, absoluta e grandiosa. Se revoltar não é desenhar estratégias de batalha que tem por objetivo manter a vida custe o que custar, “inversamente o absurdo da existência tem como correlato a opção pela alegria, felicidade e afirmação da vida” (Paiva, 2003, p. 163). A revolta de Sísifo se dá justamente em continuar carregando o pedregulho! E ainda mais! Em carregá-lo alegremente! A aceitação não é passividade, é a revolta da revolução permanente interna à alma de cada ser humano. “A vida será vivida melhor ainda, se não tiver sentido. Viver uma experiência, um destino, é aceitá-la plenamente” (Camus, 1989,p.70). Por isso Sísifo é um herói, e por isso continua escalando a montanha, não vive sua vida da melhor forma, mas da forma mais intensa, procura sua realização em cada passo em cada coisa, vive intensamente cada respiração, não é uma questão de viver perfeitamente, e sim de viver mais! “Sísifo não veicula nenhuma esperança, mesmo assim, é feliz. Não porque ele tenha se resignado, mas exatamente por ter suas esperanças hauridas. Ao ser perpassado pela dor do absurdo, ele cresce em disponibilidade e pode investir no presente com toda a radicalidade que a atitude solicita” (Paiva, p.168). Sísifo pode constatar o quão terrível é seu destino (de carregar o rochedo gigante todos os dias), mas apesar de horrível, seu destino lhe pertence de forma inteira. Seu rochedo é a sua questão. Ao contemplar o tormento, fazemos calar todos os ídolos. Afinal, a felicidade é irmã do absurdo! Pensemos em Cervantes, dentre todas as mensagens contidas em Dom Quixote, talvez uma das mais relevantes seja o argumento de que ao considerarem-no louco, não era de fato desequilibrado, antes, o resto do mundo é que encontrava-se errado. E é justamente essa revolta que torna possível a primeira consequência, a liberdade, “assumir a absurdidade do mundo e optar pela vida instaura o propósito de viver o máximo possível, atingir o limite de uma existência limitada, o homem absurdo não canaliza suas energias para o eterno ou para o nada, mas para o possível” (Paiva,p.168). Se para Sócrates a vida só vale a pena pela reflexão, para Camus a vida só tem valor se esclarecida acerca de sua absurdidade. Com a revolta e a liberdade vemos que a saída para um possível drama humano se faz, não no sofrimento, mas na grandeza do inexorável percurso para a morte. Então o que dizer sobre o pobre garoto Molise, se não que é uma vítima da própria covardia humana, da estrutura e do horror individual de admitir o absurdo? Comete Dominic todos os erros possíveis, atendo-se ao amanhã (fazendo planos para se tornar um famoso jogador), justifica sua existência pelo seu talento, pelo seu amor por uma garota, pela sua crença em Deus e na Virgem Maria, nega o absurdo da escola, do estudo, do trabalho de pedreiro que seu pai deseja que siga, nega por medo, e ao viver sua vida mental, metafísica e ideal desperdiça qualquer possibilidade de real mudança de sua condição. Para terminar, não quis dizer aqui que, como Sísifo, a condição humana é irrevogável, não transformável. Antes, a liberdade da admissão do absurdo é o que o torna livre para mudar. São antes, as justificativas estruturais, de leis à cultura e educação que podem limitar seu verdadeiro potencial. É ele, o indíviduo, ele e somente ele quem pode determinar a essência da existência. Mas isso também não é absurdo?
Bibliografia:

CAMUS, Albert. O mito de Sísifo. Rio de Janeiro, Guanabara, 1989

CAMUS, Albert. O  Estrangeiro.  Rio de Janeiro, Ed. Record, 2009

CAMUS, Albert. Estado de Sítio. São Paulo, Ed. Abril Cultural, 1982

FANTE, John. 1933 foi um ano ruim. Porto Alegre, Ed. L&PM Pocket, 2011

HESSE, Herman, O lobo da Estepe. Rio de Janeiro, Ed. Record, 2008

HOMERO, Odisséia: Rio de Janeiro, Ed. Ediouro, 2002

PAIVA, Rita. Consciência humana e absurdidade em Camus. Revista discurso No 33, 2003, pág. 153-172.

Texto do petiano Luiz Fernando Roriz (Luti) que, além de muito dedicado aos estudos, também tem tempo para a arte!!
Confira a obra dele no MySpace!!
www.myspace.com/lutieosderrotados

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3 comentários em “1933 Foi um Ano Ruim

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  1. A vida tem um propósito?
    Os grandes filósofos gregos tenteram uma sequência de tentativas para restabelecer esta discussão talvez refazendo a pergunta, ou fazendo a pergunta certa:
    O termo grego ataraxía, introduzido por Demócrito (c. 460-370 a.C.), significa tranquilidade da alma, ausência de perturbação. É um conceito fundamental da filosofia epicurista e dos céticos, e pode traduzir-se como imperturbabilidade, ausência de inquietação ou serenidade do espírito.

    Ataraxia é a disposição do espírito que busca o equilíbrio emocional mediante a diminuição da intensidade das paixões e dos desejos e o fortalecimento das almas face às adversidades. A ataraxia caracteriza-se pela tranquilidade sem perturbação, pela paz interior, pelo equilíbrio e moderação na escolha dos prazeres sensíveis e espirituais.

    A ataraxia está muito próxima da apatia proposta pelos estóicos, na medida em que ambas caracterizam estados anímicos que contribuem para o alcance da felicidade através da disciplina da vontade para moderar os desejos e para aprender a aceitar os males voluntariamente. Ambas promovem a liberdade face às paixões, aos desejos, às coações, às circunstâncias e, mesmo, ao destino.

    Distingue-se da apatia pela forma como promove a felicidade. Enquanto esta procura eliminar as paixões e desejos, a ataraxia tenta criar forças anímicas para enfrentar a dor e as adversidades. A ataraxia implica saber aceitar as situações e conviver com elas, ponderando o sentido e a utilidade dos prazeres e do que possivelmente magoa.

    A ataraxia surge, muitas vezes, complementada pela aponia, que se traduz por ausência de dor, ausência de esforço como sofrimento. Segundo Epicuro, a felicidade alcança-se com a ataraxia, que proporciona um prazer estável, e deve ser acompanhada pela aponia, ou seja, pela ausência de dor física.

    Esta praga ocidental dionisíaca introduzida pelo objetivo em si mesmo representado pela da busca da felicidade através do caminho do menor esforço possível, também chamada pelos utilitaristas de racionalidade individual, tem lançado as pessoas desesperadamente em busca de atalhos para esta alegria efêmera, que pode vir desde um gole de uma gelada cerveja, até o sexo inconseqüente, e, no estado mais agudo, ao uso de crack e outras drogas mais sociais.

    As pessoas elegeram, em nome destes princípios, que somente estarão realizadas quando alcançarem a tal felicidade. Essa busca por algo que nem sequer sabem se realmente o desejam, a felicidade, e que quando encontrá-la não fazem perguntas para si mesmo se é isto que é importante para as suas vidas.

    Em primeiro lugar deveriam perguntar: para que serviria a felicidade? Depois, a segunda e óbvia pergunta seria: se a felicidade seria em si mesmo um fim para o seu projeto de vida. A terceira pergunta seria então: o que seria de suas vidas depois de alcançar a felicidade.

    Respondendo a estas perguntas os filósofos gregos criaram pelo menos cinco variantes de escolas de pensamento filosófico para justificarem cada uma destas possibilidades.

    A questão moral (costumes), que é a Ética secular da praxis social, foi derivada da tentativa de substituição à época dos filósofos gregos desde 550 a. C., dos preceitos determinativos do comportamento social e pessoal dados pela religião e pela tradição: tais preceitos doutrinários e dogmáticos.

    Quando se tentou substituí-los (a religião e a tradição) pela racionalidade filosófica, dando-se aos preceitos éticos as justificativas lógicas e principiológicas para o comportamento considerado reto, socialmente aceitável, baseados na razão instrumental.

    Eliminar-se-iam o medo da punição eterna, da punição de consciência, o medo da reprovação social baseada nos costumes tradicionais intraduzíveis, místicos e míticos, pelas variantes racionalistas principais: a) Ataraxia; b)Epicurismo; c) Ceticismo; d)Justiça; e) Estoicismo.

    a) Ataraxia: é a busca da completa serenidade interior, pelo abandono total das perturbações produzidas pelo desejo, através do abandono total de todo desejo; é o desejo não realizado, não concretizado, que leva à frustração. E o principal de todos os desejos é o desejo de felicidade. A frustração levada às últimas consequências conduz à violência ou à apatia, tornando o indivíduo antissocial.

    b) Epicurismo: ou hedonismo, seria a busca utilitarista da felicidade através do prazer, fazendo-se um balanço desta busca da felicidade através da economia e escolha racional entre o parazer e o dever, entre o sacrifício e o prazer, fugir da dor e do sacrifício desnecessário e improducente, minimizando as expectativas de sofrimento e maximizando as expectativas de prazer e de vantagens através do cálculo egoísta entre o dever e o prazer, entre o custo e o benefício.

    c) Ceticismo: seria a busca racional da verdade absoluta pelo abandono de todas as idéias e noções préconcebidas e apriorísticas; buscar a verdade livre de quaisquer condições preexistentes, epoché, imutáveis ou indiscutíveis, insofismáveis. Tudo pode e deve ser questionado, examinado, verificado, investigado, posto à prova, nada pode ser desprezado ou excluído da censura e da dúvida.

    Duvidar de conceitos e das verdades eternas e das afirmações insofismáveis.

    Tudo pode ser questionado, verificado, discutido e modificado. Tudo deve ser testado, demonstrado e atestado. Somente pode ser verdadeiro aquilo que sobreviver ao fato concreto. No limite, chega-se ao niilismo Nietzcheriano: nada é nada, nada é tudo, e tudo é nada, não existem propósitos nas ações e intenções humanas.

    d) Justiça: a noção de justiça, representada pela balança, indica que os nossos atos não podem exceder nem ficarem aquém da medida certa e exata, nos momentos e lugares certos: sem excessos nem falhas, ou faltas. Sendo justos estaremos sempre mantendo o equilíbrio da balança; nem bondade, nem maldade; nem doar nem receber; nem retirar nem entregar nada que não seja direito. Cumprir os deveres na estrita medida do necessário.

    e) Estoicismo: é aquela corrente filosófica que ficou conhecida por defender a importância do sacrifício pelo futuro, deixar de gastar hoje para usufruir depois, pois nada se consegue de útil sem sacrifício, sem o esforço devido. O sacrifício de agora, a poupança, a previdência, a prevenção, abstinência é que podem prover e determinar o amanhã.

    A vida sem coragem para fazer renúncias, para abrir mão do imediatismo dionisíaco e das fantasias e dos sonhos acaba em arrependimento e frustração; o planejamento, a obstinação, a frugalidade, a simplicidade e a abnegação são os únicos caminhos para o sucesso.

    Como se vê, não é fácil entender-se a questão do desejo humano. A questão é mais antiga ainda quando se considerar que Ataraxia e o Estoicismo foram contribuições epistêmicas legadas pelos orientais, chineses, indianos, trazidas à cultura helênica antes da era dos filósofos, pelos grandes aventureiros que saíram pelo Oriente em busca de novos conhecimentos. Estes conhecimentos datavam de mais de dois milênios anteriores à cultura helênica.

    O imediatismo e a ignorância audaciosos levam pessoas simplórias intelectualmente a submeterem-se aos enganadores pseudos-guias espirituais, que sem preparo moral submetem pessoas que sem respostas para as suas angústias e premidas pelo desespero entregam-se ao que lhes parece ser a única solução imediata, e a última saída em muitos casos se esgotados os recursos da medicina e do sistema jurídico estatal.

    A ausência de solução não implica necessariamente em qualquer solução. É preciso ter a humildade para entender e aceitar esta fatalidade.

    Diante da morte e da precariedade muitas pessoas aceitam resignadas o seu destino. Outras justificam atos criminosos em nome do desespero da ausência de alternativas.

    O Estado deveria valorizar mais as pessoas que procuram fugir a estas alternativas, e o que vemos é o contrário: o perdão do crime famélico, o perdão dos menores delinqüentes, em lugar de valorizar aqueles que nas mesmas condições preferiram as privações ao cometimento de atos antissociais.

    A liberdade é uma prerrogativa dos irracionais, dos animais e da natureza. O maior privilégio da razão e do ser humano dotado dela é poder se autoconter, sublimar os seus impulsos animais e intrínsecos e se autodominar. Isto é a verdadeira liberdade: a liberdade de não fazer o que lhe é facultado, mas, não lhe convém.

    O autocontrole explicita o lado racional e social dos grupos humanos diferenciando-nos dos animais que apenas seguem aos seus instintos, sem autocensura.

    Sofrer faz parte da existência humana, nossos sentidos nos despertam o prazer e a dor pelos mesmos mecanismos. Fugir de um deles em detrimento do outro somente nos remete ao primarismo infantil por que ambos os aspectos fazem parte do nosso sistema fisiológico.

    Alguma coisa do nosso primitivo instinto reptiliano continua latente apesar da evolução darwiniana, e teima em não evoluir, este instinto aguça a nossa sexualidade, a nossa gula e o nosso medo da morte.

    Os sentidos da educação, da socialização, da religião, da ética, da moral, e da razão falhariam se a raça humana não conseguir domar os instintos mais primitivos quais sejam: o sexo, a gula, a morte e o medo. Sem isso não seremos humanos.
    Apenas animais em evolução.

  2. Olá Roberto, tudo bem? Espero que sim.
    Como de costume um comentário bastante elucidativo referente ao tema tratado em minha reflexão e agradeço-lhe por isto. Mais uma vez tocaste no tema da ataraxia que, infelizmente viria a ser o tema do meu próximo texto aqui no blog do PET, mas acho que devidos aos seus esclarecimentos recorrentes nos meus textos, maior seria o ganho se eu explorasse outro assunto. De todo jeito, a ataraxia sempre me fascinou, ao que me parece, em seu comentário, você traçou algumas escapatórias dadas pelo ocidente à questão do propósito e da engenharia da vida. Não tenho muito o que dizer, foi uma ótima exposição, bem fundamentada, que eu concordo, e que servirá para que aqueles leitores possam contrastar com as intenções de Camus. Muito obrigado novamente.
    Só tenho uma questão distoante, presente em seu comentário, a saber, a questão da liberdade.
    Você nos diz que “A liberdade é uma prerrogativa dos irracionais, dos animais e da natureza. O maior privilégio da razão e do ser humano dotado dela é poder se autoconter”.
    Não concordo que a autocontenção se confronte com a idéia de liberdade, tal qual eu a concebo. À meu ver, você faz uma confusão simples e bastante normal, ao olhar para a questão humana, entende as intenções, fins, meios e resultados como unificados quando na verdade não o são. A auto-contenção é um instrumento apenas, um meio, para atingir o fim que estaria traduzido na liberdade de se ausentar dos valores e principalmente, (diria schoppenhauer) do desejo. A auto-contenção não pode negar a liberdade se ela a está buscando. O duelo racional contra o desejo e os instintos materializado através da auto censura segue duas lógicas claramente compatíveis com a liberdade, a saber, a primeira de vencer o instinto potencializando ao máximo a razão (ou seja, libertando-a da limitação animal), a segunda, individualizando o ser de tal forma que não encontra-se inserido o indivíduo, às práticas coletivas e aos consensos impostos, interiorizados e autoritários de seus pares. Isso o diferencia do animal porque o animal é parte do todo e não uma parte única, existe o grupo dos leões, dificilmente existiria O leão, individualizado em suas crenças práticas e etc. Não consigo admitir a liberdade como virtude dos irracionais se ela busca libertar a razão do instinto. E muito menos como algo animal porque ela individualiza. Você parece atingir uma conclusão válida e correta apesar de suas proposições não apresentarem essas características, eis que você nos diz, “Isto é a verdadeira liberdade: a liberdade de não fazer o que lhe é facultado, mas, não lhe convém”. Isso é totalmente consonante com meu argumento e a maneira que concebo a liberdade. E era apenas isto que tinha a dizer. Novamente obrigado pela disposição de leitura e os comentários extremamente elucidativos. Um abraço, Luiz

  3. Olá Luiz: que bom poder dialogarmos. Gosto de seus posts.

    Agradeço a sua enorme bondade ao fazer suas críticas totalmente pertinentes. Apenas lamento que você tenha desistido do enfrentamento do tema Ataraxia, que me parece inesgotável. Não desista! Aposto que você daria uma interpretação nova e moderna, pelo que pude avaliar de sua enorme competência intelectual e pelo gosto pela Filosofia.
    Como tenho tendência a recorrer aos exemplos da minha primeira formação, que antecedeu à Sociologia, que foi a Engenharia, costumo me valer dela para ilustrar o meu raciocínio todas as vezes que uma questão de racionalidade objetiva se coloca para confrontar com o conhecimento compreensivo característicos das ciências Versterhen, como é o caso das Ciências Sociais, em geral.
    Na natureza o conceito de liberdade, visto do alto da engenharia, é um caso de inaplicabilidade total. Se recorrermos à famosa Teoria dos Sistemas Gerais de Bertalanffy, veremos que o tal grau de liberdade absoluto termina em caos total, por causa do princípio da entropia tomado emprestado da Termodinâmica, ramo da Física que estuda as energias.
    O princípio da Entropia nos diz, segundo a primeira lei da termodinâmica, que a energia uma vez criada (transformada, pois nada se cria no universo, da matéria) se não for formatada, se não for domada esta energia livre irá causar uma sinergia e uma sinestesia em algum lugar do universo, aumentando o grau de desordem, pois que os físicos são muito pessimistas com relação à espontaneidade da ordem natural no universo, por causa da lei da entropia eles acreditam que a única coisa que prospera espontaneamente no universo é a desordem.
    O princípio da entropia choca-se frontalmente com o desejo dos ecologistas. A entropia deixa muito claro que o fim do universo, do multiverso, das múltiplas dimensões espaço-temporais possíveis e existentes é o caos, e não a ordem, não o cosmos Grego.
    Se você tomar, ainda na engenharia, a roda do seu automóvel, vai verificar que ela somente é útil porque teve os seus graus diversos de liberdade totalmente limitados severamente.
    Uma roda de automóvel possui muitos graus de liberdade, mas, somente alguns destes graus de liberdade podem nos serem úteis.
    Para começar, uma roda pode:
    a) girar para frente;
    b) girar para trás;
    c) girar à esquerda;
    d) girar à direita;
    e) subir;
    f) descer;
    g) oscilar para frente;
    h) oscilar para trás;
    i) oscilar para a lateral direita;
    j) oscilar para a lateral esquerda;
    k) cambar para a direita;
    l) cambar para a esquerda;
    m) girar no eixo longitudinal nos dois sentidos
    n) fazer qualquer combinação dos casos anteriores, dois a dois, três a três, etc.;
    Como se pode imaginar, quase que infinitos modos de movimento pode ter uma roda de automóvel.
    Tal veículo seria um perigo total, e total para a segurança de trânsito, e seria inviável como transporte.
    Então, os engenheiros mecânicos de suspensão de automóvel limitaram severamente estes graus de liberdade da roda, ou seja, os engenheiros transformaram a roda-livre em roda cativa, escrava, limitada aos movimentos realmente úteis e previsíveis, controlados, limitados e administrados para se tornarem úteis como meio de transporte.
    Com se pode depreender a liberdade é uma utopia do mais alto grau de periculosidade não somente porque ela destrói qualquer forma de organização baseada em subordinação a qualquer sistema organizado.
    Para produzir a ordem e a organização são necessários dois insumos: Inteligência e controle. Para o controle se efetivar é necessário informação, e pela informação controles são acionados para corrigir através do feedback os desvios desorganizativos que podem ser destrutivos e desestruturantes para os sistema.

    Portanto, vigilância e controle permanentes são necessários para manter o sistema em sua integridade. Nada disso está assegurado com a liberdade total, absoluta, pois para cada grau a mais de liberdade exigem-se muito mais controles reduzindo estes graus de liberdade. Liberdade e controle andam em lados e sentidos opostos. Liberdade e racionalidade coletiva vivem em permanente conflito de racionalidade.

    O ser humano não é capaz de, utilizando a sua racionalidade individual, produzir coletivamente racionalidade social, seria lutar contra as suas próprias expectativas individuais, pois ele seria incapaz de ver o bem comum, este objeto virtual que pertence a todos e não pertence a ninguém individualmente, logo, não traz vantagens pessoais para todos individualmente, mas afeta a todos.

    A racionalidade coletiva tem de ser imposta de cima para baixo, ela não nasce espontaneamente nem de baixo para cima, nem do individual para o coletivo.

    Para isso, muitas decisões de liderança precisam ser antipopulares e muitas vezes antidemocráticas, como, por exemplo, a vacinação obrigatória, que no século passado, mereceu protestos de ninguém menos do que o maior jurista do mundo, Rui Barbosa, que acusou o Estado de estar violando o direito legítimo do cidadão de dispor de seu próprio corpo, contra o Estado, mas, em nome do bem comum o Estado violou este princípio, porque o bem estar coletivo se sobrepõe ao bem estar individual.

    Ademais o indivíduo nunca pode saber exatamente o que é bom para si, faltam informações em quantidade, faltam qualidade e capacidade de interpretar estas informações, como, por exemplo, na escolha de um computador pessoal, de um modelo de iphone, de um automóvel, de um remédio ou de uma profissão.

    As escolhas que dependem desta racionalidade individual levam ao irracional coletivo. A racionalidade coletiva depende da interferência do gerenciamento político que se sobrepõe aos desejos imediatistas e individualistas que são incapazes de perceberem os benefícios coletivos advindos de uma outra possibilidade para além do que o seu horizonte pessoal permitiria por si só sem contrariar a sua racionalidade individual. Seria um contrasenso o indivíduo se sacrificar sem perceber de imediato as vantagens que o seu sacrifício representaria para o todo, e consequentemente, para si. Poucos abnegados são capazes de aceitarem este sacrifício.

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