Do Outro Lado da Fumaça: Controvérsias e Ambigüidades na Guerra ao Terror

A data 11 de Setembro de 2011 ficou marcada na História Mundial devido ao choque de duas aeronaves nas duas torres do World Trade Center, localizado em Nova York. Atualmente, estão reconstruindo as duas torres que desabaram em uma grande nuvem de fumaça, ao lado do memorial feito em lembrança desse acontecimento, que acarretaria diversas conseqüências na Política estadunidense.

O “11 de Setembro” foi uma tragédia e emocionou pessoas em diferentes partes do mundo, com imagens de bombeiros entrando nos destroços, familiares chorando suas perdas, e políticos fazendo discursos sobre o quanto estava abalada a sociedade dos Estados Unidos. Entretanto, as conseqüências desse dia, que até hoje comove cidadãos estadunidenses – afetariam lugares muito mais distantes do que meramente a Estátua da Liberdade ou Wall Street.

Os ataques do 11 de Setembro trouxeram para a política de segurança estadunidense um renovado vigor. Se antes a opinião das partes do Governo estadunidense andava fragmentada em relação à segurança, em 2002 houve um esforço de compilação que resultou no National Security Stragegy, um documento escrito pelo National Security Council e que expunha a doutrina Bush, a qual se baseava no direito de auto-defesa pré-emptiva. Isso significava que os Estados Unidos poderiam atacar outro país, caso se sentisse ameaçado, ataque que iria constar como “auto-defesa”.

A invasão do Iraque foi um exemplo da prática desse conceito de auto-defesa pré-emptiva. Tropas estadunidenses invadiram o Iraque, mesmo sem a autorização do Conselho de Segurança da ONU, sobre a alegação da existência de armas de destruição em massa, armas essas que nunca foram encontradas.

No entanto, mais do que pretextos para intervir em outros países, o 11 de Setembro criou uma nova divisão do mundo. Se antes no Direito Internacional as nações eram divididas entre civilizadas e não-civilizadas, depois de Setembro de 2011 elas passaram a ser divididas entre democráticas e não-democratas, ocidentalistas e fundamentalistas, bem e mal, em que os EUA exerciam sua missão de salvar a América.

Todavia, o problema dessa divisão é que ela inclui não apenas os grupos terroristas, mas os civis que casualmente morrem nessas tais medidas “preventivas”, tais como a invasão do Iraque e a intervenção do Afeganistão. Mas do que tudo, ela ressurge um sentimento cívico nacionalista, de amor à pátria, que no entanto não deixa de ser excludente em relação a outras culturas [vide as políticas em relação aos árabes nos EUA após o 11 de Setembro].

Mais do que isso, cria-se um feitichismo à tragédia, que pode ser utilizado como forma de convencimento – em termos de discurso retórico – da população, levando a uma legitimação da violência  e da divisão do mundo como contra-medidas ao Terror. Terror esse relacionado a determinado grupo que se localiza “do outro lado”. Do lado contra o ocidente. Sim, morreram cerca de 2,8 mil pessoas no atentado ao World Trade Center.

No entanto, morreram um número maior de pessoas no Iraque, entre elas civis que nada tinham a ver com toda essa história. Da mesma forma, morreram pessoas durante as intervenções militares empreendidas pelos EUA, as ditaduras na América Latina apoiadas pela CIA, entre outros eventos relacionados à política dos EUA, assim como morrem centenas de milhares de pessoas devido à fome, em países anteriormente explorados economicamente pelos EUA.

A diferença é que essas pessoas não possuem seus nomes gravados em um memorial. A diferença é que essas pessoas são sequer lembradas.

Um texto da Petiana Nayara

Referências Bibliográficas:

ANGHIE, Antony. The war on terror and Iraq in Historical perspective.Osgoode Hall Law Journal. Toronto, vol. 43, No. 1 & 2, 2005, p. 45-66

BONHAM, G. Matthew; HERADSTVEIT, Daniel; NAKANO, Michicko, SERGEEV, Victor M. Working Paper: How We Talk about the “War on Terrorism” Comparative Research on Japan, Russia, and the United States. [prepared for delivery at the 9th World Congress of Semiotics, to be held on 11–17 June 2007 at the University of Helsinki, and at International Semiotics Institute at Imatra] Oslo: Norwegian Institute of International Affairs;

BRUNNÉE, Jutta and TOOPE, Stephen J. The use of force: International law after Iraq. International and Comparative Law Quarterly. London. Vol 53. Nº 4, 2004, p. 785-806.

SOULEIMANOV, Emil – HORÁK, Slavomír. Islam, Islamist Extremism in the Caucasus and Central Asia: A Critical Assessment, in Ursel Schlichting (ed.), OSCE Yearbook 2006. Hamburg: Nomos Verlaggesellschaft 2007. Pp. 271-287;

TOWNSHEND, Charles. Terrorism: A Very Short Introduction. New York: Oxford University Press, 2011.

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2 comentários em “Do Outro Lado da Fumaça: Controvérsias e Ambigüidades na Guerra ao Terror

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  1. Nay, como você sabe, esse assunto me interessa. Assim, não poderia deixar de comentar esse texto. Vou tentar tratar dos argumentos menores e por fim, talvez, surja um argumento maior para dar um sentido único a tudo.

    Primeiramente, é verdade que o 11/09 possibilitou que uma agenda específica de segurança e visão de mundo – que já existia desde muito antes dos atentados – defendida, principalmente, por neo-conservadores fosse implementada. Ainda assim, é importante salientar que importantes seguimentos da política dos EUA, inclusive dentro da administração Bush, não concordavam com os métodos defendidos, principalmente, pelo Departamento de Defesa e pelo Escritório do Vice-Presidente. O Departamento de Estado e própria CIA acreditavam que medidas tomadas pela administração não eram vantajosas. Também falaram abertamente contra a abordagem Bush, indivíduos de destaque na política dos EUA. Alguns exemplos são Brent Scowcroft, James Baker, Lawrence Eagleburger entre outros veteranos de Washington.

    Além disso, não concordo quando você diz que a política de segurança dos EUA estava fragmentada antes do 11/09, ao menos em relação ao Oriente Médio, ainda que existissem vozes discordantes. A política do país em relação ao Oriente Médio era pautada pela política de contenção e equilíbrio, tendo em vista a influência regional exercida pelo Iraque e pelo Irã. Essa havia sido, inclusive, a política dos EUA para a região desde a Revolução Islâmica de 1979.

    Por outro lado, concordo quando você diz que o 11/09 pôde ser utilizado para inflamar a opinião pública dos EUA em favor de ações militares no exterior. Isso foi feito. Também pode ser importante ressaltar que, ainda que existisse uma preocupação real com as armas de destruição em massa, esse nunca foi (entre os altos componentes da administração) o grande motivo. Existia um interesse geo-estratégico em invadir o Iraque e alterar a dinâmica do Oriente Médio em favor de interesses Ocidentais, especialmente dos EUA.

    Por fim, não entendi o que você quis dizer em relação a perda de vidas. Você sabe que políticas geo-estratégicas de abrangência global, ainda que possam se preocupar com a questão das vidas humanas, em geral, colocam esse fator como secundário.

    Abs.

  2. É claro que um assunto desta envergadura deve ser da categoria daqueles onde mais linhas de análise foram produzido naHistória do mundo desde a invenção da imprensa por Gutemberger.
    O próprio jornal Le Monde tem uma versão conspiratória sobre este evento de 11 de setembro de 2001. Há a política do Check Book, há o panarabismo, o antisemitismo, e por aí vai.
    Em primeiro lugar é preciso ter coragem para acrescentar mais uma análise sobre o asssunto, até memo considerando que o Brasil é a meca dos cientistas sociais, de acordo com as estatísticas intenacionais o Brasil é o maior formador de cientistas sociais no mundo em números absolutos, formando cerca de 277 mil/ano, é o Pais do blá-blá-blá, entre os quais eu me incluo como cientista político.
    Mas eu também sou atrevido e me arrisco a produzir os meus papers sobre sociologia e psicologia social.
    Em primeiro lugar é preciso estabelecer um acordo sobre o termo terrorismo. O que significa ou o que significou para a minha geração saber que em 30 minitos os Minuteman e os SS60 poderiam destruir o mundo mais de 40 vezes, e que os vôos da morte dos B52 voando 24 X 24 horas sem parar nos limites da fronteira da Ex-URSS prontos para detonar armas mucleares.
    O que significa uma população inteira sofrer com a angústia da ameaça de bombardeios durante 100 longos dias que antecederam o ataque ao Iraque ordenado pela maior potência militar sem saber para onde correr se é que poderia haver alguma alternativa para proteção contra armas de 1 milhão de dólares dos mísseis de cruzeiro, bombas guidas por laser e GPS!
    Se isto não é terror então o que é terrorismo?

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