O Livre-Arbítrio, os Animais e o Problema do Mal.

Na filosofia, um dos grandes temas de debate é relativo a Deus[1]. Nesse tema específico, um dos principais argumentos dos descrentes pode ser encontrado no chamado “problema do mal”. Tendo em vista essa questão específica, tentarei nesse texto, primeiramente e de maneira sucinta, recapitular os fundamentos da discussão do problema do mal. Tendo feito isso, dedicarei a última sessão para tratar de uma abordagem sobre a questão que me veio à mente recentemente.

 O Problema do Mal

Toda a argumentação nessa área diz respeito à premissa de que existe mal no mundo. Diz-se que esse mal se manifesta principalmente a partir de atitudes que causam sofrimento infligido de humanos para humanos, de humanos para animais e por eventos cataclísmicos. Embora seja possível observar todos essas formas de maldade, essa premissa está sujeita a argumentos relativistas, os quais eu não pretendo tratar.

De qualquer forma, partindo do pressuposto de que o mal existe, entra-se em óbvio conflito com a ideia de Deus, da forma como ele é concebido pelas principais religiões monoteístas. Afinal, esse Deus específico se baseia em três pressupostos: ele é onisciente (sabe tudo), onipotente (pode tudo) e benevolente. Ora, se ele sabe tudo, ele sabe que o mal existe, se ele pode tudo ele poderia impedir o mal de ocorrer e se ele é benevolente, ele possui a motivação para impedir que o mal ocorra. Apesar disso, o mal ocorre diariamente e é nesse ponto que se encontra a contradição entre a ideia de Deus e a existência do mal.

Tendo em vista essa contradição, surgiram argumentos na tentativa de explica-la:

            Uma primeira explicação para o problema do mal está relacionada ao suposto fato de que a existência do mal seria um fator que estimula a bondade dos indivíduos. Como é colocado por Warburton, “sem pobreza e doença, a grande bondade moral de Madre Teresa de Calcutá, ajudando os necessitados, não teria sido possível” (Warburton, 43, 2008).

            Uma segunda tentativa de explicação estaria relacionada a uma analogia artística, onde o mundo seria como uma obra de arte e a existência do mal seria um fator de equilíbrio, criando uma “pintura” bela.

            Uma terceira tentativa de explicação é a existência do livre-arbítrio. Segundo essa tese, os humanos possuem capacidade de escolha e, portanto, são livres para escolher entre o bem e o mal. Segundo esse argumento, humanos com liberdade de escolha seriam preferíveis a autômatos que apenas fazem o bem porque assim foram designados. Além disso, é importante notar que esse livre-arbítrio costuma ser considerado possível somente a partir do momento em que tratam de seres providos de razão, no caso, os seres-humanos.

Críticas ao Livre-Arbítrio

            Embora todas as tentativas de explicação possam ser criticadas, a minha intenção é focar na principal dessas tentativas, a saber, o livre-arbítrio. No caso do livre-arbítrio, é possível encontrar, segundo Warburton, três críticas principais:

  1. Uma crítica apontada é que Deus poderia ter criado o mundo sem o mal. Afinal, se existe o mal e o bem, fica claro que podemos optar entre os dois. Ainda assim, como seria se o mal fosse substituído por X? Os humanos teriam a possibilidade de escolha entre o bem e X. Resumindo, só é possível optar por algo que atravesse o reino da realidade, mas a realidade é determinada por Deus, assim bastaria que ele não tivesse criado o mal.
  2. Outra crítica argumenta que se Deus interfere no mundo por meio de milagres que, aparentemente, possuem importância reduzida, por que ele não intervém para impedir catástrofes de grandes proporções?
  3. Uma terceira crítica diz que, ainda que o argumento do livre-arbítrio explique o mal proporcionado pelos humanos, ela não explica o mal natural, ou seja, a existência de perturbações climáticas e geológicas que causam destruição e sofrimento.

Em relação a essas críticas, os defensores do livre-arbítrio propõem outros argumentos que não vou explorar, mas que se resumem no fato de que Deus não interfere no livre-arbítrio dos seres terrenos, no caso das duas primeiras críticas. Tendo em vista o caso da última crítica, o argumento é de que é preferível possuir leis naturais que possuam como efeito colateral esse tipo de mal natural do que não possuir leis naturais, o que faria com que o mundo fosse um completo caos impossibilitando a própria existência da vida.

O Caso dos Animais e o Problema do Mal[2]

            Apesar de todas as considerações já feitas, percebi recentemente que havia um mal específico que não havia sido levado em consideração: o mal proferido por animais[3] contra outros animais. Incluindo essa categoria de mal na análise, parto do pressuposto de que o mal pode ser considerado absoluto (desde que se aceite a existência de Deus) e, dessa forma, as análises relativas a esse tema também podem ser aplicadas aos ditos animais irracionais.

            Tendo isso em mente, muito leitores poderiam pensar que esse pensamento não se aplica, uma vez que os animais vivem de acordo com necessidades básicas em um ambiente hostil, sendo justificáveis atitudes predatórias. No entanto, não me refiro a essas atitudes, relacionadas à dinâmica entre predador e presa, como algo mal. Como ficará claro nos exemplos que utilizarei, considero como manifestação do mal no reino dos animais atitudes que se encontram, a princípio, fora do âmbito da necessidade.

            Nesse sentido, um primeiro exemplo diz respeito às formigas escravagistas. É de conhecimento amplo a existência desse tipo de formiga que pode ser encontrado na Ásia, Europa, América do Norte e África. Esse tipo específico de formiga invade uma colônia rival e rapta ou rouba as larvas existentes nessa colônia. As larvas são alimentadas na colônia escravagista e quando se tornam adultas atuam como escravas para essa colônia. Outro exemplo, também conhecido, são as orcas ou baleias assassinas que brincam de maneira “cruel” com suas vítimas (em geral, focas) antes devorá-las. Esse exemplo é altamente difundido em documentários sobre animais. Inclusive, o gato que vive em minha casa também possui o hábito de “brincar” com a sua comida ainda viva. Um terceiro exemplo está relacionado ao fato de que leões machos matam filhotes da mesma espécie, mas de outro macho, com o intuito de garantir domínio. Há também pássaros que substituem ovos de um ninho por seus ovos. Fazem isso para que seus ovos sejam chocados e alimentados por outros pássaros. Enfim, os exemplos são muitos e gostaria de ter sido mais detalhado, mas não consegui informações sobre todos os exemplos e o espaço é curto. O que é claro de se observar nesses exemplos, independente de regras evolutivas, que em todos os casos encontram-se situações no mínimo questionáveis e que, em minha opinião, podem ser consideradas como algo mal.

            De qualquer forma, como isso se relaciona com a questão do livre-arbítrio? Basicamente, o livre-arbítrio explica o mal por meio do argumento de que os humanos possuem a liberdade decisória em relação ao bem e o mal. No entanto, como esse argumento se adapta aos atos maus proferidos pelos animais? Ora, os animais não possuem raciocínio da forma como é aceito pelas religiões que os humanos possuem. Assim, eles não possuem a capacidade de escolher entre o bem e o mal que é dada aos seres providos de razão, ou seja, suas atividades estão mais intimamente relacionadas a uma lógica de instinto que, estou considerando aqui como sendo uma forma de intelecto mais automática.

            Considerando esse intelecto automatizado mais característico dos animais, é possível relaciona-lo a um autômato. Como todas as criaturas são criadas por Deus, é fácil supor que as características instintivas dos animais são totalmente ou em grande medida definidas por essa entidade metafísica suprema. No entanto, como poderia essa entidade dotada de benevolência, onisciência e onipotência “programar” as criaturas que não possuem a qualidade da razão e, dessa forma, a possibilidade de escolhas conscientes entre o bem e o mal, para se engajarem em atividades cruéis ou questionáveis como as descritas nos exemplos?

            Aqui eu cheguei ao ponto que desejava desde o início: a argumentação do livre-arbítrio não parece ser capaz de explicar o caso do mal no reino animal e, portanto, não eliminaria o problema do mal. Isso decorre da contradição entre a existência de comportamentos considerados maus sendo proferidos por criaturas que possuem um intelecto “programado” por um Deus que deveria prezar pelo bem.

 

Conclusão

            Tentei abordar no texto as questões básicas envolvendo o problema do mal, como a crítica básica e as formas encontradas para explicar a aparente contradição. Por fim, foquei na questão do livre-arbítrio e tentei dar um novo enfoque sobre o tópico, tendo como base a questão do mal no reino animal. Segundo esse enfoque, o livre-arbítrio não explica o problema do mal porque ele só diz respeito aos seres dotados de razão e, dessa forma, capazes de escolhas conscientes. Os animais por sua vez possuem um sistema de escolhas mais inconsciente e pautado pelo instinto (ligado a certa automaticidade). Esse instinto é concedido por Deus, uma vez que ele é o criador de todas as coisas. A contradição está na pergunta: por que Deus; sendo benevolente, onisciente e onipotente; concederia instintos maus a criaturas que não podem optar por escolher entre estes instintos e o bem?

P.S – Não considero como certas muitas das premissas adotadas nesse texto. Muitas delas foram consideradas verdadeiras apenas dentro de um contexto ou visão de mundo específico.

Um texto do petiano Matheus Borem.

Bibliografia

WARBURTON, Nigel. O Básico da Filosofia. Tradução: Eduardo Francisco Alves. Rio de Janeiro: José Olympo, 2008

O restante dos dados foi adquirido há tempos atrás em conversas com pessoas que estudam sobre o livre-arbítrio e em documentários sobre animais. Além disso, algumas informações foram apanhadas nos seguintes endereços eletrônicos:

http://www.not1.com.br/formigas-escravizam-outras-mundo-animal-acredite-se-quiser/

http://www.espirito.org.br/portal/palestras/irc-espiritismo/estudos-espiritas/le010400.html


[1] Sempre que utilizar a palavra Deus, estarei retratando a forma que essa entidade assume, de forma geral, nas principais religiões monoteístas: cristianismo, islamismo e judaísmo.

[2] Gostaria de ressaltar que não possuo conhecimento de nenhum artigo, livro ou outro tipo de trabalho acadêmico desenvolvido sobre a questão dos animais e o argumento do mal, embora tenha feito uma pesquisa limitada sobre isso. Caso alguém conheça qualquer tipo de publicação nesse sentido, por favor, me diga e desculpe qualquer constrangimento.

[3] Sempre que usar a palavra animal, me refiro aos ditos animais irracionais.

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6 comentários em “O Livre-Arbítrio, os Animais e o Problema do Mal.

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  1. O demônio é o culpado!

    Coitado do Demônio! O Pastor Silas Malafaia não lhes dá descanso! O Diabo anda extremamente ocupado. O tempo todo, tudo que sai errado, e, na conta do Demônio todo o mal lhe é imputada para débito!

    No dia 11 de setembro de 2001, o Diabo estava em Malibú, Califórnia, na casa de Charles Sheen, tomando cerveja na varanda enquanto o Charles executava mais uma vítima de seu charme e riqueza.

    Mas, o Presidente dos EUA, Bush, imediatamente invocou o nome do Demônio para culpá-lo, mais uma vez, pelos ataques suicidas terroristas que levaram pânico, e um incalculável prejuízo à economia norteamericana, e por contaminação, ao resto do mundo.

    Mas o Demônio nem sabia desse ataque, porque o seu serviço de informações ainda é antigo, e não pode rivalizar com o do FBI e da NSA, os quais também não detectaram a preparação daquele atentado terrorista.

    Além do mais, ele, o Diabo, tem o mundo inteiro para cuidar, afinal somos 6,5 bilhões de almas pecadoras: são casais que precisam brigar, assassinatos, traições de casais, traições entre sócios, roubos, latrocídios, homicídios, corrupção, mentiras, desfalques, cobiça, invejas, falsos testemunhos, delinquência juvenil, pichações, rock and roll, funkeiros, axé, greves, ataques terroristas, prostituição, assédio sexual, assédio moral, campanhas políticas, discurso e promessas políticas, cola na escola e nos concursos, pedofilia, parada gay, atropelamentos, torturas, falsificações de dinheiro, de documentos, fraudes, vendedores, advogados, analistas de sistemas, vendedores de carros, fabricantes de produtos pirateados, enfim a lista parece infinita.

    Os computadores do Demônio vivem sobrecarregados de serviço, e quase sempre a sua rede de dados vive congestionada, ela funciona com o Windows, voce sabe, o Demônio ainda nã conseguiu infectar com vírus de computador a rede Linux, por falta de tempo para estudar o seu Kernel.

    Mas as pessoas, principalmente os pastores e padres, acreditam ainda que o Demônio consegue dar conta de tudo que acontece de errado no mundo.

    Uma palavra deve ser dita em defesa do Demônio: as pessoas são imprevidentes, e facilitam o azar e culpam o Demônio pela maioria de seus infortúnios. Por exemplo: atravessam a via expressa por baixo da passarela de pedestres. Muitas vezes conseguem driblar os veículos que circulam em altíssima velocidade, e mesmo com a ajuda do Demônio que dá uma pisadinha nos aceleradores dos carros tão logo os pedestres adentram a via, eles, os pedestres desafortunadamente conseguem escapar do atropelamento, prova de que o Demônio não pode dar conta de tudo!

    Tem gente que facilita muito a vida do Demônio, e por total assoberbamento de tarefas do mal o Demônio nem se quer pode se aproveitar da chance de deletar o desafortunado inconsequente, como por exemplo, quantas pessoas que andam sem o cinto-de-segurança, pessoas que andam com pneus do carro completamente liso, pessoas que fumam mais de duas carteiras de cigarro por dia, pessoas que ignoram todas as campanhas do governo para tomarem de graça as vacinas que lhes salvariam a vida, e as dos seus filhos, pessoas que não fazem o recall gratuito para sanarem defeitos graves de seus carros, pessoas que ignoram os sinais de trânsito durante anos a fio, enfim, são tantas tarefas para o Demônio que ele é obrigado a abrir mão de coisas tão fáceis de concluir com êxito por estar completamente incapacitado para atender às demandas crescentes dos irracionais e imprevidentes humanos.

    Mas, quando vem um Tsunami, ou um Terremoto as pessoas o culpam. Como é possível provocar um Tsunami ou Terremoto?

    Uma enchente causada por chuva é uma chance de ouro para a qual o Demônio reserva seu pessoal de plantão, pois a oportunidade lhes é dada de uma tal forma que seria inaceitável não aproveitá-la: veja só, pessoas, milhares delas, vão construir as suas casas, casebres, nas encostas dos penhascos, sem qualquer cuidado e supervisão da engenharia, convidando a catástrofe. Quanto mais passa o tempo sem acontecer o esperado, mais gente se acumula ali, acumulando forças para uma grande tragédia, com dia e hora marcados.

    Depois, é só alegria! Centenas de mortes, famílias desintegradas, órfãos, viúvos, viúvas, miséria, sofrimento, saudade, e enterros, aos montes! É a verdadeira festa do Demônio. É o seu melhor negócio! A ajudá-lo tem os políticos que antes da desgraça trazida pela tragédia das enchentes, dos deslizamentos, seguidos de desmoronamentos e dos soterramentos, são eles os vereadores e deputados que sobem aos morros e garanten que nenhum poder público vai despejá-los de suas humildes e indignas residências, assim todas as tentativas do judiciário, da defesa civil e dos governantes para evitar o inevitável é anulado pelos colaboradores do Demônio; os demagogos das favelas travestidos de defensores do pobre proletário e de suas residências precarizadas.

    O Demônio anda envaidecido pela super valorização de seus feitos, mas ele sabe que possui muitos colaboradores anônimos que contribuem para aumentar a sua fama.

    Os pastores em suas pregações apenas retiram das costas dos humanos a culpa direta pelos seus pecados e faltas, culpando o pobre Demônio por tê-los induzidos ao erro aproveitando-se de suas fraquezas morais e espirituais, muitas vezes o pastor expulsa os Demônios do espírito destas pessoas porque o próprio Demônio vai buscar outra alma mais fácil, como se viu, não falta gente querendo facilitar a obra infindável Dêle, o Demônio.

    Chegamos ao ponto de talvez nos considerarmos privilegiados, ou abençoados, por termos merecido a especial deferência de sermos o alvo de sua ação, tal a sua frenética atividade em todo o Globo Terrestre, e se alguém disser que a culpa é do Demônio, no mínimo é porque se acha muito importante para merecer tal atenção.

    1. Interessante.
      Inclusive, em relação ao demônio, a sua existência também entra em contradição com as três características básicas do Deus ao qual me refiro no texto.
      Só pra constar.

  2. Olá, Matheus.
    Primeiramente gostaria de fazer algumas considerações. Achei legal você ter englobado no seu texto uma questão que lhe veio a mente e que não tem a ver com a relação entre humanos. É um assunto que eu me interesso e por isso o texto me chamou a atenção. Mas acho que alguns questionamento cabem aqui. Apesar de não se tratar de uma relação entre humanos, a forma como você a abordou quase buscou humanizar algo que tem uma racionalidade completamente distinta. Ou seja, ideias como escravidão, domínio, bem, mal, crueldade são próprias dos seres humanos e nós, as vezes, fazemos um prolongamento delas para todos os outros tipos de vida. Meu ponto é: considerando que não há nenhum ser transcendente ao plano do real – aqui, evito qualquer discussão acerta de Deus -, os animais são só entes que se relacionam entre si e com o resto do mundo de acordo com sua propria lógica de funcionamento. Não sei se consegui ser clara e minhas ideias ainda tão tomando forma, mas espero ter contribuído.

    Laryssa Teles

    1. Com certeza, Laryssa. Concordo totalmente.
      No meu texto eu abordei as atitudes dos animais de maneira humanizada de propósito. Fiz isso partindo do seguinte pressuposto:

      Se as regras que definem o bem e o mal são fruto de uma entidade metafísica absoluta, essas devem ser possíveis de aplicabilidade também de maneira absoluta, sem necessidade de qualquer tipo de complexificação relativista.

      Se essa explicação não tiver sanado sua crítica, pode dizer. :)

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