A vida reversa de Dylan

Dylan, 21 anos. Acordava todos os dias muito cedo. Vestia um terno de bom corte para ir à universidade. Fazia a proeza de engolir o seu almoço em trinta minutos para chegar mais cedo no estágio. O trânsito, ele pensava, naquela hora era terrível. Um suco de laranja ele tomava durante as tarde, pois a sua mãe lhe dizia desde pequeno que vitamina C era extremamente importante. Depois voltava pelo caminho da orla, quando o sol tocava o horizonte do mar. Sentia a brisa no seu rosto e cabelo umedecido. Ele não gostava de praia, mas comparecia todos os domingos para encontrar os amigos. Jogava futebol para não parecer afeminado. Cortara os cabelos grandes, abandonara o álcool muito cedo, porque esse era o conceito de dignidade passado pelos seus pais e professores através da sabedoria da autoridade. Ah, como ela era sábia com suas metodologias inovadoras de palmadas, que depois evoluíram para um cinto de couro! Mesmo assim, contra a vontade de ser um bom filho, em todas as festas que ia ele tinha que pegar um copo de tequila. Encostava-o na boca e jogava na torneira quando ninguém prestava atenção. Afinal, era importante que seus amigos soubessem que ele era um cara legal. Gostava de Rock, mas deixara o sonho de tocar guitarra para aprender piano. Seu professor prezava pela disciplina, então Dylan ensaiava cerca de duas horas por dia. Dormia oito horas, porque a Ciência informara-lhe que era a quantidade de horas necessária. E quem ousava questionar a Ciência naqueles dias? Tinha uma namorada, loira, alta e magra, porque era esse tipo de garota que seus amigos achavam bonita. Fumava escondido, quando não conseguia controlar suas preocupações, afinal aquele papel enrolado lhe conferia uma espécie de sensação inexplicável de poder. Bebia refrigerantes apenas nos finais de semana. Ia ao cinema com freqüência para poder debater os filmes com os colegas de sala durante os dez minutos que passavam entre uma aula e outra. Reciclava papel, porque os jornais diziam que o aquecimento global ainda mataria os seres humanos. Possuía uma imensa coleção de carrinhos, que ficavam escondendo seus e ursinhos de pelúcia. Todos os dias, ele se dirigia para a academia em seu carro importado, que dera entrada com o dinheiro que ganhara no estágio. Malhava uma hora, apesar de não achar que precisasse. Mas talvez, se por acaso ele faltasse à aula de spinning, as pessoas achassem que ele estava engordando. Freqüentava, muito raramente, alguns shows de Hardcore. Olhava para o guitarrista com aquela cara de inveja, como se nada estivesse em seu lugar. Porém, logo em seguida, lembrava que nada podia estar errado, pois nascera em uma família privilegiada, frequentara as melhores escolas e cursava uma universidade de prestígio, oportunidade que poucos na vida tinham. E acima de tudo, amava sua vida mais do que ninguém, pois fora isso que aprendeu nas suas crenças desde pequenos, que ele deveria se conformar e que na realidade tinha muita sorte de ter vindo ao mundo.

Dylan, 21 anos. Acordava todos os dias achando que vivia a vida de outra pessoa.

Texto de Nayara Macedo,  dedicado a todos aqueles que não fizeram algo que queriam seja por quaisquer motivos que fossem, tal como a pressão do Estado, da sociedade, ou de grupos menores.

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4 comentários em “A vida reversa de Dylan

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  1. e quando o motivo é o destino, a fortuna, alguma divindade qualquer ou, como outros chamam, puro azar?
    e quando, de fato, se vive, e não apenas se acha que vive, a vida de outra pessoa?

  2. Lindo, me senti muito contemplado pelo texto nay. Deus sabe o que eu queria ter feito da vida.. Deus sabe o que eu queria ter feito.. devo ser alguma espécie de covarde ou algo assim..

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