A invenção do tempo

Era como uma linha de montagem, mas com objetivos completamente diferentes. Engraçado uma coisa tão familiar e afetiva parecer com a produção capitalista em massa que se desenvolveu com a industrialização.  Os milhos eram colhidos pelo meu avô, que os levava cantarolando até a casa, onde toda a família esperava ansiosa para começar a farra. E era mesmo uma farra boa; eu e minhas primas tirávamos o cabelo do milho, que era passado para ser cortado pelas minhas tias, batido, e colocado nas palhas pela minha avó e amarrado e levado ao fogo por tios ou amigos, quando estaria pronto para ser cozido. Todo processo de fazer pamonha era divertido, cheio de piadas e histórias de que me lembro até hoje. Essa brincadeira durava o dia inteiro, e ninguém se importava com o tempo que passava, até porque isso, quando se tratava em estar com a família, nós tínhamos de sobra…

Nada é mais nostálgico que me lembrar desse tempo na chácara da minha avó. E não é só aquela nostalgia que se sente da infância, mas principalmente uma saudade da forma como a gente lidava com o tempo, e do valor que era dado a ele.

O debate sobre a aceleração do tempo, tanto na história quanto no dia-a-dia, é bem amplo em meios acadêmicos. A busca pelo constante aumento da velocidade da vida pela ciência, pela facilitação das atividades diárias, tem gerado consequências diversas e nunca imaginadas na vida das pessoas. Elas lutam contra o tempo muitas vezes sem nem mesmo saber por que, ou por uma ideia de eficiência um tanto ilusória; dão valor à praticidade em detrimento da qualidade, preferem rapidez à intensidade dos momentos. Disso segue um sentimento de agonia típico da sensação de falta de tempo, uma loucura estressante que sufoca, nessa tentativa de aproveitar cada segundo que resta.

É assim que atividades simples, como a de comer e fazer comida, são negligenciadas. O fast food vem, então, como uma salvação para os ocupados, aparentemente sempre perseguindo o Coelho Branco da Alice. Como diz o filósofo paranaense Mário Sérgio Cortella, vivemos um período de “miojização” da vida, ou ainda, em um processo de “des-pamonhalização” dela. Aquele prazer que fazer pamonha se torna raro, sendo, claro, uma metáfora para atividades diárias como um todo.

Acredito que, hoje, vivemos um paradoxo. Ao mesmo tempo em que se buscam maneiras de aumento da eficiência, de produzir o máximo em um menor tempo possível, surgem movimentos que lutam por uma ideia de desaceleração temporal e de preocupação com a forma com que gastamos nosso tempo.

Esse é o caso do movimento internacional chamado Slow Food, criado pelo ativista alimentar Carlo Petrini, em Bra, na Itália, em 1986. De início, o movimento tinha como objetivo apoiar e defender a boa comida, o prazer gastronômico e um ritmo de vida mais lento.  Mais tarde essa ideia foi ampliada para a qualidade de vida, tendo como consequência a preocupação com nossa própria sobrevivência. [1]

Para tal, ele prega o que chama de uma “neogastronomia”, ou seja, uma gastronomia como liberdade de escolha, como educação e como uma abordagem multidisciplinar em relação à comida. Defende a biodiversidade e a sustentabilidade, ao incentivar produções locais, consideradas parte de uma herança culinária, de tradições e culturas que possibilitam o prazer de comer bem.

Tal filosofia fica clara no Manifesto do movimento Slow Food:

“Somos escravizados pela rapidez e sucumbimos todos ao mesmo vírus insidioso: a Fast Life, que destrói os nossos hábitos, penetra na privacidade dos nossos lares e nos obriga a comer Fast Food.

Que nos sejam garantidas doses apropriadas de prazer sensual e que o prazer lento e duradouro nos proteja do ritmo da multidão que confunde frenesi com eficiência.” [2]

A partir desse movimento, surgiram novos grupos com a ideia de desaceleração aplicada a temas como relacionamentos, saúde, trabalho, educação e lazer. São exemplos deles o movimento Slow (http://movimientoslow.com/pt/filosofia.html), o Slow Moviment (http://www.slowmovement.com/aboutus.php). Ambos buscam uma nova ideia de conexão com as esferas da vida, de forma mais pausada e tranquila, e uma nova concepção de lentidão, para que ela perca sua imagem pejorativa.

Toda essa filosofia Slow me faz lembrar de uma crônica de Fernando Sabino chamada “A invenção da laranja”.  Nela, o escritor conta a história de um produtor de laranjas que se preocupa ao ver a concorrência de seus vizinhos mais prósperos. Ele procura, então, meios mais eficientes de transporte do conteúdo da laranja.

Tenta transporta-la em um vidro, mas ele não conservava o suco por tempo suficiente para a venda; depois, em lata, mas o gosto se alterava; e em caixas de papelão, mas eram muito frágeis para o transporte. Até que ele teve a ideia de tirar o miolo da laranja e transportar o suco dentro da própria casca, mas infelizmente ela murchava muito rápido. Por fim, o produtor de laranjas tem uma ideia infalível: a de transportar o suco da laranja nos próprios gomos, da forma como a fruta havia sido colhida. É aí que ele inventa a laranja! [3]

Várias interpretações do conto são possíveis. A partir de sua leitura, tenho uma impressão de que a busca pela eficiência é um círculo vicioso, em que cada avanço tecnológico demanda uma nova invenção para manter o equilíbrio produtivo. Pode ser então, que, para que saiamos desse círculo e mantenhamos nossa qualidade da vida, tenhamos que reinventar o tempo da nossa era.

Um texto de Ariadne Santiago, que busca diariamente uma vida mais tranquila.

 Agradecimento especial ao meu amigo-irmão Giovanni Nobile Dias, que me ajudou com a inspiração necessária para escrever sobre o tema.

 [1] http://www.slowfood.com/about_us/img_sito/pdf/Companion08_POR.pdf

[2] http://www.slowfoodbrasil.com/slowfood/manifesto

[3] “A Invenção da Laranja” -, publicada no livro A Cidade Vazia/Crônicas e Histórias de Nova York (O Cruzeiro, Rio de Janeiro, 1950)

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2 comentários em “A invenção do tempo

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  1. “Relógio! Deus sinistro, hediondo, indiferente” é o primeiro verso de “O relógio”, poema do poeta francês Charles Baudelaire. Reinventar o tempo da nossa era é possível? Fica a dúvida. Sobre o se reunir para a pamonhada,no começo de seu texto, Ariadne, isso me lembrou algumas das discussões de Walter Benjamin em um ensaio chamado “O narrador” (Der Erzähler).Nao exatamente discutindo o “tempo” explicitamente, Benjamin tece considerações sobre o estágio atual do homem de nao comunicar mais experiência…de nao mais contar autenticamente estórias/narrativas etc. Tem a ver com o tempo, com a produção da cultura em um sistema mercadológico etc etc etc. Enfim, só quis compartilhar alguma coisa que me veio à mente lendo seu bonito texto!

    1. Muito obrigada por compartilhar essas reflexões, Pedro! :)
      Engraçado, acho que Baudelaire resumiu todo meu texto em uma frase. Independente do que fazemos com o tempo, ele sempre irá passar… Indiferente. Cabe a nós sabermos aproveitá-lo da forma que achamos melhor, e, segundo meu argumento, mais humana. Porque senão ele pode realmente aprisionar, o que é “sinistro”…
      Comentário bonito o seu!
      Ariadne.

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