Até o Infinito

Sonhei que podia voar várias vezes. Lá, não sei exatamente onde, não havia obstáculos que pudessem barrar minha liberdade. Simplesmente voava. Não sabia quando começava a alçar voo, nem se alguma vez estaria em solo firme. Só me lembrava de estar voando e como não poderia haver coisa melhor a se fazer, eu voava, sem parar, sem cansar, voando.

            Sentia o vento passar gelado pelo meu rosto, congelando até com certa rapidez minhas pálpebras. Isso, no entanto, não me impedia de querer voar mais. Queria subir, descer e continuar a sentir o ar frio daquela escuridão sem estrelas. Não havia mais ninguém ali. Voava em direção a lugar nenhum, mas não me importava por estar só. No fundo, no fundo mesmo, não me sentia solitário. Afinal, eu simplesmente voava e era isso o que queria continuar a fazer.

            Sobrevoava casas e ruas que nunca tinha visto, mas que não me eram estranhas, apesar de não saber onde exatamente estava. Eram casas como se encontra em qualquer lugar do mundo. Algumas maiores, outras nem tanto. Ruas iluminadas, outras sem um pingo de luz. Pessoas que nunca pude encontrar. Embora visse uma casa acesa aqui ou acolá, sentia que não havia ninguém ali naquele lugar. E tampouco estava à procura de alguém. Estava comigo mesmo, voando, sem parar, às vezes mais rápido, às vezes mais devagar.

            Era bom passar bem próximo dos fios envelhecidos dos postes daquele lugar. Sempre pensava quando criança em estar o mais perto que pudesse deles; eram para mim uma das coisas que mais me marcavam nas grandes cidades, do caos que tanto me agradava nas multidões de prédios e pessoas desumanizadas. E era ótimo voar e senti-los por debaixo do meu corpo, ainda que a sensação fosse instantânea. Tão logo me distanciava deles, subia, subia o máximo que podia. Sentia meu corpo esfriando, pouco a pouco, e se alguém pudesse ver aquilo, certamente ficaria muito feliz com o sorriso que exibia em meu rosto. Eu estava livre.

            Não me preocupava com o tempo ali. Por mais que meu corpo estivesse inundado de excitação, nem por isso me vinha à cabeça que logo poderia não estar mais voando e de que, por isso, devia aproveitar aqueles momentos como se fossem únicos, o que acabaria por me deixar desesperado em fazer tudo o mais que não voar. Contar o tempo é para quem não está sonhando. Eu estava. E voando, passavam horas ou segundos, anos ou meses, e eu simplesmente voava, mesmo sabendo, de algum modo que não sei precisar, que ali não veria nunca o dia claro. Sempre que voava, estava no escuro, mas isso, ao contrário do que muita gente sentiria, não me entristecia. Tudo naquele lugar me deixava melhor.

            Nunca tive a curiosidade de tentar ultrapassar os limites do céu. Não sei se ali conseguiria. Não fazia, aliás, muitas coisas pensando antes em como fazê-las. Eu voava por uma infinitude de lugares, que podiam até ser em certo ponto próximos ao que se vê fora dali – havia oceanos, vulcões, favelas, condomínios e praças – mas o que mais me impressionava quando voava, era exatamente o fato de que eu estava voando. Somava-se a isso uma paradoxal naturalidade com que fazia isso, como se o que pudesse ser surpreendente e impossível, pudesse ali ser feito sem a menor dificuldade. Apesar de ser fácil voar, era cada vez mais impressionante a sensação que invadia cada espaço do meu corpo. Voar sempre fora meu sonho.

            Nada mais importava ali. Quando voava, esquecia que tinha uma vida comum, na qual os vôos humanos são inverossímeis. Naquele lugar, nunca pensei no trabalho, no salário do fim do mês, na prova do dia seguinte. Não podia pensar nisso, se sequer pensava em mim mesmo. Ali, ao mesmo tempo que sentia tudo o que sentia, tinha também em mente um sentimento estranho, como se não existisse. Voava sem parar e acabava me esquecendo de mim mesmo. Se isso é possível, não sei, mas me sentia assim.

            A pior experiência era a do fim. Infelizmente, sem que eu me lembrasse que isso ocorrera das vezes anteriores em que voara – o que, aliás, me deixava voar ainda mais tranquilamente – eu parava de voar. A parada era súbita e sem mais nem menos, eu caía, caía sem parar. Acordava logo em seguida, algumas vezes até voltando a dormir, mas sem que pudesse voltar a sentir o frio daquela forma que havia sentido há pouco. Meus parentes mais antigos diriam que quando caímos desse jeito em um sonho, acordando repentinamente, podemos ter certeza de que crescemos um pouco, de que somos uns centímetros maiores do que tínhamos antes de nos deitar. Sei, no entanto, que não podia crescer mais e que era outro dia como outro qualquer. Já não dormia mais, não estava mais sonhando e tampouco estava voando. Estava novamente acordado e, infelizmente, com os pés no chão.

Vinicius Prado Januzzi é membro do PET/POL e sempre quis voar, embora já ache que faça isso muito bem em seus sonhos.

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Um comentário em “Até o Infinito

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  1. É claro que um freudiano diria que vc teve uma sublimação erótica, isto significa que vc está reprimindo desejos sexuais os quais procura fugir e ocultar de si mesmo, talvez uma relação proibida pelas normas sociais ou um desejo fantasiado reprimido, que não se deixa realizar no mundo concreto. Para Freud tudo é sexualmente explicável. É a melhor explicação que consigo. Não se reprima!

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