De volta a 1984…

           Em 1948, George Orwell escreveu seu inegável sucesso – um clássico da literatura – 1984, Mil Novecentos e Oitenta Quatro.  Um livro que trata de um cenário global caótico onde uma espécie de totalitarismo tomou conta do cotidiano de todos. A manipulação atinge a todos de diversas maneiras: em qualquer lugar você está sendo observado por televisões; todos são treinados para não sentir qualquer tipo de emoção; laços familiares, de amor e de afeto destruídos. De maneira mais ampla podemos observar que, no cenário criado por Orwell, ocorre tanto uma manipulação psicológica, quanto controle da mídia e da história, principalmente através da tecnologia.

            O que mais assusta nesta obra de Orwell é o quão atual ela continua a ser. O famoso trecho a seguir mostra um dos temas centrais da obra:

“Quem controla o passado controla o futuro. Quem controla o presente controla o passado”³

            Afinal, o que garante que o passado realmente aconteceu? Que tipo de provas você pode ter? É possível confiar apenas na sua memória?  A história pode ser construída a partir de diversas fontes, tanto oral quanto provas concretas, mas ela é registrada em papel. Quem me garante que não exista alguém que manipula e distorce o que está escrito? A Ingsoc (Socialismo Inglês, o partido sob poder no conto) funciona através de quatro ministérios: o da verdade, da paz, do amor, e o da fartura. O da verdade fica responsável por garantir que a história esteja sendo contada de maneira coerente com a “verdade” construída pelo partido. O trabalho do protagonista da história, Winston Smith, é de alterar fatos. Todo o catálogo, tudo que já foi escrito um dia, pode ser apagado e reescrito de maneira que vá de encontro com o que o Big Brother falou.

            Winston passa por um processo de negação da realidade principalmente quando vê uma foto (que ele mesmo irá destruir) que é uma prova concreta de que um evento que o sistema diz nunca ter acontecido. Em quem confiar, na mídia ou nele mesmo? Ele começa desesperadamente a acreditar que esteja sozinho nessa realidade onde ninguém parece contestar o sistema.  Em sua busca desesperada atrás da realidade, conclui que ela possa estar escondida na memória dos mais velhos. Como maior parte dos idosos foi aniquilada, Smith vibra de emoção quando encontra com um idoso – felicidade que não dura por muito tempo, pois este não lhe pode fornecer memórias que não vão além de futilidades.

            Existirá uma forma de governo capaz de garantir liberdade e igualdade a população? Na visão futurística de Orwell, o governo regido pelo partido Ingsoc sempre afirma que “Guerra é paz; liberdade é escravidão, ignorância é força”. Assim, com o poder de alterar o passado, o presente e o futuro, o partido garante que a vida antes do surgimento do Big Brother era muito pior do que está no presente. E quem pode contestar? As pessoas acabam aceitando a condição de vegetais – pessoas sem emoção – vivendo que nem animais – controladas e mortas de acordo com a livre vontade do partido. Além do mais, todo o pensamento regido pela Ingsoc vem da teoria de que nunca seria possível existir igualdade na sociedade, assim sendo mais simples dividi-la de forma constante e inabalável. A população de Oceania está estruturada em três classes que não se misturam: a alta (onde se encontra o Grande Irmão, o partido interno), a média (partido externo), e a baixa (as proles).

            Trazendo este tema para a nossa realidade, será que somos tão livres quanto imaginamos ser? A tecnologia surgiu para facilitar a nossa vida, mas, sem perceber, estamos cada vez mais apáticos à realidade. Quem diria que nos tornamos escravos dos nossos vícios como um simples jogo, um programa de televisão ou até mesmo uma simples página de relacionamento como o facebook? Não somos necessariamente rastreados por televisões, mas nossa família pode sempre saber onde estamos através do celular, além do fato de que os mais recentes possuem rastreamento via GPS. O aparelho de comunicação é tão entrelaçado no nosso cotidiano, que, segundo o que a Anatel divulgou no dia 18 de dezembro de 2010, o Brasil já se ultrapassou a marca de um celular por habitante¹. Tal aparelho faz com que sejamos requisitados vinte e quatro horas – não podemos mais simplesmente sumir por um tempo, desfrutar de um momento a sós. Mas é importante ter em mente que a tecnologia em si surgiu para nos ajudar e venho aqui alertar sobre os perigos da manipulação que dela podem ser feitos.

            É irônico pensar sobre a situação da Inglaterra, terra berço do conto de Orwell.  Em        2009 foi divulgada uma matéria que anunciava o fato de que o país britânico possuía 4.2 milhões de câmeras de vigilância, algo alarmante para um país com uma população 1.3 bilhões, uma câmera para cada 472.000 habitantes². Não que câmeras para vigilância sejam algo alarmante, mas para aqueles que abusam do poder, a facilidade com que se pode observar alguém é uma arma em potencial contra a liberdade.

            A internet, por muito tempo considerada como terra de ninguém, agora também sofre retaliações. Boa parte do bloqueio que buscam fazer sobre ela tem a ver com pirataria. Nos fatos recentes, o primeiro a cair foi o site de compartilhamento megaupload. Nem um mês se passou e o site de buscas de torrents, o pirate bay, já teve seus criadores retidos judicialmente. Não venho aqui defender a pirataria, mas sim a liberdade que a internet vem nos provendo. Quem é que não lembra do Wikileaks, quando várias informações de governos e empresas foram vazadas. A manipulação de informação acontece o tempo todo e, se a internet não puder mais ser o local onde qualquer um pode manifestar o que acredita, novamente os nossos direitos estariam com os dias contados.

            Orwell escreveu seu livro após ter testemunhado o perigo que um poder político absoluto pode representar, tendo presenciado tal realidade na Espanha, Alemanha e União Soviética pré-guerra fria. O futuro que ele achava que seria possível em apenas 36 anos após ter escrito seu livro não se concretizou, mas podemos dizer que sua obra tem certo valor factual. Afinal, a tecnologia continua a tomar espaço cada vez mais no nosso dia-a-dia e várias formas de controlá-las crescem continuamente. Cuidado, o Big Brother pode estar observando você…

            ¹Dados sobre o número de aparelhos celulares no Brasil: http://tecnologia.uol.com.br/ultimas-noticias/redacao/2010/11/18/brasil-ultrapassa-marca-de-um-celular-por-habitante.jhtm

            ²Dados sobre a quantidade de câmeras de vigilância na Inglaterra: http://www.dailymail.co.uk/news/article-1205607/Shock-figures-reveal-Britain-CCTV-camera-14-people–China.html

 ³ Orwell, George.1984, publicado em 1949.

Um texto da Petiana Louize Helena.

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3 comentários em “De volta a 1984…

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  1. Essa discussão sobre memória e esquecimento e sobre como é possivel manipular os dois para “construir” a História é muito interessante. E a divulgação de informações pela internet desafia esse controle, pro bem ou pro mal, não sei, mas desafia. Roger Chartier fala disso nesse trecho de uma entrevista: http://www.youtube.com/watch?v=bprWnrV2S9Q.

    Outro ponto: “Existirá uma forma de governo capaz de garantir liberdade e igualdade a população?”

    Para os socialistas/comunistas, priorizar a liberdade como fazem os liberais leva a uma absurda e cruel desigualdade. Mas estou com os liberais/libertários, como eu, para os quais priorizar a igualdade acaba com a possibilidade de florescimento e amadurecimento de ambas. Há ideologias com essência totalitária, como é o caso do socialismo e do fascismo, que têm em comum a supressão do indivíduo, em nome de um ente, de uma personalidade posta como superior, seja o partido ou o Estado – o que talvez seja ilustrado pelo “Big Brother”. A liberdade é o que pode levar o indivíduo à felicidade e as nações à opulência.

    1. Como Roger Chartier mencionou, com a internet temos este tipo de problema onde a autoria dos textos fica comprometida. A internet pode ser considerada como uma maneira de registro histórico, mas quem garante a segurança da fonte? Acho super importante você ter o direito de falar o que pensa, ou até mesmo compartilhar uma realidade de maneira que atinja globalmente. Também acredito que, para historiadores, a web facilitou e, ao mesmo tempo, dificultou o trabalho deles. Imagina quantas pessoas contribuíram no twitter durante a primavera árabe? Mas até onde a internet estará livre? Isso é o que anda me preocupando ultimamente…

      Quanto ao assunto sobre a forma de governo, acredito que a igualdade seja um elemento que não pode ser deixado de lado. Como mostra na história de Orwell, uma das formas de controlar as pessoas foi chegar a conclusão de que não adiantaria mais lutar pela igualdade, já que esta nunca seria alcançada, e por isso, investiram em uma maneira de fazer com que as pessoas permanecessem na camada social que conheciam. Estagnação social, atuando como castas. O personagem principal, Winston Smith, sonha com o dia em que a prole irá acordar e exigir seus direitos.

      Bem, obrigada pela reflexão! Valeu ;)

  2. Roberto da Silva Rocha, professor universitário e cientista político

    O panorama atual da mídia está inflacionado de novidades que nem sempre representam um avanço com relação ao passado.
    A evolução que nos foi imposta, que parece natural e inelutável, não é natural nem inevitável: ela é provocada e orquestrada em função do espetáculo.
    A espetacularização caracterizada pela cultura de massa na mídia de massa atual está presente nos mídia multimeios e multimodais convergentes nas modalidades: vídeo-computação-telefonia-rádio, (internet, televisão, rádio) tanto como convergente nas formas e meios de transmissão e suporte de tecnologia empregada.
    Tudo converge para o espetáculo. O que não é incomum não pode ser matéria boa para ser convergido. O que é comum tem de ser transformado em espetáculo para serem consumidos pelos mais diferentes suportes midiáticos convergentes que disseminam não informação, mas os subprodutos devidamente marketerizados e produzidos para tornarem-se atraentes e transformados em um dos gêneros padronizados do composite da indústria da comunicação de massa.
    Os gêneros importantes que estão em moda hoje são enquadrados em: jornalismo, novelas, reality shows, talk shows, revistas populares, entrevistas desestruturadas, humorísticos, mundo-cão, seriados, videoclipes, competições artísticas e esportivas.
    Se as pessoas gostassem de competência os programas de mídia vitoriosos seriam de Filosofia ou de Matemática, talvez de Química.

    As pessoas preferem os Reality Shows, na verdade, são falsos shows, de uma falsa realidade onde pseudo-artistas ou pessoas que fingem não serem artistas, ou atores que fingem ou representam papel de amadores, fingem não estarem representando, com a falsa naturalidade de quem finge não estar sendo observado por milhões de pessoas, em sua naturalidade espetacularesca.
    Para este complexo de espetáculos funcionar, os profissionais de mídia no front transformaram-se em parte do espetáculo midiático, isto exigiu que estes profissionais também fossem artistas.
    Isto significou uma enorme revolução. Estamos falando não somente dos atores de novelas, atores dos humorísticos, mas também dos atores dos telejornais, dos atores-entrevistadores, ou dos entrevistadores-atores, dos atletas-atores, enfim todos são convertidos para atores, tudo é transformado em espetáculo, e é arrancada dos participantes a sua atuação atora, compulsoriamente.
    Todos que figuram neste meio midiático são, por um instante, peças dramáticas, componentes vitais deste enorme teatro de representação da realidade midiática e participam compulsoriamente do único espetáculo em que se transformou a mídia: do pastor, ao padre, passando pelo pedestre apanhado de surpresa na via pública pelo repórter que tem de extrair deste eventual participante o inusitado, o grotesco, o insólito e o artístico para preencher a sua pauta de rua.
    Diante desta necessidade criaram-se requisitos especiais para a atuação destes agentes midiáticos. O primeiro deles, e o mais importante, é a apresentação pessoal. Em segundo plano vem a capacidade de empatia, no caso, de identificação imediata com a massa espectadora. Em seguida vem o carisma que pode ser herdado de sua participação como celebridade até mesmo em outras especialidades, mesmo que ainda outrora não tenham sido midiáticas, como, por exemplo, desportistas, cabeleireiros, diretores, escritores, enfim alguma atividade ou comportamento especial, como os milionários, por exemplo, que, na linguagem antropológica, seja potencialmente ou de fato algum destacado formador de opinião que consiga catalisar esta empatia em um cenário de representação midiática.
    Uma vez identificado este agente ele é logo preparado para atuar neste cenário, para começar a produzir virtualidades dentro de um cenário verossímil, com requer a busca única pela audiência hegemônica dos espectadores.
    Neste mundo-cão, o limite fica estabelecido de modo sutil, como é sutil a linha que separa o erotismo da vulgaridade, a idiotice da bizarrice.
    As mentes mais sofisticadas sentem-se totalmente deslocadas deste mundo imbecil. O limite entre os modos de percepção da realidade e da virtualidade midiática ficam cada vez mais embotados quanto mais o espectador se deixa envolver emocionalmente, num contrato tácito entre ele, o espectador, e o meio midiático, que assim estabelecem uma mútua cumplicidade que anula por completo qualquer senso crítico ou capacidade de alerta contra os mais elementares vestígios de contato com a realidade.
    O reforço a este comportamento de massa vem da confirmação que a legitimização proporcionada pela cumplicidade advinda da percepção de que a maioria das pessoas está socializada e condicionada à linguagem cênica e aos símbolos icônicos que comunicam e decodificam as mensagens e os gadgets privativos e familiares aos iniciados.
    Os valores artísticos, culturais, científicos, religiosos, morais, legais ficam relativizados, flexibilizados, neste mundinho de fazdeconta, onde outras regras se subordinam e são subordinadas ao gênero específico, então, somente vale a emoção e o envolvimento sensorial, adormecidos ficariam o senso crítico, a razão, e, consequentemente, o contato com a realidade do mundo exterior ao massa-mídia.
    Neste estado de fragilização moral e intelectual não é preciso muito esforço intelectual para a produção de grandes sucessos midiáticos. Não estou dizendo que seja sucesso fácil. Ao contrário, a fórmulas são repetidas à exaustão, mas sempre enxertadas de elementos novos, que vão sendo criteriosamente colhidos para tornar novo o repetitivo sem que o espectador perceba as variações contínuas sobre o mesmo tema.
    Mudar para continuar o mesmo, copiar mudando e criar recriando o gênero. O segredo é o envolvimento emocional, através de uma porta sensorial aberta pela ocasião. Estabelecida a cumplicidade entre o espectador e o meio logo um contrato de fidelidade é assumido tacitamente, e ele começa a defender e a torcer fanaticamente por tudo que seja relacionado ao processo de produção e de disseminação, o que acaba reproduzindo e ampliando a cumplicidade de modo a não dar chance aos marginalizados da razão coletiva.
    A razão de ser está justamente na avassaladora audiência que gera um consenso hegemônico capaz de linchar e de aterrorizar qualquer voz discordante, obrigando a calarem-se a minoria crítica e desligada do processo de lavagem cerebral coletivo, num fenômeno de histeria de massa que é reforçado e obtém o seu reforço da repetição e da massificação fascista e histérica do inconsciente coletivo.
    Tudo vira mito. Os mitos prescindem de explicação, valem por si só. Uma verdade dita por todos sempre é uma verdade. Quando todos acreditam numa mesma coisa, somente os paranóicos enxergam outra realidade. Então começam a duvidar da razão minoritária. Quem são os loucos? É difícil estar sozinho, principalmente ao lado da razão solitária, sem parecer loucura. É preciso se isolar e reconstruir a realidade longe dos elementos disponíveis e fora da corrente geral e do consenso, mesmo parecendo esquisito e antisocial. Um bicho estranho. O que anda na contramão. O exótico. O irracional.

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