Este mundo não existe

Este mundo não existe. Tudo que sentimos, ouvimos, vemos, é fruto de impulsos nervosos. Quanto mais avançamos no campo científico, mais temos certeza do que somos. Tanto para a biologia, como um conjunto de células que desempenham funções distintas, ou para a química, milhões e milhões de partículas que jamais vimos, porém acreditamos que existam, não passamos de indivíduos formados ao acaso. Mas, e se fossemos mais do que essa simples definição bioquímica? O homem, que supostamente possui o dom da razão, um ser pensante, seria somente uma coincidência de eventos? Se existe algo além dos nossos impulsos nervosos, certamente caminharemos ao encontro com esse desconhecido. E veremos que este mundo não só existe, como também abriga o místico, o sagrado, e o irracional.

O homem da caverna, desprovido de um conhecimento prévio, científico, dava aos fenômenos naturais uma explicação mística. O simples ato de pensar sobre o desconhecido mostrou uma “evolução”, não só em relação aos animais, como também ao próprio homem. Dar um sentido àquilo era a tentativa de se conectar com a natureza ao seu redor, ou seja, desde os primórdios da humanidade, questionamos o inacreditável. De fato, ao contrário de hoje, eles não possuíam certos conhecimentos acerca do mundo. Porém, como nós, eles possuíam um sentimento inexplicável: a fé. E nesse ponto, por mais que tenhamos criado o avião, ou descoberto a fissão nuclear, não nos distanciamos deles. Somos, ainda, homens da caverna quando nos colocamos diante de acontecimentos inexplicáveis, como o amor, ou a cura de um paciente em suposta fase terminal.

Na tentativa de mudar o destino do mundo, ou do próprio homem, o surgimento da religião se confunde com a concepção da fé e podemos dizer que surgiu a partir da própria fé coletiva, já que os fenômenos inexplicáveis eram comuns a todos. Contudo, a criação da religião não pode ser explicada pelo simples fato de ela ter surgido para abrigar aqueles que buscam por uma resposta. Ela se desperta na sociedade com o propósito de oferecer um caminho para a compreensão e, por esse simples motivo, e mais complexo do que parece, a religião antecede a ciência. A vantagem temporal, todavia, não possibilitou ao homem encontrar as respostas que procurava. Nasce, assim, a ciência, intitulada como a ferramenta de domínio do homem sobre a natureza. A religião perde seu valor e nós, a partir desse momento, consolidamos nossa trajetória de ceticismo – podendo também ser caracterizado pela crença na ciência – que perpetua até os dias atuais.

Acreditar no impossível se torna motivo de deboche para a sociedade racionalizada e cientificista que atravessou os séculos modernos e que preenche a contemporaneidade. A religião é sinônima de ingenuidade, enquanto a ciência reforça a razão do homem. Porém, mais importante do que substituir valores ou concepções, seria entender a função da fé e da ciência em nossas vidas, entrelaçadas e interdependentes. Não nos basta somente compreender nosso espaço no mundo, como também é incompleto o simples viver para manipular a natureza.

O conhecimento científico sistemático leva ao ceticismo. O ceticismo faz com que o homem perca o sentido de viver. Porém, tampouco o dogmatismo é saudável, espiritualmente dizendo. O ser humano, a partir do instante que possui razão, é capaz de dominar parte dos recursos tangíveis. Entretanto, foge dele a capacidade de compreensão de existência, ou seja, deve haver um equilíbrio entre o domínio (ciência) e a compreensão (fé).

Como mostrado brilhantemente no filme Avatar, escrito e dirigido por James Cameron, o homem se depara com o seu ceticismo ao extremo, ignorando a magnitude da vida que reside além dos próprios impulsos motores. O nativo, mais consciente de sua ligação com seu mundo, o respeita, o dignifica. O filme nos alude, através disso, ao homem-máquina atual, o qual prefere a sua inteligência limitada, dos sentidos, a sua inteligência infinita, porém ignorada. O homem em desenvolvimento não se preocupa mais com seu elo espiritual com o mundo. Problemas econômicos, índices inflacionários e guerras cambiais tornam-se, assim, pontos vitais. São paradigmas para esse homem desacreditado que necessita de uma nova fonte de compreensão, a procura por um novo caminho a ser seguido e um pouco mais de percepção, de sensibilidade para o místico.

Experiências com o sobrenatural sempre se caracterizaram por ser um dos maiores paradigmas da humanidade. Entender a razão pelo qual o surreal se manifesta, diferentemente do que ocorre hoje, em que tentamos, e pensamos que podemos dominar o tangível e o intangível, nos daria uma melhor dimensão de tudo o que nos envolve. Desde os primórdios da humanidade, tentamos nos conectar com a natureza, respeitando-a e adorando-a, mas esse elo está sendo quebrado pelo cientificismo exagerado e pela crise da fé. Ao contrário do que pregam os céticos, não somos um mero amontoado de células. Fazemos parte de um sistema vivo, harmônico, que alguns já nomearam de Gaia. Nomes a parte, a essência de sua existência é irrefutável. A realidade que conhecemos se perde na infinitude do possível. Se esse mundo existe? A questão é acreditarmos que sim.

Daniel de Oliveira Vasconcelos é membro do PET/POL e, ao decidir reler este texto redigido por ele em 2009, percebeu que, apesar do seu crescimento e amadurecimento, continua acreditando em um mundo além de sua compreensão racional e deseja que esses pensamentos ingênuos rascunhados há anos não se esvaiam com o tempo.

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9 comentários em “Este mundo não existe

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  1. Muito bom texto, Daniel. Tenho várias coisas para comentar, mas vou tentar focar na ideia geral do texto, a qual eu não concordo totalmente.

    Você cita o filme Avatar como um exemplo de como a sociedade de hoje está ou se aproxima. De acordo com seu argumento, o ceticismo leva a uma visão puramente relacionada a impulsos motores que ignora a total dimensão da vida.
    Nesse sentido, utilizando o exemplo do filme, não era a visão puramente motora, nem o ceticismo os culpados. Se você se lembrar, os cientistas do filme eram contra as atitudes tomadas para explorar aquele mineral. O que prevaleceu para dar continuidade as ações que tinham por intuito a exploração mineral em detrimento dos locais sagrados dos extra-terrestres foi o interesse político, econômico e o dogmatismo.
    Aqui chego onde quero. A ciência e o pensamento racional trabalham com a lógica, com evidências e com provas. Os cientistas do filme perceberam que existia, de fato, uma relação íntima e importante (não lembro qual era a relação) entre os locais sagrados, os extra-terrestres e o restante do planeta.

    Foram os tomadores de decisão, ignorantes em relação a ciência e motivados por um dogma em pensamentos ultrapassados que foram adiante com a exploração.
    Isso não soa familiar? Homens ignorantes, tomando decisões com base em conhecimento ultrapassado e relacionado mais a dogmas do que à realidade. Guerras santas, apedrejamento de mulheres, Inquisição e por aí vai….

    Claro que não precisa ser tão extremo e afirmo com segurança que decisões tomadas a todo momento por empresas ou governos seculares e bem informados da atualidade também se enquadram nessa definição.

    De qualquer forma, o que quero dizer é que a ciência e o pensamento lógico foram as forças capazes de produzir as principais melhorias em qualidade de vida nos últimos séculos. Não foi a fé e muito menos a religião, ainda que eu reconheça a importância de ambas para o desenvolvimento da humanidade.

    Tinha mais coisas para comentar e sinto que esse comentário ficou meio superficial, mas vai ficar assim mesmo. Rsss….

    Abs.

    1. Primeiramente, obrigado Matheus. Pode ser que não ficou muito claro meu pensamento sobre o ceticismo, no caso do filme Avatar. Concordo com você que os interesses político e econômico foram os que prevaleceram… afinal, até mesmo na ciência deve-se cogitar uma dimensão de crença. Nesse sentido, os cientistas do filme não se enquadrariam na minha definição de ceticismo, já que puderam ao menos reconhecer que havia algo fora de suas compreensões, ou domínio, se preferir.

      Tampouco sou contra a ciência e a favor da religião. Novamente concordo com você sobre os tomadores de decisões. E até arriscaria a dizer mais: eu consideraria céticos aqueles dogmáticos, líderes religiosos que motivaram ações como as descritas por você.

      Por fim, o meu intuito ao escrever esses trechos foi o de considerar a nossa “insignificância” diante dos eventos da natureza, ou do cosmos. O desenvolvimento da humanidade é uma questão a ser tratada à parte, creio. Enfim, a proposta do texto é instigar o leitor a pensar que, independente de religião, crença na ciência ou crença mística, somos todos partes de um todo não-manipulável.

      Abs

  2. Ótimo tema de reflexão! Acho importante observarmos que o ser humano transcende a dimensão estritamente racional, embora ela seja fundamental e capaz de equilibrar outras, como a sensorial, a emocional e a espiritual. Muito legal mesmo, parabéns.

    1. Muito obrigado, professora. Gosto muito de relativizar minha posição no mundo. Enfim, filosofar e questionar tudo a meu alcance. Creio que, dessa forma, sou mais capaz de lidar até mesmo com questões menos “polêmicas” e já interiorizadas pela racionalidade humana. Pensar sobre essa “transcendência”, vejo eu, é também querer lidar com a própria capacidade humana.
      att,

  3. Sua opinião é interessante, mas apenas dá uma volta maior para dizer o mesmo que qualquer lider religioso faz abertamente: quanto mais mistério, melhor.

    Ninguém, com um mínimo de conhecimento científico, jamais disse que somos fruto de “coincidência de eventos”. OK, as mutações genéticas até ocorrem de forma aleatória, mas a seleção natural é rígida. Somos (todos os seres vivos) resultado dessa escolha minuciosa.

    É importante lembrar que o ceticismo sempre figurou entre as pessoas de maior instrução (sugiro uma breve pesquisa do percentual de ateus entre os laureados com o Prêmio Nobel), já que se trata de algo que, via de regra, não se aprende desde criança: vem com o conhecimento do mundo. Não houve, desde os primórdios, grandes mudanças na humanidade no que se refere a religião (exceto, claro, pelo panteão dominante e pela contagem de cadáveres), mas, felizmente, houve pessoas que pensaram diferente e não se contentaram com explicações sobrenaturais. E por causa dessas pessoas temos vacinas, satélites de comunicação, papel higiênico, internet, blogs.

    Não se preocupe: nunca haverá uma crise real de fé. A maioria das pessoas vai continuar gostando da sensação inútil de fazer parte de um poder sobrenatural cósmico celestial. E, como vão continuar sendo beneficiadas pelas conquistas da minoria que não se contenta com a fé cega, não haverá nenhum motivo para mudar.

    1. Primeiramente, gostaria de esclarecer a visão geral do texto. Ao contrário de pretender estimular uma suposta “ignorância” humana, venho a refletir sobre a compreensão. Como escrevi em meu texto, creio que não basta somente o domínio (ou se o domínio de fato é bom, questionável), mas a compreensão é fundamental. Logo, quanto menos mistério, melhor (em uma visão ocidental). Novamente, pode ser que tenha ficado confuso, porém não defendo a religião. Assim como aqueles desconectados de crença religiosa, líderes religiosos também foram capazes de atrocidades que fogem da razão humana. Sim, até mesmo aqueles que não acreditam em algo além do seu campo de visão foi tão, ou mais capazes de destruição. O que pretendo dizer é sobre a irrefutável permanência de mistérios sobre tudo que nos cerca, diferentemente do que você postula (nada mais do que uma arma política aplicada à religião) sobre o meu texto.

      “Ninguém, com um mínimo de conhecimento científico, jamais disse que somos fruto de ‘coincidência de eventos'”. Bom, em momento algum me expressei maneira contrária. Se se refere à pergunta retórica “O homem, que supostamente possui o dom da razão, um ser pensante, seria somente uma coincidência de eventos?”, devo esclarecer, é uma pergunta retórica, não julgo os postulados científicos, apenas instigo a uma reflexão. A ciência também é uma forma de dar sentido ao que presenciamos, como tentei demonstrar no segundo parágrafo ao entender que continuamos “homens das cavernas” tentando dar forma a coisas até então inexplicáveis. De qualquer forma, devo somente te alertar quanto a essa segurança quando falou sobre mutações genéticas e sobre seleção natural. Aliás, é exatamente esse o ponto que gostaria de chegar em meu texto: você possui uma crença na ciência. Toma as mutações genéticas e a seleção natural como verdades, e ao que me parece, irrefutáveis. Não estou dizendo que não acredito nestas teorias, porém são teorias. O que venho a refletir é exatamente sobre o permanente mistério que nos circunda e que nos faz instigar a cada momento sobre isso. Na própria ciência há um pensamento parecido (recomendo uma leitura de Conjecturas e Refutações, de Karl Popper), ou seja, pode ser que um dia a seleção natural deixe de ser uma teoria aceita, talvez não, tudo depende de como a comunidade científica interpreta aquela situação. É necessário, acima de tudo, relativizar. Refutações são permanentes pois é impossível termos o conhecimento total sobre o que conhecemos (imagine sobre o que nem façamos ideia que exista!).

      Sobre o terceiro parágrafo, só uma observação, pois foge um pouco da minha reflexão. Você está somente reconhecendo a população ocidental. Novamente, peço um pouco de relativização, um olhar mais antropológico (já que é mais válido para você o argumento científico), e compreensão de que temos uma interpretação sobre o mundo, uma entre outras mais. E, novamente sobre o ceticismo, a minha definição não é sinônimo de ateísmo. Sobre os supostos “avanços” citados por você como melhoria de uma forma geral da “humanidade”, recomendo ler o brilhante texto do petiano Luiz Fernando Roriz, em “Quanto menos, melhor”. Acho que pode aludir a algumas coisas importantes para reflexão.

      Por fim, fé é diferente de religião. Posso afirmar isso pois não possuo religião, e tenho fé. A “sensação inútil de fazer parte de um poder sobrenatural cósmico celestial” (infelizmente, para você) também está dentro dos “corações” de muitos cientistas. Compreensão é algo que pode ser desejável, independentemente do caminho a ser tomado. O que tento refletir é mais simples do que pensa. E cuidado, líderes religiosos preocupados com a manipulação de pessoas, bem como líderes do mundo dos negócios preocupados com a manipulação dos discursos (já não importam com o significado da vida de um ser humano) provavelmente também são firmes em definir como inútil aquilo que foge do ceticismo exacerbado, pois não é “lucrativo”.

  4. cara, muito bom o teu texto… Tenho passado por umas crises existenciais fervorosas ultimamente, e textos como o teu têm me ajudado a chegar a uma “decisão”. Pois muito eu tenho oscilado entre ateísmo, deísmo e agnosticismo, o quê tem me enlouquecido bastante hehe.

    peço gostaria de lembrar ao Ricardo, que a religião também sempre figurou, e bastante, entre os cientistas ganhadores de prêmios nobel e até, a algumas das principais figuras que ajudaram a moldar a mecânica quântica de hoje, como Niels Bohr e Schrodinger, ambos teístas.

    Abraço, Daniel, parabéns pelo texto!

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