Politicamente correto?

Escrevo esse pequeno texto como tentativa de reflexão sobre o uso da expressão “politicamente correto”. O que seria isso? Minha intenção é discutir brevemente sobre a utilização dessa expressão em relação a determinados posicionamentos políticos.

As lutas em defesa dos direitos de minorias étnicas, religiosas ou de gênero passam por um esforço de afirmação em diversos sentidos. As mudanças que são buscadas devem operar em âmbito social e incluem a modificação de relações de dominação que se manifestam tanto em questões linguísticas quanto em questões de preconceitos e discriminações correntes no dia-a-dia.

A linguagem inclusiva, por exemplo, tem como objetivo questionar e problematizar a maneira como as relações de gênero se reproduzem na sociedade. Assim, por mais que a demanda de uma transformação na linguagem seja considerada pequena ou irrelevante pelxs críticxs, por “atacar a língua portuguesa”, enxergo tal manifestação como uma maneira, não isolada, logicamente, de problematizar o modo como as relações sociais de gênero se estabelecem. Ao negar a utilização do masculino como “universal”, como no caso da relação que se faz entre “homem” e “humanidade”, por exemplo, nega-se também a conformação da mulher a um papel variante ou secundário. Ou seja, o esforço de mudança nas relações de linguagem é um reflexo do esforço de mudança nas relações de gênero, assim como uma forma de divulgação dessas lutas. O estranhamento é a ferramenta utilizada nesse caso.

Em relação a preconceitos recorrentes que ainda se fazem presentes na sociedade, como nos casos de sexismo, homofobia e racismo, o esforço pela mudança das relações estabelecidas também passa por um esforço pela transformação das relações simbólicas dominantes. Assim, questões como manifestações contra piadas discriminatórias, como as ocorridas ano passado em relação às referências sobre estupro pelo comediante Rafinha Bastos, assim como as diversas “Slut Walks”, as “Marchas das Vadias” ocorridas em diversas cidades do Brasil e do mundo, buscam afirmar a defesa dos direitos dessas minorias afetadas por práticas discriminatórias. Da mesma maneira, deve-se buscar a superação da homofobia de maneira ampla, o que inclui a mudança nas formas de referências à população LGBT. Só é possível construir uma sociedade sem discriminações se os preconceitos pararem pautar as relações cotidianas. As identidades LGBT, para que sejam afirmadas na sociedade, devem combater a classificação dessas identidades enquanto desviantes e passíveis de piadas.

Quanto à questão do racismo existente na sociedade brasileira, este é mascarado pela construção simbólica de um país que é sim miscigenado, mas que não é a “democracia racial” propalada amplamente. Medidas como as ações afirmativas de cotas raciais nas universidades, por exemplo, tem como objetivo garantir a inserção de negrxs em um espaço em majoritariamente branco, e que reproduz muitas das hierarquias e discriminações sociais e raciais.

No entanto, todas essas medidas citadas são consideradas como “politicamente corretas” por opositoraes, que buscam assim de certa forma reduzir a as demandas e lutas expressadas. Sob o pretexto de liberdade de expressão, busca-se a reafirmação de preconceitos e práticas discriminatórias. As mudanças e problematizações propostas são contrapostas com argumentos que afirmam a falta de necessidade de tais medidas, política e simbolicamente, pois a sociedade existente, tendo como pressuposto a liberdade de expressão, trataria os indivíduos igualmente, sem a necessidade das afirmações de identidades racial, de gênero e etc. Além disso, as tais ações “politicamente corretas” trariam consigo formas de manifestação que entrariam em desacordo com a própria “liberdade de expressão”, por buscarem mudanças amplas em questões sociais, simbólicas e de linguagem.

A contradição que se estabelece, a meu ver, entre esse posicionamento dxs auto-denominadxs “politicamente incorretos” (me expondo ao risco de ser acusado de generalizante) e sua prática, está exposto na própria maneira como se referem às questões contra as quais se colocam. Assim, ao considerarem as medidas afirmativas, a linguagem inclusiva e outras questões como práticas “politicamente corretas”, xs detratoraes de tais práticas se colocam enquanto minoria, que não estaria de acordo com as práticas vigentes socialmente, e por esse motivo buscando a afirmação de uma característica “contestadora” por ser, como já colocado, “politicamente incorreta”, à margem, diferente.

A reafirmação de preconceitos e práticas discriminatórias nada tem de desviante e contestador. O esforço pela manifestação de identidades de grupos oprimidos é a prática contestadora, enquanto o movimento “politicamente incorreto” é apenas a reação a essa afirmação política, social, simbólica e até ideológica.

O que proponho, em resumo, é que a utilização do termo “politicamente correto” e de seu oposto “politicamente incorreto”, seja evitada, de modo a possibilitar um debate de ideias de maneira mais ampla. Somente através de debates e questionamentos, acredito, será possível trazer mudanças a uma realidade social mais complicada do que as simplificações buscam fazer parecer.

Um texto de Dimitri Oliveira

*Peço desculpas caso o texto peque pela superficialidade. Mas, além de uma afirmação de posicionamento político, é um chamado ao debate. Debatamos, então.

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7 comentários em “Politicamente correto?

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  1. Estamos chegando lá. O inferno está dominando o paraíso terrestre em nome do politicamente correto.
    Quem tem mais de 30 anos de idade sabe do que estou falando. Misturam expectativas e crenças com informações pseudocientíficas.
    Pseudocientificismo é uma área que rejeita qualquer tipo de controle metodológico da Ciência.
    Desde que Karl Popper criticou os métodos científicos dedutivistas, indutivistas e reducionistas, a metodologia científica deu soluços e cambalhotas no ar até cair no total alvoroço da fase de transição onde o velho não morreu para dar lugar ao novo que não foi recebido na cidade científica. É o limbo do conhecimento interparadigmático.
    Acontece que Karl Popper afirmou em seu tópico de refutacionismo que qualquer conhecimento ou teoria pode ser provada e validada, basta procurar os elementos probatórios e comprobatórios adequados, dados e fatos que os comprovem, e isto é muito fácil para aquele tipo de pesquisador imediatista e determinista.
    Inconformado com este rumo, Karl propôs que toda teoria precisa passar pelo teste da refutabilidade, isto significa que toda teoria deverá falhar em algum momento de seu teste de afirmação. Se isto não acontecer é porque acontecerá em um futuro certo.
    Assim ficou assentado que todo conhecimento é precário e transitório, a única coisa definitiva em Ciência é a mudança.
    Tudo é válido até que uma nova informação torne a informação corrente obsoleta, pois é assim: de revolução em revolução caminha o conhecimento científico.
    Mas, os seres humanos não gostam de insegurança, principalmente os profissionais do jornalismo.
    Quem disse que o lugar da Ciência é um lugar seguro? Tudo o que é sólido desmancha no ar (Proudhom).
    Quem quiser encontrar as certezas que as procure na religião, Ciência é o lugar-mor dos questionamentos e das refutações.
    Dito isto, não se pode conformar-se com as expectativas criadas ao longo das mais de cinco décadas onde vem aumentando a quantidade de produtos e circunstâncias que se colocam para as pessoas se aconselharem sobre o que poderia ser nocivo para a saúde de cada um.
    Cada vez surge um inimigo mortal da saúde humana, como se fosse a verdade única e indiscutível, sem considerar as variantes fisiológicas e circunstanciais que individualizam e personalizam as necessidades e características étnicas, etárias, de gênero, de região geográfica, de clima, de saúde, enfim, tentam sempre criar uma panacéia como se a medicina não fosse casuística, assim, via os meios de comunicação de massa se fornecem diagnósticos coletivos indiscriminadamente, a granel como se os médicos pudessem atender aos paciente em grupo.
    Estes alertadores de plantão então disseminam conselhos e advertências alarmando a população contra virtuais perigos mortais e que certamente irão acautelá-las de males que certamente advirão caso não se abstenham de práticas, produtos, substâncias, eventos e comportamentos altamente prejudiciais à saúde, tudo isto respaldado na velha Ciência, para calar a refutação advinda de qualquer lado.
    Assim vimos serem imoladas no altar da proibição coisas como o tomate, que, segundo os navegadores da Era Colombiana, eram proibidos de ingeri-lo por causa do veneno que ela trazia. É óbvio que o tomate muito tempo depois virou o principal produto de tempero levado das Américas para a Europa pelos próprios navegadores que colonizaram as Américas.
    Mas, não envergonhados pelo vexame, os mesmos europeus, agora devidamente respaldados pelo conhecimento científico, voltam sempre à estas paragens para nos advertir dos perigos escondidos na natureza.
    Foi assim com o sal, este produto natural, composto de Cloreto de Sódio e Potássio. Um veneno mortal para destruir a saúde. Mas, não é somente o sal, há também o perigo da carne vermelha. O sal, além de matar os peixes do mar de pressão alta, há também o perigo da carne vermelha a envenenar os animais carnívoros, os quais precisam mudar a sua dieta imediatamente: imagine um felino como o leão comendo folhas verdejantes junto com um elefante!
    Mas não ficamos aí. Há o perigo da carne de churrasco. Quantos produtos nocivos se formam sob a fumaça do carvão ardendo em brasa, quantas substâncias tóxicas ficam ali ativas prontas para nos envenenar. O rei Sol, com todo o seu resplendor, quem diria, que com exceção dos materiais radioativos, se constitui a única fonte primária e secundária de toda a energia que recebemos e consumimos na nossa pequena rocha, a Terra, pois não é que o sol pode nos matar com a sua radiação letal, segundo os alarmistas pseudocientíficos!
    Ainda não terminamos a lista. Há os produtos artificiais, como a gordura trans, os produtos transgênicos, os refrigerantes, as bebidas alcoólicas, a lista é acrescida de coisas cada vez mais estranhas à verdadeira Ciência, assim, acrescentamos as frituras, o ovo, o cigarro, que na forma de fumo era há pouco tempo depois da Era dos Descobrimentos indicado para a cura de resfriado e da pneumonia e asma, pasmem, aliás, tudo que os indígenas faziam e consumiam virou sagrado.
    A norma desta tribo é que tudo que vem da natureza intocada pelo homem é bom e saudável. Assim os remédios recomendados são a ingestão de muita água, ah!, este preciosos líquido, uma mistura composta de hidrogênio e Oxigênio, altamente oxidante, é o remédio para todos os males conhecidos e desconhecidos pelos magos da saúde total; as caminhadas e as corridas, e qualquer tipo de atividade física ao ar livre é altamente benéfica para os humanos em geral.

    Assim, as posologias e indicações vão tomando ares cada vez mais românticos passando ao largo da Ciência interparadigmática proposta por Karl Popper, e vão preconizando um mundinho natureba cheio de coisas sãs que no futuro serão trocadas por outras listas de proibições e de recomendações.
    Já foi a época em que alguns produtos naturais eram reconhecidamente milagrosos como o confrei, este pequeno e poderoso anticoagulante era indicado para tudo, assim como o mel-de-abelhas, quantos milagres ele seria capaz de produzir se ingerido em quantidades cada vez maiores, assim como o foi a vez do espinafre, foi a vez do açaí, foi a vez dos brócolis, foi a vez da pimenta, assim a natureza além de nos alimentar nos enchia de esperanças de vida eterna, senão muito longa, se nos abstivéssemos dos remédios alopáticos, estes juntamente com as cirurgias invasivas, verdadeiros perigos para a saúde e sobrevivência humana.
    Tratamentos alternativos surgiram aos borbotões, alguns mais antigos que a civilização: acupuntura, cromoterapia, palhaçoterapia, massagem aiurvédica, pajelanças, caldos e garrafadas, enfim sonhar é melhor que viver a realidade, e no desespero qualquer corda é a corda da salvação para nos agarrarmos.
    A última instância destas crendices é a crença de que a natureza corre enorme perigo devido aos fatores de interferência humana-ambiental ligados à destruição da camada de ozônio. Até que, para a frustração dos naturologistas, algum cientista refutou a tese dos aerosóis de freon e culpou o arroto dos bovinos pela maior parte da destruição desta camada atmosférica de proteção da radiação ultravioleta cósmica(com pode vir alguma coisa hostil dos céus-espaço sideral?).
    Como seria bom para eles que fossem os humanos os culpados pela destruição da camada de ozônio, pois a natureza em sua sabedoria deveria nos proteger, segundo esta crença.

    Talvez não tenham imaginado que a natureza não tenha consciência alguma nem de moralidade nem de amoralidade, nem de mal ou de bem.

    Estamos nos tempos de uma velha religião chamada pensamento-único iniciada com a globalização e com o neoliberalismo, onde é proibido a divergência e a pluralidade. Não existe o multiculturalismo nem a tolerância contra a verdade original. Sãos os apóstolos e profetas do vale-tudo, não querem regras nem normas, nada de olhar o passado e a História. Eles estão querendo reinventar o velho como se fosse o novo. Quem não estuda Filosofia comete e repete os mesmos erros. Por que não existe nada de novo para a Filosofia já faz 2000 anos…Entramos na era da intolerância, do pensamento-único, da patrulha-ideológica do politicamente-correto, do preconceito do preconceito, dos chatos de todo gênero, ecochatos, homochatos, politochatos, pedochatos.

    1. “Estamos nos tempos de uma velha religião chamada pensamento-único iniciada com a globalização e com o neoliberalismo, onde é proibido a divergência e a pluralidade. Não existe o multiculturalismo nem a tolerância contra a verdade original.”

      Engraçado que o que argumentei no texto foi exatamente o contrário, de que a afirmação das identidades de minorias é que rompe com as estruturas colocadas de pensamento único e intolerância. Acredito, inclusive, que os “chatos de todo gênero, ecochatos, homochatos, politochatos, pedochatos”, são as pessoas que contestam a ordem estabelecida, e que fazem avançar inclusive a ciência. A intolerância parte sim é de que se incomoda com essa afirmação de identidades, tachando as pessoas defensoras destas de “chatas de todo gênero”. Tachando essas pessoas como repressoras, fazem parecer que essas lutas de afirmação são perniciosas para a liberdade de expressão, quando o que se dá é o contrário.
      As minorias, através de sua constante busca por afirmação e espaço, transformam a lógica do pensamento único e dominante. O rechaço a esse movimento parte dos “politicamente incorretos” (termo que já disse não concordar), que não se sentem à vontade com a diversidade e pluralidade de pensamentos e identidades.

      1. É comum a gente não perder o nosso precioso tempo em meio a essa vida tão atribulada discutindo e manifestando a nossa insatisfação com determinadas concepções de mundo e perspectivas retrógradas e repressoras. É muito fácil ver pessoas dizendo coisas bizarras e preconceituosas e dar as costas, fechar o jornal, o livro, desligar trocar de canal de TV ou mudar de blog quando se vê coisas tão bizarras que dá preguiça de se comentar.

        Uma amiga que tenho me disse algo que faz muito sentido: quando a gente deixa alguém falando sozinho, o nosso silêncio não será ouvido, e, enquanto só aquela pessoa sozinha falar, ela será escutada. E as pessoas caladas acabam pensando que não tem ninguém mais incomodada.

        É por isso que quero manifestar o meu REPÚDIO junto com todas e todos as ECOCHATAS, HOMOCHATAS, POLICHATAS E PEDOCHATAS, seja lá o que você quis dizer com isso, para você saber que essas chatas não aprenderam apenas a calar sozinhas, mas falar unidas e com muito mais tolerância uma palavra que a filosofia de 2000 anos atrás não conhecia: o nome dela é DIVERSIDADE!

        Abraços fraternos e sensuais,
        João Vinicius.

  2. agradeço a sua delicadeza em se importar com as minhas humildes observações, embora discordantes, o que demonstra a nobreza de quem tomou para si estas considerações.
    A intolerância contra qualquer manifestção de discordância, inclusive a intolerância contra a intolerância destroem as essências da metodologia de pesquisa científica e da metodologia da ciência. Tudo é permitido questionar, até o processo científico, até mesmo o questionamento.
    Quando encerramos o debate com a última palavra, encerramos toda chance de encontrar novas verdades provisórias, ficamos refém das verdades eternas.
    O que me incomoda e aflige é a militância sectária baseada em crenças. Este é o postulado de Merthon para o comportamento da Ciência, embora não comprtilhe desta orientação. Esta sim, a grande inimiga da Ciência e do cientista curioso, e atinge de modo letal o ideal da neutralidade da Ciência.
    É a crença de que se pode consertar e tutelar os comportamentos e os erros da humanidade, que turva a visão transformado o objeto da crítica em ad hominem, em lugar de ad rem. Deixe isso para os pastores, bispos, padres, papas, e outros guias e entidades,embora relevantes e importantes, porém, nada científicas.

    1. Ciência não é uma insituição de verdade acima das outras, amigo. Não leio e discuto neste blog atrás de pesquisa científica ou de manifestações neutras em favor de verdades, mas atrás de reflexão e dos debates políticos, e eles estão em todos os lugares, inclusive nessa Ciência. Se estou discutindo com “cientistas”, desculpem-me a ignorância ou a indiferença com a pesquisa, a metodologia e os ideais de neutralidade. Meu interesse não é coibir esses discursos, mas quero que eles desçam para o debate de ideias e de projetos políticos para que possam se contrapor com o máximo de transparência e respeito recíproco que um debate entre concepções de mundo diferentes e, muitas vezes, opostas, merece.

      [Não sou um cientista curioso]

      Abraços,
      João.

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