Reflexões Sobre “Ano Novo”

“Bendito quem inventou o truque do calendário, pois o bom da segunda-feira, do dia 1° do mês e de cada ano novo é que nos dão a impressão de que a vida não apenas continua, mas recomeça…”.

Mário Quintana

Antes de ontem, boa parte do mundo comemorou o início do ano de 2012 e o fim do ano de 2011. Essa passagem de um ano para outro, conhecida como réveillon, já é tradição. Festas como as que ocorrem na Broadway ou em Copacabana reúnem milhares de pessoas, chamam a atenção da mídia e do público e são foco de muitos turistas nesse período de festas de fim de ano. O dia 01/01 é feriado nacional em países que vão de Botsuana a Itália. Assim, tendo em vista a proximidade do tema e a sua importância, resolvi fazer algumas reflexões sobre o assunto.

Um aspecto importante do réveillon é o fato de que ele é carregado de significados e crenças. Usar cor branca representa paz, tranquilidade, pureza; usar uma cor amarela está relacionado à capacidade do ouro e da riqueza; comer sementes de uva diz respeito à tentativa de trazer sorte para quem as come no ano que chega. Além disso, o ano novo se mostra como uma oportunidade de recomeço. Todas as coisas que deveriam ter sido feitas no ano anterior podem agora ser concretizadas. É um novo começo e uma nova oportunidade. Ainda assim, isso faz algum sentido? É razoável ver o início do novo ano como o fim de um período e o início de outro? Essas significações e crenças são importantes?

Por um lado creio que o ano novo não passa da continuação do velho. O tempo é o mesmo. Não há nada de especial. Todas as promessas, todas as “manhas” foram feitas em vão. Nenhuma roupa branca será capaz de trazer paz, nenhuma roupa amarela trará riqueza, nenhuma uva trará sorte. Afinal, além do fato de que essas mandigas não fazem o menor sentido, elas não se aplicam no contexto de ano novo, uma vez que o novo é arbitrário apenas pelo fato de que todo “novo” é relativo, ou seja, ainda que o ano novo possa ser chamado assim em relação ao velho, isso diz respeito somente ao calendário. Não há nada que possa indicar a existência de certa magia envolvendo a chegada ao novo ano, como muitas pessoas acabam crendo.

Assim, a única mudança real na passagem do ano velho para o novo é a mudança no calendário. Contudo, isso não é insignificante, creio eu. Afinal nossos antepassados, que eram majoritariamente nômades e caçadores, passaram a desenvolver a agricultura. Com a escassez da caça no fim da última Era Glacial, os humanos acabaram desenvolvendo essa forma de cultivo e assim necessitavam de conhecer melhor a passagem do tempo. Afinal, a agricultura implica o conhecimento das épocas adequadas para o plantio. Dessa forma, surgiu o calendário e ele se mostrou de enorme serventia para a preponderância da espécie humana no planeta. Isso, em minha opinião, é muito mais importante do que qualquer crença na capacidade da cor da roupa promover determinado resultado no futuro.

Ainda assim, não teriam essas crenças alguma importância? Considero como certo que os humanos possuem uma forte tendência para significar coisas que, a princípio, não merecem essa atenção. Gostaria que uma tendência como essa não existisse nos dias de hoje, mas ela, assim como o calendário, possui sua importância no sentido de preservação da espécie. Essas crenças são um dos motivos que promoveram e ainda promovem a aglomeração dos membros da espécie em grupos mais ou menos coesos e mais ou menos organizados, capazes de agir em conjunto para garantir a sobrevivência. Talvez sem a capacidade humana de supersignificar os acontecimentos e objetos, não estaríamos aqui hoje e muito provavelmente sem a capacidade humana de supersignificação eu não estaria escrevendo esse texto, já que não existiria esse “novo começo”, nem as outras crenças de passagem já citadas e não citadas.

Portanto, no que diz respeito a “ano novo”, creio que todas as crenças existentes relativas a esse assunto estão distantes da realidade, na medida em que nada indica sua veracidade. Ainda assim, mesmo que a única mudança seja no calendário, ela é importante, uma vez que esse mecanismo possibilitou e possibilita à humanidade um maior controle do tempo e assim ele pode se organizar e estar menos a mercê das mudanças de estações e da natureza. Contudo, como o calendário, as crenças, ainda que irreais também possuem sua importância para a sobrevivência da espécie humana, na medida em que promovem as aglomerações humanas e, portanto, a vida em comunidade, tão necessária para uma espécie fisicamente despreparada para a forte competição por alimento.

 Um texto de Matheus Borem.

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Um comentário em “Reflexões Sobre “Ano Novo”

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  1. Mat: talvez, e com muita vênia sua, repito, talvez, para um estudante um pouco distraído, as datas não signifiquem muito.
    Mas, no mundo fiscal, no mundo civil as datas tem significado fatal.
    As datas determinam o ritmo e o compasso dos compromissos.
    Experimente chegar atrasado um minuto aos portões de entrada de uma instituição onde se realiza um oncurso público para o qual acorreram 1,8 milhões de candidatos para disputarem cerca de 2 mil vagas: foram 10 meses de preparação desperdiçados, uma vida anterior de preparação, algumas centenas de Reais investidos no último ano.
    Pense no encerramento de uma obrigação financeira, nesta data, exatamente um minuto depois da zero hora, se vc não recolheu o pagamento da dívida começa ali uma enorme e grave relação com uma dúzia de entidades as quais desencadeiam uma avalanche de procedimentos para começar vários processos de cobranças e de notificações com implicações de longo prazo no seu crédito e em sua reputação.
    Prestam-se contas de desempenho das atividades políticas, financeiras, legais e quetais na data de balanço anual obrigatório.
    As datas tem um significado simbólico e fatal.
    Por que o tempo não pode ser parado, avançado, ou retardado.
    O tempo é insubornável, incorruptível, impassível, insensível, imparcial, indiferente.

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