Até que cordeiros se tornem leões

Certa vez, um professor da Columbia University, uma das universidades mais prestigiadas do mundo, iniciou um livro com a seguinte pergunta: “Por que as pessoas protestam?”. O que esse grande professor queria compreender em seu trabalho era o motivo pelo qual algumas pessoas levantavam de seus colchões, deixavam suas vidas confortáveis e apareciam nas ruas com cartazes, tintas, muitas vezes se submetendo à violência policial, gritando em prol de alguma causa. Qual era o motivo pelo qual aquelas pessoas deixavam por alguns instantes, às vezes longos, seus afazeres, e se uniam em uníssono, enfrentando o Estado, ou quem quer fosse, em um conflito geralmente assimétrico em que essas pessoas se constituíam na parte mais fraca. Aquelas pessoas não possuíam armas, diferente do lado contra o qual estavam lutando. Elas também não possuíam bombas, capacetes, uniformes, e nem o treinamento desumano que o outro lado detinha. Elas não possuíam nada, além da crença de que aquele não era o mundo no qual elas queriam viver. Então, por quê? Por quê se dar ao trabalho de ir às ruas, gritas, espernear, enfrentar a polícia, se a mudança acontece à nível institucional e, portanto, depende daqueles que detém o poder? A primeira vez que eu consegui formular um pensamento concreto, articular as palavras em um raciocínio lógico, eu observei o mesmo fenômeno que o professor da Columbia University. Entretanto, eu me fiz exatamente a pergunta contrária. Eu me perguntei o porquê de as pessoas preferirem ficar no sofá assistindo a um programa qualquer no Domingo, enquanto uma quadrilha tomava as decisões que concerniam a todos os outros, que se constituíam em um grupo numericamente muito maior do que aqueles que governavam. Eu me perguntava todos os dias, enquanto passava pelos pedintes do semáforo, a razão de as pessoas que trabalhavam o dia inteiro não conseguirem comprar um pão. Eu me perguntava o porquê do filho do Sr. Deputado não pagar pelos seus crimes ou o motivo pelo qual o Sr. Ministro era guardado por cinco seguranças, enquanto todos os dias uma criança morria devido a uma bala perdida. Mas o que eu menos conseguia entender era o motivo pelo qual aquelas pessoas que acordavam cedo trabalhavam tanto para sustentar aquela escória, que vivia no luxo através da exploração dos justos e honestos. E quando eu finalmente expressei essas perguntas, as pessoas me responderam que o motivo de tal inércia era porque nada iria mudar. Tudo ia continuar do jeito que estava, independente do que elas fizessem. Eles iam continuar com o poder e elas apenas arriscariam a própria sobrevivência. Porém, nesse sentido a sobrevivência se misturava com subserviência. A sociedade ocidental está constantemente se glorificando devido às suas supostas conquistas: a queda da nobreza, o fim do feudalismo, o bem-estar econômico. Mas a supressão de privilégios apenas ocorreu para alguns, o feudalismo acabou no papel, mas a concentração de terras persistiu e a ética do lucro veio a substituir a honra cavalheiresca. Da mesma forma, o bem-estar econômico emergiu para aquele pequeno número de senhores e senhoras que possuem os recursos necessários a pagar por um plano privado de saúde, escola particular para os filhos, entre outros confortos da necessidade. Se o Estado existe para prover segurança, foram mortas 1.195 pessoas em 2003 pela polícia do Rio de Janeiro1 e esse número tende a crescer. Se a função do Estado é prover bem-estar econômico, cerca de 22.640 pessoas vivem em condição de miséria absoluta só na cidade de Brasília, capital do país2. Dizem que o feudalismo foi abolido ou que nunca existiu no Brasil, mas os estabelecimentos que contém mais de 1000 hectares ocupam mais de 43% do país3. Glorificam-se por aí pelo “alcance da Democracia”, mas se esquecem de que Democracia significa literalmente “governo do povo”, e que é esse povo que trabalha todos os dias para garantir a super-vivência (porque aqui não se trata de “ganhar o pão”, e sim de pagar a cobertura no bairro mais caro de Brasília) daquela minoria governante. É esse povo que é governado como cordeiros em um rebanho, à margem do centro em que as decisões ocorrem, privados do direito de governar a própria vida e, às vezes, até a própria consciência. Os cordeiros que não escolheram nascer no mundo em que vivem, mas que aprenderam com a família, com a escola, com os patrões, a obedecerem e a se sujeitarem a um sistema de assimetrias discrepantes. Alguns desses cordeiros persistem em dizer que qualquer mobilização não iria adiantar nada. Ainda sim, alguns deles acreditam que ter suas peles arrancadas ainda é melhor do que viver com a face mirando a grama.

E essa é a minha resposta, Charles Tilly, para a sua pergunta. As pessoas se mobilizam porque elas acreditam, porque elas sonham, porque elas acham que vale correr o risco de resistir diariamente. E porque essa resistência é mais do que uma prova de coragem.

“Resistir sempre, até que cordeiros se tornem leões” (Robin Hood);

“Ser governado é ser observado, inspecionado, dirigido, regimentado, numerado, regulado, registrado, doutrinado, controlado, revisado, estimado, avaliado, censurado, ordenado, por criaturas que não possuem nem o DIREITO, nem a SABEDORIA, nem a VIRTUDE para fazê-lo” (Pierre J. Proudhon)

Um texto de Nayara M., que tem esperanças que o mundo um dia irá valorizar mais as necessidades das pessoas do que as vontades das grandes empresas.

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2 comentários em “Até que cordeiros se tornem leões

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  1. Poxa, as duas perguntas colocadas no texto são mesmo bastante interessantes.
    Questionar por que as pessoas protestam ou não atrás de uma resposta talvez seja algo assim um tanto frustrante, porque imagino que isso não tenha muito bem uma resposta satisfatória, né? É engraçado como a resposta para uma (“por que as pessoas protestam, em meio à tantas atribulações e coisas mais interessantes para se fazer no dia-a-dia?”) se encontra na pergunta para a outra (“por que as pessoas <> protestam, com tanta injustiça nesse mundo?”), e vice-versa… Intuitivamente, eu imagino que, nesse jogo de correr atrás do próprio rabo, felizmente, tem gente pra tudo, para não protestar e, pra protestar, também.

    Tomando o protesto como a coisa ou o ato de se manifestar e de se indispor contra condições desfavoráveis a quem o faz, mas no conjunto específico de casos em que esses protestos se manifestam contra disposições injustas, acho que vale estar atentx às dimensões em que esses protestos e contextos de opressão se inserem no próprio poder. Tá, isso é óbvio. Mas admitir isso é também situar os sujeitos de contestação (e de “subserviência” também…) nas redes de poder que não somente os renega, mas que também os constitui. (Pois é, Foucault falou isso em algum lugar, mas acho que isso não vem ao caso…) A partir daí, isso também nos permite atentar para em que medida o ato de não-protestar é talvez mais complexo do que simplesmente baixar a cabeça. O poder que oprime também constrói, e, bem à sua forma, empodera e reveste os que nele se inserem com visões de mundo e com instrumentos de poder e de interlocução, informando também sobre as práticas e o funcionamento da vida cotidiana em geral. Tanto quem protesta como quem não protesta, neste sentido, não consegue escapar totalmente a esses “superpoderes” (Foi mal ae, Foucault!).

    O protesto ou a manifestação do descontentamento não é, assim, simplesmente também um ato de heroísmo ou de expressão autônoma de liberdade de quem se indispõe, mas é, também, recurso a que nem todxs tem acesso, voz ou contexto para a expressão de seu protesto ou de sua indisposição com suas estruturas. Meu ponto é, eventualmente, pensarmos não “por que as pessoas protestam ou não” mas, que tal: “quem escolhe protestar?”. Não é aqui tratar o protesto como dimensão de escolha ou ignorar a luta dxs que, enfim, protestam, mas buscar em que medida essas estruturas intravenosas nos sujeitos não pesam ou condicionam o silenciamento (ou mesmo, o limite do pensável…) do que é revoltar-se contra o que os oprime.

    Faço coro ao protesto e aos sonhos, mas acho que é necessário também protestar contra o quanto esse mundo não fez para tanta gente, em suas próprias experiências, o silenciamento e a sobrevivência como as suas mais veementes e corajosas formas de protesto.

    É mesmo preciso protestar contra as injustiças. Mas, se é esse mesmo o ponto, talvez seja interessante mudar a questão.

    Abraços,
    Jão.

  2. “Da mesma forma, o bem-estar econômico emergiu para aquele pequeno número de senhores e senhoras que possuem os recursos necessários a pagar por um plano privado de saúde, escola particular para os filhos, entre outros confortos da necessidade.”

    Na verdade, o bem-estar econômico emergiu para todos. As inovações técnicas e as evoluções produtivas que levam ao barateamento contínuo dos frutos da indústria fazem com que hoje uma família de classe média tenha uma qualidade de vida muito superior aos aristocratas de 150 ou 200 anos atrás. É inegável que hoje as pessoas vivem mais em melhor em todas as partes do mundo capitalista. Schumpeter já percebia isso.

    “A máquina capitalista ser antes e acima de tudo um aparelho de produção em
    massa, o que inevitavelmente significa também produção para as massas. Se passamos à escala das rendas individuais, verificamos que se gasta cada vez mais em serviços pessoais e
    mercadorias manufaturadas, cujos preços são, em grande parte, função das médias de salário. É fácil a confirmação destas afirmações. Há, sem dúvida, mercadorias à disposição do operário moderno que o próprio Luís xiv se teria deleitado em possuir, como, por exemplo, as dentaduras modernas. De maneira geral, todavia, um orçamento do tipo que vigorava na época do monarca francês pouco teria, na verdade, a ganhar com as conquistas do capitalismo. Podemos mesmo supor que a velocidade com que se viaja hoje tivesse pouca importância para cavalheiro tão importante. A iluminação elétrica não significa grande aumento de conforto para alguém que possuí dinheiro bastante para comprar um número suficiente de velas e pagar empregados para cuidar delas. As contribuições típicas da produção capitalista são os tecidos baratos, os artigos populares de algodão e seda artificial, o calçado, os automóveis, etc. que não são, de maneira geral, melhorias que teriam grande importância para o homem rico. A Rainha ELISABETE I possuía meias de seda. A contribuição capitalista não consiste tipicamente em produzir mais meias de seda para rainhas, mas pô-las à disposição das operárias, em recompensa por volume cada vez menor de trabalho” (Capitalismo, Socialismo e Democracia, Capítulo 5).

    Entendo o descontentamento, mas veja que o vetor de maior promoção das desigualdades (e, mais importante, da ausência de equidade) na nossa história é o governo. Foi o governo que instaurou a escravidão, que permanentemente concentra renda para os mais ricos por meio de políticas como subsídios e socialização das perdas de grandes empresários ou mesmo a existência de uma universidade pública para o filho das elites. Sua revolta faz sentido, mas acho que está mal direcionada. Assim como eu acho que o “Occupy Wall Street” deveria ser na verdade “Occupy Washington” ou “Occupy the Fed”, creio que esse cenário que você traçou – de tendência de diminuição das liberdades, como se os “cordeiros” estivem piores do que a geração de seus pais – é ilusório.

    O mundo real está longe de ser ideal. E é legítimo que sonhemos (e lutemos) por nossos ideais. Mas é bom ter um senso de realidade e de história – para não sacrificarmos avanços reais em nomes de princípios.

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