Música, emoção e política

Como já diria Confúcio, “a música é o nascimento da emoção”. Ela expressa os sentimentos mais profundos do ouvinte e do músico, evoca ou suscita sensações diversas em cada um, em cada momento, e influencia maneiras de pensar e de se comportar.

Considero música uma concepção estritamente individual. Cada um entende música conforme as sensações e as percepções pessoais relacionadas a ela ao longo da vida. Em razão de tamanha particularidade conceitual, não vejo sentido em tentar defini-la, mas sim, quem sabe, em entende-la.

O aspecto mais impressionante da música, em minha opinião, é sua universalidade. Ela representa uma forma de expressão – ou uma linguagem – universal, que, independente da etnia ou da cultura, possibilita a comunicação entre grupos diversos. Nesse sentido, alguns autores, como é o caso de Suzanne Langer ¹ (1969), buscaram demonstrar a existência de paralelismo entre as propriedades acústicas da música e as propriedades da chamada “vida interior”, defendendo seu caráter essencialmente emocional. Sob tal perspectiva, Deryck Cooke ² também defende que a música é caracterizada por sua capacidade de evocar ou exprimir emoções, e, ainda, que a ela constitui uma linguagem, já que pode se identificar com um idioma e ser compilada a uma lista de significados.

Assim, em razão dessa universalidade, a música, como grande parte das artes, constitui uma forma livre e independente de expressão e manifestação de vontades, em que posições econômicas e sociais, sejam elas de marginalização ou de poder, são desimportantes em si. Schopenhauer, nesse sentido, tinha uma concepção de música um tanto instrumental, já que a considerava uma “objetivação da vontade” – aspecto mental -, enfatizando a analogia entre a música e as idéias que perfazem o mundo.

Devido ao caráter sentimental e emotivo que apresenta, a música é considerada, dentre todas as artes, a que mais possui força de aglutinação social. Segundo Arnold Schering, a música é capaz de dar coesão a grandes massas “em virtude de suas fortes qualidades sensíveis, a facilidade de conjugação com palavras e, em nível superior, as possibilidades que oferece de alta espiritualidade”. Assim, a música pode exercer o papel de “dominadora de espíritos”, carregada de caráter ideológico.

A partir daí, podemos passar da análise individual da música para um estudo mais amplo concernente à coletividade, ou seja, começamos a entender um pouco mais seu papel sociológico e político, que pode ser exercido de maneiras diversas. O uso da música como mecanismo político permeia a história de toda sociedade, pois reflete o contexto social em que está inserida. Ela pode ser usada tanto por atores e grupos políticos da sociedade civil, quanto pelo Estado.

No primeiro caso, o uso da música apresenta caráter mais contestatório e, muitas vezes, revolucionário. A música expressa os sentimentos desse grupo, sendo que tal expressão pode ser tanto meramente cultural, quanto de confronto à ordem vigente. Os gritos populares difundidos mundialmente, por exemplo, são casos em que a capacidade de aglutinação e incentivo da música é utilizada para fins políticos de manifestantes. De forma mais indireta, muitos músicos, em épocas de repressão e censura, compõem músicas contestadoras do sistema, como ocorreu no Brasil no período da ditadura.

A música também é e foi utilizada como meio de construção de identidade cultural ou de aprofundamento de sentimento de nacionalismo. Dentre os eventos históricos que comprovam esse caso, merece destaque o caso de Viva Verde, um dos melhores compositores de ópera da Itália do século XIX, cujo trabalho entre 1840 e 1850 teve fortes ligações com o fortalecimento do nacionalismo italiano. Na Alemanha, se observou caso semelhante com as composições musicais de Wagner, que simbolizavam a superioridade da música e do intelecto alemão, e que inspiraram, assim, a ideologia nazista.

O próprio hino nacional, elemento tão corriqueiro, representa um exemplo de reafirmação de identidade e do sentimento de nacionalismo que a música exerce sobre uma nação. Ele também representa, como outros casos, músicas que são criadas pelo governo como meio de afirmação de suas políticas ou de aceitação de suas ações, como é o caso dos hinos nacionais regionais, marchas de guerra, entre outros. Além disso, a música pode ser usada como meio propagandista em vários momentos e por diversos atores, tenham eles objetivos políticos ou privados.

Vale ressaltar que todos os usos da manifestação musical citados no texto são marcados pela intencionalidade política evidente. Porém há casos em que as produções musicais mais instrospectivas e pessoais, a princípio sem objetivo político claro, possuem valor incomparável para a compreensão da sociedade, já que elas, com certeza, dirão muito sobre o contexto em que foi produzida.

Portanto, o uso da música para fins específicos, ou como expressão de vontades políticas e de ideologias, só é possível devido ao seu caráter sentimental e emotivo apresentado no início do texto. Sem as influências pessoais causadas pela música, seu uso provavelmente seria ineficiente. Fica evidente, então, que a emoção exerce papel essencial nas ações políticas. Política envolve, acima de tudo, uma relação emocional entre atores, seja ela de conflito ou de aceitação. E, por essa razão, a música e a política estão tão estritamente relacionadas.

Um texto da petiana apaixonada por música, Ariadne Santiago.

[2] Cooke, Deryck (1989), The Language of Music. Oxford: Oxford UP.

[1] Compos, Luis Melo. A música e os músicos como problema sociológico. Revista Crítica de Ciências Sociais, 78, Outubro 2007: 71-94

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