Ciência Política por quê?

Na época de escola, a maioria dos/das meus/minhas colegas preocupavam-se com inúmeros assuntos diversos, que iam desde a partida de futebol da semana aos deveres de casa. Tanto os meninos quanto as meninas andavam em grupos enormes, discutiam sobre os assuntos que estavam nas revistas adolescentes e discutiam sobre a festa do final de semana seguinte. A maior parte deles gostava de vestir roupas diferentes, tentavam se destacar dos outros e tinham aquela mania irritante de criar categorias para elementos mínimos que faziam parte não só da nossa vida escolar, mas também – e talvez principalmente – para a abadalada vida social de um estudante de 14 ou 15 anos que não tem mais nada para fazer além de desenhar obras de Arte na carteira e dormir a tarde inteira. Assim, surgiam expressões como “melhores amigos”, “a mais bonita do corredor”, “aqueles nerds que sentam nas primeiras carteiras”, “a turma do fundão”, e até mesmo – acreditem – uma denominação particularmente querida por alguns amigos meus e a categoria na qual eles gostavam de se inserir: “elite da 8ª série”.

Eu confesso que eu fazia as mesmas coisas. Criava nomes, rabiscava nas carteiras e mesmo não colando rótulos na testa de ninguém, eu pensava dentro dessas categorias. E eu nunca imaginei que o mundinho em que eu vivia podia ser maior do que o colégio, minha casa e as festas em que eu desperdiçava minhas horas aos finais de semana. Naquela, época não existia ninguém mais além das minhas melhores amigas, dos nerds que sentavam na frente, da turminha do fundão, dos professores, das novidades e dos deveres. No entanto, nas horas vagas entre uma fofoca e outra, quando eu finalmente me livrava de conversas superficiais, costumava eu usar meu Tempo para refletir acerca das pessoas.

Pessoas. Sempre me impressionaram muito. Decepcionaram-me, surpreenderam-me, decepcionaram-me de novo e sempre tiveram aquele pedacinho de mistério. Elas são sempre tão imprevisíveis. Mais do que pessoas, eu me interessava por grupos, embora não quisesse fazer parte de nenhum deles. O jeito como eles impunham hierarquias uns aos outros, a forma com que a interação entre determinados indivíduos determinavam seus julgamentos de valor e o jeito como alguns possuíam uma capacidade incrível de influência: eram essas as características que eu gostava de analisar, enquanto esperava meu pai na fila do supermercado ou ia para casa sentada no ônibus.

Demorei anos para descobrir que existia uma matéria para isso: Sociologia, a qual compreende o estudo dos grupos sociais. Mesmo assim, eu não estava satisfeita. Havia um elemento em todos os grupos, o qual eu focava minhas análises, assim quase sem notar. Esse elemento era o poder. Passara muitos anos de Ensino Médio, sem saber o que fazer, que curso escolher, mas ele estava ali todos esses anos. O poder que se dissolve nas micro-relações que compõem o cotidiano. Aquele poder que faz com que você abaixe a cabeça para um professor que não goste, obedeça seus pais sem querer, e principalmente, continue andando com alguém que não considere exatamente ético só porque essa pessoa exerce certo magnetismo sobre você. É difícil de explicar e às vezes poder se confunde com autoridade. Mas a questão é que a resposta estava ali o Tempo inteiro.

Até hoje, quando ando com a camiseta do curso de Ciência Política da Universidade de Brasília, indivíduos me param para perguntar o que um cientista políticos faz. Muitos/as alunos/as do 1º Semestre também se fazer a mesma perguntas todos os dias em que eles passam sentados escutando noções de Economia, Direito e autores dos quais eles talvez nunca tenham ouvido falar, ou até tenham, mas sobre a ótica daquele senso comum que tanto irrita alguém dotado de preciosismo individual. Eu sempre costumo dizer que a escolha de um curso na universidade é algo estritamente individual, particular, mas acho que a minha escolha está relacionada com o que a Ciência Política é.

Bom, a Ciência Política é antes de tudo, uma forma de conhecimento. É uma forma de buscá-lo. E aqui não pretendo entrar naquele mérito de “Ciências Sociais é ciência ou não é?”, mas a Ciência Política pressupõe um método, repleto de surveys, entrevistas, etc, que buscam entender determinados fenômenos (políticos) e a relação causal entre eles.

Em segundo lugar, a Ciência Política está relacionada com a coletividade, visto que o termo “política” refere-se às questões que concernem à coletividade, os problemas considerados “públicos” que afetam um coletivo.

Mas acima de tudo, a Ciência Política está relacionada com a reflexão. É você sentar em um ônibus e pensar porque o transporte público está desse jeito. É você olhar para um indivíduo vendendo bala no sinal e se perguntar se o mercado não foi inventado ao invés de descoberto. É você almoçar com um casal de amigos e se perguntar porque o homem tem que pagar a conta. E é principalmente você se perguntar por que o mundo tem que ser assim, se é que ele tem que ser alguma coisa.

Ciência Política, para mim, tem haver, acima de tudo, com transformação. É acordar a cada dia com a disposição de pensar uma sociedade melhor – pois mais relativo que esse termo possa ter. E é também, acordar todos os dias com a disposição de mudar de idéia, tentando construir e desconstruir.

Não, não é o mesmo que salvar o mundo. Mas é pensar que ele pode ser mudado.

Um texto de Nayara Macedo, que é completamente apaixonada pela Ciência Política

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