Educação política: reflexões a partir de uma pedagogia da autonomia

“Ninguém é sujeito da autonomia de ninguém”

 Paulo Freire

Uma semana universitária que tem como tema “90 anos de Paulo Freire: um marco para a reflexão sobre os rumos da Universidade brasileira” é uma oportunidade interessante para apresentar algumas reflexões inspiradas na vivência – sempre compartilhada – de experiências extensionistas em política e educação. Mais especificamente, pretendo levantar questões presentes em Paulo Freire como ponto de partida para problematizar alguns significados atribuídos à idéia de educação política.

A idéia de uma educação política em seu sentido corrente, isto é, um processo educativo caracterizado por uma postura marcadamente “politizada”, deliberadamente compromissada com intenções/interesses específicos, pode ser percebida positiva ou negativamente, a depender das intenções ou concepções de mundo e de educação que estão em jogo. Em contextos mais restritos, como espaços de formação de movimentos sociais e partidos políticos, esta concepção de educação política é o que caracteriza este espaço; além de engajada na transmissão de princípios específicos, tem como razão de ser a formação de pessoas que os compartilhem e que venham a agir, portanto, de acordo com eles. Para utilizar os mesmos termos que os seus críticos, tratarei esta concepção como “educação politizada”.

A situação é oposta na maioria dos outros ambientes propriamente identificados como educativos: escolas, universidades, etc. Nestes, uma educação política é em si mesma percebida como negativa, pejorativamente referida como politizada, ideológica, ausente enfim de qualquer credibilidade e valor. A raiz desta percepção pode estar em um fetichismo pela objetividade e neutralidade científica, pela busca de um conhecimento verdadeiro com o qual o político seria incompatível; ou até mesmo no receio de um totalitarismo fundado no controle ideológico sobre as mentalidades por meio da educação. Seja qual for a razão, a solução proposta é o tratamento neutro, “pragmático” dos conteúdos a serem transmitidos. Para fins deste texto, irei me referir a partir de agora a esta perspectiva como a “crítica pragmática[1]” a uma educação política.

É possível deduzir do “esquema analítico” das concepções de educação política que tentei traçar que a crítica pragmática se opõe totalmente à educação politizada tal como a apresentei. A questão é que ela não se esgota nisso: estende sua crítica também a quaisquer práticas/propostas de educação que assumem a sua intenção política, mas são diferentes da educação “politizada” que caracterizei; este é o caso, por exemplo, da pedagogia da autonomia de Paulo Freire (1996). Proponho uma objeção sucinta à “crítica pragmática” que parte de Freire mas que não se esgota nele; pode ser ampliada a diferentes concepções e práticas de educação que se identificam como “autonomistas”, “libertárias”, etc, e é fruto de reflexões coletivas a partir de experiências vivenciadas concretamente, como me referi anteriormente.

Uma pedagogia da autonomia é, por definição, proposta e método, contrária a qualquer tipo de relação imposta de maneira arbitrária; se opõe, portanto, a qualquer tipo de totalitarismo. O fato de se apresentarem como sujeitos dotados de intencionalidades políticas e exprimirem sua visão de mundo abertamente no processo educativo não dá aos educadores autonomistas o direito de impor conteúdos e valores aos educandos com os quais se relacionam, mesmo que de maneira velada. A aversão a qualquer tipo de imposição na prática docente/discente conduz, em uma proposta de educação política para a autonomia, a uma preocupação fundamental com o método envolvido. É o diálogo enquanto instrumento metodológico (FREIRE, 2003) a principal característica de uma pedagogia com esta orientação teórico-política; e uma dialogicidade é verdadeira apenas quando os sujeitos dialógicos aprendem e crescem no respeito à diferença (FREIRE, 1996, p. 34), o que pressupõe certamente a primazia da liberdade e do respeito sobre a arbitrariedade.

Soma-se a isto o fato de que o feedback que se espera em um processo comunicativo de educação é extremamente dependente da relação subjetiva, afetiva e de respeito mútuo entre os envolvidos, a qual cria as bases para um aprendizado ausente, ao menos enquanto proposta, de nivelamentos que hierarquizam e coíbem uma participação efetiva no processo educativo. É neste sentido de “criar as bases” de uma relação dialógica que Freire fala de uma “rigorosidade metódica” inerente à prática adequada de uma pedagogia da autonomia:

“ensinar não se esgota no ‘tratamento’ do objeto ou do conteúdo, superficialmente feito, mas se alonga à produção das condições em que aprender criticamente é possível” (FREIRE, 1996, p. 14)

Em um processo educativo, tal como em toda interação, a realidade é permeada de intenções e expectativas, que por sua vez mobilizam posturas próprias dos sujeitos perante os conteúdos que estão sendo tratados. Tanto a interpretação do educador sobre o trabalho que pretende realizar quanto a recepção dos “educandos” perante o que está sendo trabalhado envolve dinâmicas diversas que estão muito além de uma transmissão pura, simples, unilateral e completa; ignorá-las traz como risco legitimar a ilusão de que os conteúdos existem “por si mesmos”, em um vazio social e político. Abarcar estes componentes como parte de uma realidade objetiva e inserir o componente do “ato ação-reflexão” (FREIRE, 2005, p. 30) como exercício fundamental para a apreensão desta realidade é uma virtude que aproxima uma educação autonomista politicamente engajada de um conhecimento social bem fundamentado, algo que a crítica pragmática dificilmente tende a reconhecer.

Por fim, em consonância com o tom “sair do armário” adotado neste texto, não poderia deixar de explicitar (mais) a intenção aqui presente: encorajar práticas educativas que acenem para o triunfo de uma experiência político-pessoal de aprendizagem com autonomia sobre os riscos de um pragmatismo hipócrita e distante, portanto, da realidade objetiva com a qual supostamente estaria compromissado.

As principais referências que serviram de base para esta reflexão foram as experiências vivenciadas no âmbito da prática política e pedagógica com o PET/POL e os projetos “E eu com isso?” e “Política na Escola”. A experiência da disciplina “Política e Educação”, a qual cursei no segundo semestre de 2010, foi com certeza o principal esforço de reflexão coletiva e sistemática que me permitiu abordar as questões aqui levantadas. Agradeço a todos(as) amigos e amigas envolvidos(as) pela oportunidade.

Um texto do ex- (e para sempre) petiano Pedro Vasconcelos.

Referências bibliográficas:

FREIRE, P. Conscientização: teoria e prática da libertação: uma introdução ao pensamento de Paulo Freire. São Paulo: Centauro, 2005.

__________. Pedagogia da Autonomia. São Paulo: Paz e Terra, 1996.

__________. Pedagogia do Oprimido. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 2003.


[1] Este uso de “pragmático” não se refere a um conceito mais elaborado do termo ou a uma corrente filosófica com a qual é comumente associado, mas somente de acordo com a sua utilização corrente, isto é, como oposição ao “ideológico”.

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Um comentário em “Educação política: reflexões a partir de uma pedagogia da autonomia

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  1. Pedro Vasconcelos,

    Pena eu ter levado tanto tempo para ler com atenção este seu texto, que creio tocar em um ponto central na educação e mais ainda nos termos valorativos do que é conhecimento e transformação na nossa sociedade. Paulo Freire, neste sentido, creio ser uma figura com uma contribuição maravilhosa. É comum a gente ouvir falar que fizeram do método dele algo para se querer aplicar a tudo, e, muitas vezes, tendo a concordar até…, seu nome é utilizado nos debates com um certo dogmatismo com que a autoridade do nome acaba levando mais verdade do que a sua mensagem – o que é uma pena quando caras como ele (o Marx, o Bourdieu, o Foucault, o Weber, e tantos outros poetas do nosso pensamento social…) tem tanto com que dialogar e fazer-se ouvir em nossos debates.

    Longe de querer fazer do Paulo Freire e do que ele deixou uma coisa reificada e cabível a tudo, acho que o seu texto chamou a atenção para o quanto é necessário assumir e, acima de tudo, trazer a intencionalidade política para o ato de ensinar e de aprender. Como você mesmo pontuou, a educação correntemente é pensada como o grande instrumento do “ensino de coisas”, da “transmissão de conteúdos”, e, arrisco dizer, como grande recurso de “capacitação de incapazes”. O que se tem subscrito a isso, na minha opinião, é uma concepção de educação indissociada do “Conhecimento”. OK, valeu, grande constatação, né? Pois é, mas essa naturalização da associação implícita da educação ao conhecimento técnico distancia na medida certa de seu veneno a capacidade que temos de compreender a dimensão fundamental que a educação possui na socialização dos sujeitos, no seu fundamento estruturante da percepção de mundo das pessoas e, principalmente, da capacidade de conformação desses mesmos sujeitos às disposições sociais injustas das quais este mesmo sistema educacional – e essa concepção técnica de educação – é fruto.

    E é assim mesmo que a educação-conhecimento vira território abandonado da política – e é assim também que, por exemplo, a nossa Ciência Política não discute os aspectos fundantes e generalizados da educação, do sistema educacional, dos seus abismos de poder e da tessitura de poder existente nas formas que se escondem no ato de ensinar, produzir e impôr também (por que não?) conhecimento em todos os espaços de nossa sociedade, na Universidade, inclusive. Foi a respeito dela que seu texto me instigou, Pedro. O que você disse sobre o “véu de ignorância” que se coloca entre a intencionalidade política e as metodologias práticas da educação existente me fez pensar o quanto o nosso gigante Paulo Freire se consagrou nos debates acadêmicos e nas orientações ideais de nossa Universidade mantendo-se ao mesmo tempo tão ainda longe de ser verdadeiramente, em minha opinião, levado a sério nas concepções e práticas que se reproduzem na Universidade… De onde falo, do curso que faço na UnB, que é Ciência Política, as proposições práticas e as reflexões teóricas do nosso amigo Paulo Freire me parecem ainda ter sequer sido debatidas para serem confrontadas em suas possibilidades no ponto de encontro da educação com a política; em nossa Semana Universitária, da qual participei, nosso ilustre homenageado parecia, às vezes, vencido dentro da reprodução de algumas práticas correntes da Universidade que, de tão antigas, faziam com que o pensamento de Paulo Freire não conseguisse nem mesmo contrastar as relações de poder vigentes com um simples questionamento.

    O tom não é pessimista, não me levem a mal, mas é a vontade e a esperança de que as coisas se modifiquem na nossa maneira de pensar o que é mesmo um projeto de educação com autonomia e intencionalidade por justiça que fazem com que um texto tão bacana como o do Pedro incite uma resposta tão pesada e crítica às condições de educação vigentes.
    Acho que é assim mesmo né? Afinal, o perigo de pensar juntas Política e Educação faz isso com a gente!! =)

    Abraços,
    João Vinicius.

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