Reflexões sobre o monopólio dos automóveis

Não são raras, e muito pelo contrário, são frequentes, as ocasiões em que, assistindo a um jornal da TV ou lendo alguma notícia da internet, surge na seção destinada à economia uma referência à produção de carros. Seja aqui, no continente europeu, na China ou em terra japonesas, ao fato de termos um carro a mais nas ruas das cidades do mundo, logo se associa a imagem de uma economia em expansão.

Momento igualmente comum é aquele em que determinadas, e recorrentes, propagandas de alguns setores produtivos (automobilístico, petroleiro e as empreiteiras – veja um exemplo aqui: http://www.youtube.com/watch?v=OvFbjGKJ8Cg) transmitem aos telespectadores de todas as idades a mensagem: Brasileiro é apaixonado por carro!

Em relação à primeira questão mencionada, ao se colocar um veículo a mais no tráfego, de fato, isso pode ser um exemplo de como a economia cresce. Não sem que traga um custo, é claro. O tráfego das grandes cidades brasileiras, já intenso, adquire a um ritmo acelerado, novos motores para preencher o seu cenário caótico. Como soluções, um leque amplo de possibilidades: ampliação do sistema de transporte público, criação de faixas exclusivas para ônibus e de ciclovias e da aparelhagem que envolve essa prática – postos de aluguel e conserto, por exemplo. Mas, na maioria das vezes, não é isso o que ocorre. Se o problema é falta de espaço, não há dúvida, que se aumente o espaço para os carros. A cidade, como ambiente de convivência humana, é antes ambiente para a convivência entre roncos mais ou menos ruidosos dos nossos parceiros de quatro rodas.

Se brasileiro é realmente apaixonado por carro, não tenho informação para afirmá-lo – e inclusive, duvido de tal-, mas não posso negar que os incentivos a sair todo santo dia de casa e pegar o lançamento do ano para ir ao trabalho são absurdamente maiores do que tomar um ônibus ou mesmo, em caso de distâncias menores, seguir a pé ou na companhia da velha magrela. O carro é então o companheiro inseparável e, muitas vezes, com o qual mais mantemos contato.

Não quero afirmar aqui que, de uma hora para outra, deveríamos abandonar os possantes e substituí-los por meios, digamos, alternativos[1]. No fundo é isso mesmo, mas sei que há um caminho tortuoso e conflitante nessa direção. Muitos são os interesses que cooperam para a permanência e o aumento dos carros nas ruas brasileiras. A indústria automobilística, as construtoras de estradas e as distribuidoras de combustível obviamente discordam de que os automóveis devam ser trocados por veículos leves de duas rodas, ainda mais se isso ocorresse imediatamente.

 Pensemos, no entanto, que dessa forma mais do que andar pela cidade, poderíamos vivê-la de uma forma mais profunda, mas vejo isso tão menos possível quanto mais se aumenta a quantia de carros nas vias urbanas. Espero que possamos, em um futuro não muito distante, acompanhar, cada vez mais nas cidades brasileiras e do mundo, os veículos cedendo espaço para que as pessoas possam delas desfrutar. Enquanto isso, continuo, na maior parte do tempo, andando com minha magrela[2], a passos firmes – ou não – no chão e na companhia do bom e velho baú.

Um texto de Vinicius Prado Januzzi


[1] Rotulo o transporte público, a bicicleta e o andar a pé como alternativos os justamente pelo fato de que nosso espaço urbano, em geral, não é a eles destinado.

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4 comentários em “Reflexões sobre o monopólio dos automóveis

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  1. Bacana o texto. Realmente a questão da mobilidade urbana precisa ser tratada com muito mais atenção pelo poder público. Enquanto isso a sociedade se organiza.

    Por exemplo: https://www.facebook.com/groups/bike2workdf/

    Semana que vem rola a Semana de Mobilidade Urbana, organizada pelo GDF, pra pegar o Dia Mundial Sem Carro (22/09) .

    Também sonho com uma cidade só de transportes alternativos, e muito poucos carros…

    Abraço

      1. É uma boa Pedro Paulo! Vamos ver a viabilidade disso e nos organizaremos para fazê-lo caso seja possível! Obrigada pela sugestão!!!

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