Não estamos tão longe das distopias!

“Vivemos no melhor dos mundos”, disse repetidas vezes o filósofo Pangloss ao ingênuo Cândido em uma das mais célebres obras de Voltaire[1]. Embora o autor o tenha escrito há muitos anos, é ainda mais notável nos dias de hoje que há um número maior de pessoas que acreditam nessa sentença proferida com tanta crença pelo personagem quanto por ironia e sarcasmo das mãos que as escreveu.

Mas é claro que em um mundo tão bem dotado de celulares blackberry, ipad, transportes rápidos, vacinas e direitos concedidos, é de se esperar que muitas pessoas acreditem realmente que não poderia existir época mais rica, mais feliz e mais maravilhosa do que essa em que vivemos atualmente.

No entanto, diversos fatos esquecidos ou negligenciados estão para comprovar o contrário. Recentemente em Londres, houve diversos protestos devido a um incidente que resultou na morte de um cidadão britânico. Um cidadão negro. Os protestos se espalharam devido a uma dessas maravilhas tecnológicas modernas, e passaram de manifestações pacíficas a incêndios e atos de vandalismo, em que, no meio do tumulto, diversos indivíduos aproveitaram para retirar objetos de valor de lojas. “Só estamos pegando nossas taxas de volta!”, responde uma senhora em um vídeo amador. Analisando esse caso, os mais otimistas podem deferir argumentos como a importância dos movimentos sociais para a democracia, o conceito de desobediência civil, a luta por um mundo mais justo, contra a opressão que a economia exerce contra os cidadãos, entre outros aspectos da mesma categoria.

Entretanto, a esperança de um mundo melhor às vezes contribui para uma cegueira incólume das falhas do mundo presente. O caso de Londres aponta pelo menos duas delas. Em primeiro lugar, o presente evento nos mostra que na Inglaterra existe uma polícia especial só para lidar com os bairros negros, o que denota uma prova de racismo. Em segundo, o roubo de mercadorias não indica um ato de desobediência civil, tampouco uma tentativa de luta de opressão, representando mais uma tendência de oportunismo que subverte e prejudica as razões sérias e legítimas. Por fim, as conseqüências são ainda mais graves: o governo da Inglaterra pensou em controlar as redes sociais, uma vez que o protesto se espalhou devido ao uso da internet. O que nos prova que, embora se fale muito em liberdade na atualidade, ela não se concretiza de fato. Ao menos, não por completo.

Assim, a humanidade, festeja a democracia, a liberdade individual, a liberdade de consumo, o poder de compra, e todas as vantagens que estão supostamente presentes em nossa sociedade moderna, quando, na realidade, todos esses conceitos não passam de representações e convenções humanas, manipuladas pelos meios de comunicação de massa, pelas elites políticas que possuem um poder violento e arbitrário, por aqueles que dizem defender um discurso igualitário, mas colocam suas ideologias em um nível hierárquico muito acima das demais, simplesmente por se considerarem os donos da razão[2] e acharem absurdo uma pessoa pensar de modo diferente.

E não falo apenas de estruturas, mas principalmente de atitudes individuais, e mais ainda, aquelas que são realizadas em micro-esferas. Um aluno que ri do outro porque ele se veste de forma engraçada, um estudante universitário que debocha de alguém e o chama de “reacionário” só porque tal defende determinada posição política, um professor que coíbe os estudantes em sala de aula quando eles não concordam com sua opinião pessoa, uns pais que dizem “não tenho nada contra a homossexualidade, mas se meu filho fosse gay…” e todos esses discursos, atitudes, comportamentos e gestos que contribuem para que o indivíduo se sinta condicionado, seja pelas normas da moda ou pelas regras sociais.

Viver em sociedade, visto que se trata de uma associação humana, já significa ceder uma parte de si em prol de um todo. No entanto, quando essa parte se torna exagerada, a ponto de se transformar em uma eterna dependência, é hora de tomar cuidado. Não, senhores, a escravidão pode ter sido abolida, mas a humanidade não se livrou de seus grilhões. Não enquanto os sonhos forem podados pela repressão, enquanto o pensamento for limitado pelas regras e o conhecimento pelas normas ABNT.

E principalmente, enquanto os indivíduos julgarem uns aos outros, como se fossem donos de toda a verdade que existe.

Não estamos longe da pancada de tecnologia que nos aliena em Huxley, nem das formas de dominação simbólica de Orwell.

Big Brother is watching you!

Seja lá quem seja o Big Brother. Podem ser seus pais, seus vizinhos, ou até mesmo seu melhor amigo.

Um texto de Nayara Macedo, uma fã de George Orwell, de literatura em geral e de teoria política (e que infelizmente sofre de insônia).

(Dedico esse texto ao meu amigo Carlos André Góes, que provavelmente vai discordar de muitos aspectos, mas foi ele que me emprestou o belíssimo livro “1984” e também me ensinou a não deixar de ser amigo de alguém só porque essa pessoa defende o Estado Mínimo)


[1] Obra “Cândido ou o Otimismo”

[2] E esse argumento já é visto em Rousseau, quando o autor traça o desenvolvimento da sociedade e os estágios por quais o estado de natureza passa até se transformar em civil, no Segundo Discurso.

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2 comentários em “Não estamos tão longe das distopias!

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  1. Professor Roberto Rocha. Mestre em C. Pol. UnB

    Gostaria de cumprimentá-la pelo excelente texto. Com vcs sabem, em Ciências Sociais não existe julgamentos, apenas leituras e clivagens teóricas, regadas de muita ideologia, disfarçada de conceitos.
    Mas, lá vai. Voce pediu comentários, então darei o meu.
    A democracia, de hoje não é a mesma dos antigos. É claro que vc sabe disso, está na Pol. Antigamente, ao tempo dos gregos-filósofos, era de participação obrigatória.
    Não existia meios de comunicação de massa.
    Hoje a Democracis se caracteriza pelo direito do cidadão em não ser obrigado a participar dela, exceto em certos lugares do mundo onde o voto ainda é obrigatório. Não fosse isso, os gregos teriam adotado a democracia, mas preteriram-na à República (rés-pública), assim como no Império Romano.
    Existe uma enorme e quase intransponível barreira entre a Liberdade e a democracia, são quase antinômicass.
    Revendo a Teoria dos Sistemas Gerais de Bertalanffy, relendo a obra de Mancur Olson sobre o tema da Lógica da Ação Coletiva, e outros que tratam de agregação de vontades, não tem como não concluir que as ações coletiva expontâneas levam à irracionalidade coletiva.
    Conclusão: O segundo princípio da Termodinâmica, que se chama Entropia, diz que: no universo, qualquer sistema deixado ao acaso aumenta o seu grau de desordem.
    Isto quer dizer que a ordem não vem expontaneamente. A ordem tem de ser conseguida com muito gasto de energia e inteligência (=controle + informação, através do feedbaack).
    Pessoas democráticas são avessas a controle, pois quanto menor os graus de liberdade mais controle, quanto mais democracia mais igualitarismo entre os jogadores, isto quer dizer, redistribuir os privilégios.
    Democracia e liberdade jamais convergirão, pois tem objetivos e métodos diferentes, quase opostos.

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