Parcialidade, jornalismo e ideologia: quais são os elementos de uma “verdadeira” democracia?

Por Nayara Macedo

“A democracia nunca existiu, é apenas uma farsa ilusória, um reino e domínio da

retórica; o ensino oficial não foi feito para esclarecer, mas, manter a humanidade

dominada e adormecida”.

(Rousseau)

Eu discordo do que você diz,mas defenderei até a morte o seu direito de dizê-lo.

(Voltaire)

Em sua última edição, a revista VEJA lançou uma matéria sobre o patrulhamento ideológico presente na Universidade de Brasília (UnB). Segundo a revista, alguns indivíduos teriam sofrido retaliações por parte dos outros estudantes devido a não se enquadrarem na ideologia dominante (Para ver a reportagem, clique aqui: pág. 1, 2, 3, 4, 5).

Não duvido. Realmente há uma ideologia que predomina na UnB e às vezes a divulgação por parte dessa visão de mundo se torna coercitiva: vide os carros arrombados, o caso Kauffmann, entre outros exemplos cotidianos que vão desde apelidos pejorativos a comentários e manifestações de desrespeito às opiniões alheias.

No entanto, a VEJA não é o melhor exemplo de respeito à liberdade de expressão – e aqui quero esclarecer que não sou contra a sua veiculação de maneira alguma, mas apenas salientar alguns aspectos negativos da sua forma de atuar.

Primeiro, porque a revista raramente publica comentários contrários à sua opinião na sessão devida. E o diálogo, como pressuposto de um regime democrático (partindo-se da afirmação que a deliberação necessita de um diálogo), seria fundamental em um veículo midiático de tal amplitude.

Segundo, pois a matéria, embora tenha muitos fundamentos válidos (tais como os casos citados), incorpora um viés que camufla alguns fatos. Isso não seria problema se a revista assumisse sua perspectiva, porém ela insiste em se declarar neutra.

E tal é o caso da mais recente matéria: junto às proposições feitas do patrulhamento ideológico, a VEJA aproveitou para lançar sua opinião também ao caso do voto paritário – considerado por muitos como uma conquista – sem mencionar, é claro, que tal vitória dos estudantes foi uma resposta ao caso Timothy. Mero detalhe “esquecido” pela VEJA.

Com isso, não quero dizer que a revista seja de todo ruim. De maneira alguma. As reportagens sobre saúde e espetáculos são excelentes. Porém, venho indagar em que medida essa falta de abertura ao diálogo – tanto por parte da revista quanto por parte dos estudantes da UnB (e aqui, digo mais, tanto os que se consideram de “esquerda”, quanto o de “direita”).

O que é, evidentemente, irônico, pois ambos defendem a liberdade de expressão. Que liberdade seria essa, então, que te impede de considerar a opinião dos outros? Se essas opiniões são produtos de quadros interpretativos frutos de determinados processos históricos, a única forma de evitar um condicionamento ilimitado por parte desses processos seria ter acesso a outros processos. Sendo assim, a autonomia em si pressupõe um acesso a outras opiniões. Acesso esse dificultado por nossa própria mentalidade presunçosa. Não somos os donos da razão.

Sendo a democracia – ou o que mais se aproximar desse conceito tão controverso – um regime que se estabelece sobre a liberdade de expressão e o direito à contestação[1] – escutar em sentido amplo (escutar, refletir e deliberar sobre) é um elemento fundamental. E esse comportamento individual se reflete nas formas como as instituições funcionam em nossa cultura ocidental: em nenhum momento, disseram-me que eu podia contestar, que existiam outras lógicas, que um outro mundo é possível.

Partindo-se, assim, de uma concepção de contrato social[2], a reflexão é um passo precedente à deliberação, e, portanto, a pluralidade de opiniões sobre as quais o indivíduo pode exercer seu direito de pensar de forma autônoma é simplesmente fundamental.

Mas, é claro, você tem todo o direito de discordar.


[1] Baseado no conceito de poliarquia de Dahl em Poliarquia: participação e oposição. Tradução de Celso Mauro Paciornik. São Paulo: Ed. USP, 1997

[2] Ver tanto os contratualistas modernos (Locke e Rousseau principalmente com suas diferentes perspectivas) quanto Rawls (neocontratualista)

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7 comentários em “Parcialidade, jornalismo e ideologia: quais são os elementos de uma “verdadeira” democracia?

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  1. Nayara, parabéns pelo texto!! O tema me atrai bastante e me sinto tentado a comentar. =p
    Mais uma da Veja, né? Não me surpreende em nada. Uma coisa é invariável: a superficialidade com que as discussões são tratadas. Essa reportagem é “padrão Veja” e padrão do formato das discussões que são feitas nos nossos principais veículos de comunicação: uma soma de breves afirmações dx próprix jornalista e de curtas colocações de “especialistas” que de forma muito apressada chega a uma narrativa possível sobre os acontecimentos. No caso da Veja, chama a atenção a mediocridade das reflexões, a quase-ausência de pessoas que falam contra a proposta que é colocada (como vc bem disse) e o enquadramento claramente maniqueísta que é dado aos diferentes pontos de vista. Em relação à ironia barata, prefiro nem comentar… Enfim, debate nenhum se torna possível nesse contexto.
    Lendo a passagem do Prof. Polleti, que pode ter motivos para afirmar o que afirmou, fui tomado por um sentimento de ironia. Ele disse: “A universidade foi tomada por um patrulhamento ideológico tácito, orquestrado para funcionar sem ser notado. Quem pensa diferente é relegado ao limbo.” É interessante notar que o componente de dominação tácita e de exclusão do diferente citados nessa passagem estão bem presentes no jornalismo da Veja (dentre outros veículos).
    Tenho algumas discordâncias em relação à atual gestão da universidade, a algumas posições tomadas pelos professores que têm mais voz nos espaços institucionalizados e a determinadas opções tomadas pelo atual DCE. No entanto, alguns personagens pertencentes a esses grupos fazem parte da construção de uma inegável conquista: a universidade nunca foi tão aberta. Mesmo que ainda haja exemplos reprováveis de intolerância – e não duvido que os acontecimentos trazidos pela reportagem sejam verdadeiros -, os modelos anteriores de gestão e de participação na universidade representavam um perigo muito pior: o compromisso quase que exclusivo com esse conceito de “Universidade como excelência acadêmica”. Ao invés disso, uma universidade deve estar igualmente comprometida com a formação cidadã, com a reflexão sobre seu significado na sociedade e com o processo democrático. Não que isso seja inviável em uma universidade de excelência acadêmica; pelo contrário, isso só viria a reforçar sua excelência. O problema é que esse conceito de excelência costuma ser levantado justamente por personagens e grupos que preferem ver uma universidade sem participação estudantil efetiva e comprometida exclusivamente com o desenvolvimento do “conhecimento científico”. Uma coisa que a revista não menciona, por exemplo, é que parte desses atores que costumam se apresentar como críticos ferrenhos à atual situação da UnB de vez em quando relembram com saudosismo os tempos da universidade na ditadura militar, sob o argumento de que “naquela época as coisas funcionavam.” Não sei se a universidade hoje é “instrumento de dominação ideológica”; o que sei é que isso já foi muito mais flagrantemente verdadeiro em outros momentos.
    É óbvio que ainda há muitos problemas muito complexos na UnB. É importante salientar que mesmo hoje há diversas estruturas importantes da universidade que ainda estão fechadas à participação de grupos diretamente interessados em suas decisões. Mais precisamente, acho que não se trata de falar de universidade mais ou menos aberta. Acho que é mais correto falar de uma universidade disposta a refletir coletivamente sobre si própria e outra que nunca esteve. Fazendo uma generalização que talvez seja possível para os propósitos dessa discussão, a UnB atual parece dar os primeiros passos, depois de muito tempo, na direção da sua maior abertura. E esses primeiros passos estão sim envoltos em muitas ambiguidades e contradições que precisam ser identificadas e resolvidas.
    Os meios de comunicação ocupam um papel central na discussão pública de temas como esse. No entanto, a forma como é posto pela Veja (dentre outros) só serve para desinformar e para criar falsos antagonismos. Não é a crítica que é o problema, mas o modo como a crítica é colocada.
    Parabéns de novo, espero que eu não esteja tão equivocado nos meus otimismos e perdão se eu me alonguei. =p

  2. Olá Nayara,

    uma boa oportunidade a publicação do texto.
    Gostei dessa tentativa de pensar a partir dos acontecimentos, a partir do que foi publicado.

    No entanto, fiquei ressabiado com duas coisas, dois meros detalhes na verdade….:
    – Me parece que o conteúdo da reportagem está ok na sua visão, porque há quase nenhuma menção ao que está ali publicado. Seu texto me informa mais que a VEJA, por si mesma, é questionável – independentemente do conteúdo que esteja ali publicado. É questionável a postura da revista com relação ao suposto patrulhamento simplesmente porque: i) ela mostra que, historicamente, também faz vários desses patrulhamentos; ii) porque não tem “envergadura moral” para questionar ou criticar nada que diga respeito a essa visão parcial dos acontecimentos. E aí não sei bem se é o caso de insistirmos em manter esse véu que cobre todas as reportagens da VEJA: se é da VEJA, é questionável. (Mas veja bem: muito embora eu concorde com essa postura, e até mesmo haja assim, evitando a todo custo me importar com qualquer coisa publicada nesta revista, do ponto de vista acadêmico, ou teórico-democrático, não é bacana questionar a “vida pregressa” (os os reais motivos) daquele que expõe sua opinião para, só então, validar (ou não) essa mesma opinião, não é mesmo?)
    – Ainda que nós dois concordemos que a democracia não é uma mera questão de “lado”, mas sim de “modo” de se posicionar e de criticar e deliberar, eu fiquei aqui pensando se, num mundo ideal, a sua ideia de “é claro, você tem todo o direito de discordar” fosse real: será que temos mesmo o pleno direito de discordar de qualquer coisa, em qualquer tempo? Qual é o limite para isso? Será que a democracia tem mais a ver com liberdade ou com auto-limitação? E, no fim das contas, o que é que separar (ou distingue) liberdade de auto-limitação – ou seja, não serão estas somente duas faces da mesma moeda? Acho que vc menciona algo nesse sentido…mas e aí? A VEJA tem mesmo o direito de publicar o que publica (numa revista com circulação nacional e milhares de assinantes), sem poder ser “limitada”, nem mesmo “auto-limitada”, só para que nós tenhamos o direito de questioná-la e criticá-la (num blog com alguns leitores)?

    Enfim, devaneios.
    Parabéns pela rapidez com que publicou suas ideias!

  3. Ok, concordo. Tudo que é possível em uma democracia cabe no contrato social que capitula na sua deontogia que: nenhum atentado à democracia pode ser tolerado, incluindo a discordância dela própria, ou seja, já se torna a primeira excludente, o que é uma contradição. Segundo: você pode discordar mas não pode atentar contra os princípios estabelecidos nela como os melhores para a sua própria existência, pressupõe que ninguém pode duvidar que a democracia é o fim da História, o fim último, perfeito e acabado, imutável e perpétuo de forma de organização social. Na democracia cabem as críticas menos a sua própria desconstituição.

  4. Oi

    Gostei do texto, mas me detive a um detalhe que foge à discussão sobre o tema.
    Você sugere que certas pessoas estão tendo seus carros arrombados por perseguição ideológica (foi como interpretei) ?
    É por que esses dias estive discutindo o problema dos arrombamentos de carro na UnB e sequer chegaria nessa hipótese. Se for verdade, gostaria de certos “indícios”.

    Att

  5. Muita obrigada, pessoal! Vamos agora aos esclarecimentos:

    1. Pedro Mesquita, achei lindo tudo o que você escreveu e concordo bastante com você! Acho que essas reportágens (vide DFTv), embora apresentem aspectos da realidade, são bastante tendenciosas e apresentam apenas um lado da UnB de forma muito maniqueísta. O que mais me impressiona é que as pessoas caem nessa visão, exatamente porque alguns não possuem um senso crítico aguçado, e porque outros acreditam nessa tal imparcialidade dos veículos de comunicação. Uma vez eu estava em uma festa com professores de uma Universidade particular e simplesmente uma delas me disse que seus filhos não estudariam na UnB por causa do consumo de drogas. Meu argumento foi de que a UnB era muito mais que isso, existiam diversos projetos empreendidos pelos próprios alunos com poucos projetos institucionais. É claro que há problemas na UnB, alguns muito maiores do que esse patrulhamento ideológico, e devemos criticá-lo. Mas mostrar só um lado da questão não é a solução. Ainda mais levando-se em consideração tudo que a Universidade representa. Outra coisa que que me impressionou bastante foram os professores escolhidos para prestar o depoimento. Ele são daqueles tipos que não permitem um mínimo de autonomia ao estudando e, portanto, já partem de um pressuposto de excelência acadêmica que não condiz com o que eu penso. Isso nãos os impede de falar e serem ouvidos, pelo contrário, mas já torna o viés da matéria duvidoso.

    2. Mateus, entendi suas dúvidas e irei apresentar meus contraargumentos. O problema de escrever algo sobre um assunto considerado polêmico é exatamente o risco que se corre de ser mal-interpetrado, mas eu entendi bem os seus pontos e irei traçá-los aqui:

    a) Não é o conteúdo inteiro que está “ok”. Em minha opinião, tem muitos aspectos na reportagem que são verdade ou fatos, como o tal preconceito a outras ideologias e o perseguimento. Eu acredito que os fatos que a Revista mostrou aconteceram mesmo (tal como o caso da Roberta Kauffmann). Por exemplo, há uma parte que um especialisra diz “Um instituição controlada por alunos gravita em torno dos pontos mais mesquinhos da pequena política”, quer dizer, é aquela velha imagem “unb = drogas = desordem”, tão exposta naquela matéria do DFTv. No entanto, em momento algum, eu diria que não poderia ler a VEJA devido à sua “falta de envergadura moral” , seria extremamente presunçoso e anti-democrático taxar tal veículo de comunicação, porque ele possui no viés. Minha crítica, porém, vai à tendência dada à reportagem, que ao invés de focar no aspecto do patrulhamento, puxou outros fatos mais controversos em nome de uma postura ideológica. E também critiquei a postura “faça o que eu falo, mas não o que faço”, já que a própria revista participa de um tipo de patrulhamento ideológico;

    b) A questão da democracia é complicada: entre várias definições que se tem do termo, existem várias visões do que seria ideal, viável, etc. Sei bem que existe uma questão central que permeia esse debate quanto aos graus de prioridade atribuídos à liberdade e ao limite, pois a própria vivência em sociedade estabelece limites ligados à convivência com outrem. Alguns diriam que o limite é até onde interfere na esfera individual de outros: por exemplo, é claro que você tem o direito de discordar, mas esse direito se estende a casos que promovam atitudes discriminatórias (o nazismo, por exemplo, é uma forma de discordar da lógica liberal)? Enfim, o limite pode ser muito tênue algumas vezes e foi por isso que eu preferi, no texto, não entrar no mérito da discussão e deixar em aberto. Preferi focar o texto acerca das mídias e da abertura ao diálogo, que eu acho essencial à democracia, no entanto, se você não concorda com esse prepusto, notoriamente você optará por não viver em “meu regime democrático”, porque discordamos no essencial (questão do diálogo). Mas novamente, é apenas uma opinião, não gostaria de parecer que estou impondo uma sociedade ideal (o que é, de fato, paradoxal).

    3. Roberto: Sim, o que você escreveu é bastante pertinenente. Mas novamente foi apenas uma opinião, parti de diversos pressupostos que talvez muita gente discorde (e aí cabem as críticas feitas inclusive ao regime democrático como ideal por excelência).

    4. Pedro Paulo: Não, nem todos os arrombamentos são devidos ao patrulhamento ideológico, mas existem casos que foram.

    5. Rafael e Paola: Muito obrigada pelos elogios!

    E muito obrigada a todos que comentaram, acho a internet um espaço muito bom (e às vezes pouco utilizados nesse sentido) para ter esses tipos de discussões e eu aprendo muito com os comentários e críticas feitos.

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