E viva o Bolsonaro!

Enquanto esperava para ser atendido em um consultório médico, ouço duas senhoras conversando sobre a “Marcha das Vadias”, noticiada por um jornal impresso que ali estava disponível para os pacientes que esperavam a sua vez. Entre um “que aburdo!” e outro “esse povo não tem o que fazer mesmo…”, elas discutiam uma suposta vulgarização da mulher no mundo contemporâneo, que no caso da marcha estaria sendo supostamente empreendida pelas próprias mulheres.

Esse momento, entre outros em que pude ouvir opiniões semelhantes, fizeram-me pensar no atual debate sobre várias questões polêmicas que têm sido levantadas tanto pelas nossas instituições quanto pela nossa sociedade: os direitos dos homossexuais, a busca por igualdade substantiva entre homens e mulheres, a descriminalização da maconha… temas que até pouco tempo atrás sequer teriam espaço na grande mídia e nos canais políticos institucionalizados, estando presentes apenas em iniciativas da sociedade civil de repercussão e visibilidade limitadas, sem capacidade de fazer reverberar suas reivindicações para a sociedade como um todo.

Não quero dizer com isso que os nossos mais poderosos veículos de informação e que as nossas instituições políticas compraram as brigas citadas acima. Muito pelo contrário, a todo momento temos exemplos de como ainda há vozes conservadoras extremamente influentes nesses canais. No entanto, esses mesmos canais estão cada vez mais permeáveis (ou cada vez menos impermeáveis) a uma afirmação positiva dessas lutas.

No campo da mídia, a cobertura predominante de matérias menos polarizados (união civil entre homossexuais, Lei Maria da Penha) ou mais polarizadas (descriminalização da maconha, criminalização da homofobia, cartilha contra a homofobia nas escolas) tem oscilado entre a neutralidade e o enquadramento positivo¹. No campo da política institucional, também não me parece mera coincidência o fato de matérias como a Lei Maria da Penha, a lei de criminalização da homofobia, a cartilha contra a homofobia nas escolas e a união civil entre homossexuais terem adquirido tanta importância na pauta nacional nos últimos anos. Vale ressaltar, porém, que o cenário está longe de ser favorável: na grande mídia, embora o enquadramento em geral não venha sendo desfavorável, os temas continuam a ser discutidos sob a marca da superficialidade, privilegiando ainda vozes já estabelecidas, uma vez que o aprofundamento das discussões e a pluralização das vozes podem desagradar uma vasta audiência conservadora. No campo da política institucional, a bancada evangélica no Congresso e outros setores conservadores vez ou outra demonstram que ainda possuem um “poder de veto” sobre muitas dessas questões.

Porém, há uma conquista inegável que vem se materializando ao longo dos últimos anos: a ampliação do debate. E é aí que eu chego à figura do deputado Jair Bolsonaro.

Os posicionamentos polêmicos do deputado em torno dessas questões têm gerado bastante repercussão e é comum que ele seja alcunhado como o grande inimigo das lutas ditas “progressistas” no Congresso. Porém, a verdade é que o Bolsonaro vem fazendo parte de uma dinâmica que, sob um determinado ponto de vista, tem sido bastante favorável a essas lutas.

Em primeiro lugar: sim, também acredito que o Bolsonaro é uma figura lamentável, defensor de ideias lamentáveis, a partir de um método igualmente lamentável. No entanto, também por ser um conjunto de muitas coisas lamentáveis, o deputado é hoje uma figura meramente marginal no Congresso, sem qualquer poder de influência nas decisões que lá são tomadas. Tanto que até mesmo a bancada evangélica sempre tem a preocupação de deixar claro que não possui qualquer tipo de aliança ou ligação ideológica com Bolsonaro.

Em segundo lugar: sim, o deputado mobiliza narrativas altamente preconceituosas presentes em alguns setores importantes da sociedade, o que pode servir para reforçar a difusão dessas narrativas e para polarizar o debate. No entanto, seu discurso radical e vazio serve também para ativar aqueles que se indignam em face dos seus posicionamentos, sendo uma arma importante também para a mobilização de um público avesso às idéias que o deputado defende.

Por esses motivos e depois de muito observar e avaliar a repercussão dos feitos de Bolsonaro, creio que a sua capacidade de ativar preconceitos e de difundi-los na sociedade e no Congresso tem sido bem menor do que o efeito de criar um público que identifica no seu discurso um conjunto de entendimentos que devem ser questionados e problematizados.

Quando o debate público concede voz a setores até então excluídos, é aberto o espaço para a reconstrução das narrativas e das interpretações tidas como “verdades”. Até pouco tempo atrás, esse espaço estava aberto quase que exclusivamente a “verdades” semelhantes às de Bolsonaro, o que tem mudado paulatinamente nos últimos anos, ainda que em passos lentos e em meio a alguns retrocessos.

Não quero aqui me desgastar rebatendo os argumentos de Bolsonaro; o alimento principal desses argumentos é a prepotência e o grito de ordem, e contra isso não há argumento que se aplique. Prefiro chamar atenção para a importância de ampliar o debate e o próprio acesso aos espaços de debate público – sejam eles institucionalizados ou não – a setores historicamente excluídos e que só recentemente começaram a ser ouvidos. O fim de todas as formas de preconceito e de desigualdade passa pela busca constante de inclusão de todas as identidades nos diferentes espaços de discussão pública. A partir dessa presença nos diversos espaços, os grupos historicamente marginalizados poderão falar por si mesmos, e terão garantidas de fato as condições de afirmar as suas posições e de se opor a alguns grupos que em nome de um ideal abstrato de republicanismo sempre atuaram apenas em prol de determinadas parcelas da população.

Dito isso, volto ao início do texto, quando falei da “Marcha das Vadias”. Assim como as baboseiras ditas pelo Bolsonaro, esse nome aparentemente infeliz dado à marcha teve o efeito de gerar grande repercussão, sem que para tanto o movimento tivesse que perder de vista o compromisso com as suas demandas originárias, o que permitiu atingir um público mais amplo que de outra forma não seria alcançado pela mobilização. Quem pôde de alguma forma acompanhar a organização da marcha, sabe que de modo algum a vulgarização ou objetificação da mulher são aventadas pelos manifestantes.

Por vias tão cheias de ressalvas e distintas entre si, a resultante da “Marcha das Vadias” e dos atos deputado Bolsonaro é a contribuição para a ampliação do debate em torno de demandas sociais legítimas que permaneceram quase que totalmente intocadas e silenciadas por muito tempo. Por esse motivo, viva a Marcha das Vadias! e viva o Bolsonaro.


1- Não possuo qualquer dado ou estudo sobre assunto. Essa afirmação é apenas fruto da minha limitada observação individual. Por isso, seria interessante que algum leitor com uma possível visão distinta desse sua contribuição nos comentários.  ;)

Um texto de Pedro de Mesquita Santos, Cientista Político, ex-petiano.

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5 comentários em “E viva o Bolsonaro!

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  1. Concordo plenamente com todos os comentarios feitos.

    Quanto mais gente fica lamentando os comentarios do Bolsonaro mais eu vejo como o tiro dele saiu pela culatra. Ao inves de incitar os que sao contra os homossexuais, ele os deixou um pouco envergonhados pela forma como ele expos seus argumentos (pela prepotencia e grito de ordem). Somando isso aos seus elogios a Ditadura Militar ele acabou pintando um cenario em que os homofobicos e os fascistas nao estao tao longe. Em contrapartida, ele fez pessoas que viam esse assunto como margial passarem a fazer declaraçoes que talvez elas nunca dissessem. Ele mexeu com aqueles que estavam quietos e agora eles nao so estao irriquietos como estao fazendo muito barulho! Ele levou o povo a refletir sobre o assunto e nesse ponto o bom senso veio a tona, pra infelicidade do Bolsonaro.

    Em relaçao a marcha das vadias, eu vi a oficina de cartazes no Ceubinho. Passando por la peguei um comentario de uma das garotas: “A proposta da marcha eh boa, mas por que esse nome? As pessoas vao acabar pensando em outra coisa”. E talvez seja esse justamento o ponto!! Aqueles que nao se informam sobre o assunto REALMENTE vao pensar em outra coisa. E quem nao se informaria sobre o assunto? A classe media amorfa, os evangelicos, os militares, a camada mais conservadora da sociedade que renega a marcha a priori, sem ao menos se aprofundar o minimo que seja no assunto. Contentam-se em ler o titulo dos jornais e discorrer sobre o tema como se fossem especialistas, quando nao passam de comentaristas alienados e pseudo-moralistas. E eh esse tipo de gente sem respaldo teorico ou argumentativo que dah o tiro de misericordia em seus proprios pares, fazendo=os cair em descreditos e, de uma forma ou de outra, acabem favorecendo a causa dos manifestantes, seja por manter o assunto em pauta ou por expor opinioes preconceituosas que nao se sustentam ao mais leve sopro argumentativo.

    Colocando na balanca, chego a mesma conclusao do autor do artigo: ha Bolsonaros que vem para o bem.

    P.S.: Ignorem a acentuacao.

  2. Poxa, Pedro, genial o seu texto!! Gostei muito e me apresso em comentar, talvez de forma precipitada e sem amadurecer muito minhas ideias sobre o que digo, só para poder ter o privilégio de ser o primeiro post sobre o seu artigo =)
    Achei de fato muito interessante a relação que você estabelece entre a visibilização das agendas de algumas minorias aí em disputa com as polêmicas geradas em torno das opiniões do nosso deputado Bolsonaro. O fato dele ser um marginalizado no campo político pode mesmo contar como um ponto a mais nas disputas contra a homofobia (é possível aí, quem sabe, o Bolsonaro virar uma espécie de Inri Cristo do Congresso Nacional…), e é interessante pensar por esse lado. No entanto, acho imensamente penoso ver o efeito perverso que a visibilidade da grande mídia acomodando visões preconceituosas e práticas violentas ao imaginário estético do senso comum.
    É muito palha que as “contra-imagens” de Bolsonaro sejam compensadas com a reprodução estética da violência e do preconceito a partir das campanhas publicitárias de cerveja, do humor-chismo de Rafinha Bastos e de tantas outras reproduções repressoras a tantas outras minorias, não só mulheres, não só comunidade LGBT.
    No entanto, pra não acabar minha opinião em torno de um desespero exagerado, acho que de fato, com ou sem uma ajudinha do sistema em se reproduzir através de figuras estúpidas como a de Bolsonaro, é crescente a capacidade de organização dessas “minorias” (grandes maiorias frequentemente, mas nem sempre, escondidas) em pautar suas necessidades e reivindicar uma imagem própria sobre si mesma – independente do quanto grite o conservadorismo dessa Grande Mídia. Acho que o sucesso da Marcha das Vadias aqui em Brasília me dá a leve impressão de que um dia vai chegar o momento em que o povo vai descobrir que essa “Mídia” não é tão “Grande” quanto o poder das pessoas que estão de saco cheio dela.

    Parabéns, Pedrinho!
    Abraços,
    João.

  3. Nunca tinha pensado por este ponto de vista…
    Escreveria um comentário mais elaborado se não estivesse tão sem tempo, mas, por hora, apenas parabenizo o autor pela percepção aguçada!

    Sucesso!

  4. Pessoal, muito obrigado. Fiquei muito feliz com os comentários, com certeza vou encher o saco do pessoal do PET para postar mais por aqui. ;D
    Jão, qualquer balanço que se faça sobre a inclusão dessas demandas realmente ainda é bem negativo. Vc citou alguns entre tantos exemplos de assimetrias que podemos enumerar em diferentes áreas. O interessante é notar que as mudanças se dão em meio a esse processo ambíguo mesmo, entre avanços e retrocessos, encontros e desencontros. Isso ocorre também porque a celeridade com que esse processo de mudança ocorre e a abertura à presença de atores historicamente excluídos podem ser (e normalmente são) limitadas por grupos e atores que há tempos detêm o controle sobre o que pode legitimamente ser levantado e advogado nos espaços estabelecidos. Embora eu tenha no texto reconhecido avanços importantes, creio que para o caso brasileiro eles poderiam ser muito mais vistosos se os filtros que se apresentam não fossem tão impositivos quanto são atualmente. O núcleo do nosso campo político ainda é impermeável a mudanças substantivas e a pessoas comprometidas com essas mudanças; a mídia a que o brasileiro pode ter acesso é produto de um quase-monopólio voltado sobretudo ao entretenimento e ao faturamento comercial; a nossa educação básica, quando ela existe e funciona, está comprometida quase que exclusivamente com um conceito de educação técnica e com o vestibular, e não com a formação crítica do indivíduo… e por aí vai. Enfim, as pequenas mudanças que apontei infelizmente ainda são muito tímidas, mas concordamos (eu acho =p) que é pertinente e importante observar que elas estão acontecendo. Ouso sim dizer que o Bolsonaro já virou uma espécie de Inri Cristo do Congresso, e o fato de os seus posicionamentos hoje não serem muito levados a sério também deve ser entendido como a manifestação de uma importante – embora insuficiente – conquista.

  5. Pedro: parabéns pelo texto. Maduro, agudo e elegante. Mas sua capacidade análise e síntese. Entendo que essa agenda é importante e tem encontrado um espaço inédito no Congresso e na mídia. Vejo isso tudo como um processo reacionário a um conjunto de políticas públicas de descriminalização que já está em curso. Então, vejo aí duas coisas. Primeiro, há um papel grande do governo do PT em dar vazão a esses temas e (ii) a discussão está contaminada pela disputa partidária (não seii se haveria como isso ser diferente).

    Apenas uma contribuição. Abraço!

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