O Poderes

Há que se admitir a quase obsessão que se adquire por aqueles que vêm fazer Ciência Política por aqui, desde o primeiro semestre em que descobrem, ainda que superficialmente, que os negócios de nossa arte é o poder. Para o “cientista político”, talvez seja muito importante tratar o poder como objeto de estudo do que seja a “política”. Para a nossa compreensão geral, como pessoas comuns que somos, talvez seja necessário ter a dimensão que o poder ocupa escondido sobre muitas coisas que nos passam despercebidas, seja para tornar o próprio poder invisível, seja para fazer, dia após dia, mais esquecido o significado e a prática política que exercemos a partir de nossas próprias vidas.

O poder, neste sentido, ultrapassa as fronteiras do próprio dinheiro ou das pessoas capazes de impor sua obediência pelo carisma ou pelo medo. A imposição do poder domina e acua, muitas vezes, sob forma que não se enxerga, que se mostra poderosa exatamente por sua capacidade de não ser vista como tal. E ela anda por aí, ignorada por ser invisível em sua impessoalidade… Vista no dia-a-dia, a cultura, os usos, as práticas, as idéias, a arte, a estética, as pessoas e seus corpos, tudo se reveste e oculta o poder – e as pessoas reproduzem suas inúmeras línguas nos espaços que convivem – nas feiras, no trabalho, no ambiente familiar, no lazer.

Não digo nenhuma novidade, não é essa minha expectativa. Muita gente boa por aí já falou e debateu os efeitos do poder no discurso, na mentalidade das pessoas, na maneira como fazem as coisas, na forma como enxergam a si próprias, os impactos que o poder assume sobre suas escolhas. Me valho de tudo que já disseram para poder escrever o que escrevo agora, mas algo em particular me preocupa sobre esse poder, qual seja sua capacidade de esconder de nós mesmos nossa própria dimensão política.

É sobre a política e sobre o conflito que foi construído o mundo em que vivemos hoje. Se o poder é o que permeia tudo, a mensagem aqui não é fugir dele, mas reconhecê-lo. No entanto, parte das artimanhas do poder é dividir-se em verdade, em natureza, em universalidade e em renegar o próprio potencial das mulheres e dos homens em agirem sobre suas próprias dimensões de conflito. Negar não só a capacidade das pessoas sobre o próprio futuro, como também esconder a construção humana presente sobre suas próprias estruturas de dominação social. Se o poder é essa grande mão invisível (ou mais que uma, é bem possível…), escapa também às nossas cabeças a percepção de que a própria humanidade a criou.

Enxergar ou reconhecer as inúmeras faces que o poder assume em nossas vidas não é se fatalizar, ao perceber-se cercado e atravessado por ele, mas perceber o quão político nós somos exatamente pelo que possuímos de pessoas, de gentes tão capazes de lutar e de disputar pelo que está escondido tão como hoje faz um político, um homem, um branco, um europeu, um cientista, ou um sujeito rico. É preciso tornar visível o poder para que surjamos dele como agentes eminentemente políticos. É necessário talvez, como já fez Marx com a mercadoria, um novo mergulho no (des)conhecido…

Um texto de João Vinícius Marques

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5 comentários em “O Poderes

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  1. Você apresenta bons pontos de reflexão, João.

    Pela linha do seu argumento, me parece que talvez o poder seja inescapável às relações humanas. Algo que Foucault tendia a dizer também.

    Uma pergunta que sempre faço quando penso sobre isso é se é possível política sem poder, e especificamente, diferenciando poder social de poder pessoal. Pelo seu texto, imagino que você poderia dizer que não, mas autores adeptos do igualitarismo defendem a abolição do poder social da política. E quanto ao poder pessoal? Ele pode ou deve ser abolido?

  2. Ah, e outra coisa importante está na linha 2 do segundo parágrafo: “pessoas capazes de impor sua obediência pelo carisma ou pelo medo”. Eu acho que faz sentido dizer que as pessoas são capazes de “impor sua autoridade” (e ainda assim isso é questionável, pois alguns autores, a Hannah Arendt inclusive, acreditam que autoridade não se impõe). Talvez você esteja falando de “impor obediência” (aos demais) e não de ” impor sua obediência”, correto?

    1. Fico feliz por terem gostado e agradeço os elogios =)

      Paola e Rodrigo, de fato, pensei muito no conjunto de reflexões do Foucault e não só sobre as dele no que toca às formas de poder que tratei. O poder no cotidiano é mesmo algo interessante de ser observado, talvez exatamente porque vê-lo é, muitas vezes, bastante difícil.

      Paola, minha questão relamente não é sobre a abolição do poder. Acho mesmo que ele não pode ser abolido. Se eu tiver entendido bem o que você quis dizer com poder pessoal, creio que o poder na forma como ele se manifesta dificilmente pode ser alterado. Ele está na dimensão do social, seja como elemento de dominação, seja como exercício do poder pela coletividade, no público, como também pode estar no plano das relações da esfera privada dos indivíduos.
      Meu ponto não é pensar ou idealizar lugares em que esse poder pode ser (ou não) extinguido, mas propor o reconhecimento, a denúncia constante dessas formas de poder que atuam por aí escondidas, com pessoas que se utilizam dele negando o conflito, se dizendo imparciais, ou falando que as “coisas sempre foram assim” (é natural). A negação de que essas formas de poder existem na sociedade, é talvez o maior impasse para que pessoas vitimizadas por essas formas possam ser vistas também como ativas politicamente, por serem capazes de responder e de disputar nos contextos em que estas formas invisíveis de poder predominam (acho que Foucault também dizia algo desse tipo, não é? ^^).

      Sobre a questão da imposição da obediência, você tem razão. Além da questão da obediência imposta há outro, há que se atentar também que a imposição da obediência pelo carisma já é, por si só, uma contradição… escorregada conceitual minha que não quis entrar no mérito da ideia de dominação carismática etc. Felizmente, creio que esse problema no meu texto não prejudicou tanto o que eu principalmente gostaria de dizer.

      E, mais uma vez, obrigado pelos comentários.

      Abraços,
      João

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