Tupy or not tupy, this is the question

     Era uma quarta-feira, dia 16 de março, quando ele chegou no aeroporto de Brasília, altamente protegido por um engradado de madeira, vindo do Museu de Arte Latino-americana de Buenos Aires (Malba). O quadro “Abaporu”, considerado a obra prima de Tarsila do Amaral, foi escoltado até o Palácio do Planalto com nível de segurança tão alto quanto seu valor artístico, para fazer parte da exposição “Mulheres, artistas e brasileiras” que está sendo realizada desde 23 de março e termina na próxima quinta, dia 5 de maio. Essa mostra foi especialmente organizada em homenagem ao mês da mulher e à visita do presidente norte-americano Barack Obama a Brasília.¹

      Seguramente, Tarsila do Amaral não imaginava a repercussão que sua tela, oferecida a Oswald de Andrade como presente de aniversário, significaria tamanha inovação cultural e prestígio político. Foi esse quadro que inspirou o então marido de Tarsila a criar o movimento artístico baseado na antropofagia, uma formulação teórica original da arte moderna brasileira que tinha como idéia básica a deglutição do que vem do exterior para a elaboração de algo genuinamente nacional. O próprio nome da tela foi dado em homenagem ao movimento, já que “Abaporu” significa, em tupi-guarani, “homem que come gente”, ou seja, antropófago.

      O Movimento Antropofágico, inaugurado oficialmente na Semana de Arte Moderna de 1922, chama a atenção para a contradição entre as duas culturas bases da cultura brasileira: a dos africanos e dos ameríndios, e a cultura a latina com heranças européias, sendo tal contradição ligada à idéia de agressividade da primeira. Para a antropofagia, por outro lado, a cultura indígeno-africana assimila de forma crítica o moderno. Isso não significa uma simples oposição à ordem moderna industrial, mas sim a apreensão de seus elementos positivos e eliminação dos negativos para que se crie uma cultura própria brasileira, por meio do que Andrade chama de “Revolução Caraíba”². A absorção dos pressupostos europeus como convém ao brasileiro dá uma idéia de superioridade de sua cultura, o que faz da antropofagia um movimento considerado bastante nacionalista.

      O desenvolvimento da antropofagia cultural e sua relativa internacionalização ocorreram por meio de outros âmbitos artísticos, tal como o teatro, a música (com o tropicalismo), a poesia (com o concretismo) e o cinema. Pode-se dizer, em resumo, que as idéias antropofágicas estimulam, no brasileiro, uma visão de cultura autônoma e criativa e o fazem valorizar suas origens e tradições em detrimento da imposição cultural externa.

      No contexto de crescente autonomia econômica e política que Brasil se encontra, a presença do quadro marco do Movimento Antropofágico na mostra destinada ao presidente dos Estados Unidos pode gerar certa reflexão. Terá sido o objetivo de tal movimento artístico alcançado? Espera-se que o brasileiro saiba escolher o que lhe é vantajoso e que lhe pode ser útil de forma independente e segura, assim como escreveu Andrade: “Tupy or not tupy, this is the question”.²

      Ao fim do encontro dos presidentes e da admiração causada pela exposição, Barack Obama, sua esposa Michelle e a presidente Dilma Rousseff tiraram uma foto ao lado do quadro “Abaporu”. Esse momento pode nos remeter a um dos pressupostos do Movimento Antropofágico defendidos por seu precursor, aquele em que ele anuncia: “Só a antropofagia nos une. Expressão mascarada de todos os individualismos, de todos os coletivismos. De todos os tratados de paz”².

             Um texto de Ariadne Santiago, aniversariante hoje, dia 02/05.

[1] http://blog.planalto.gov.br/exposicao-mulheres-artistas-e-brasileiras-vai-ser-aberta-no-palacio-do-planalto

[2] ANDRADE, Oswald de. Manifesto Antropófago. Em Piratininga Ano 374 da Deglutição do Bispo Sardinha. Revista de Antropofagia, Ano 1, No. 1, maio de 1928.

Fontes:

http://www.itaucultural.org.br/aplicexternas/enciclopedia_ic/index.cfm?fuseaction=marcos_texto&cd_verbete=339

http://www.itaucultural.org.br/aplicexternas/enciclopedia_ic/index.cfm?fuseaction=termos_texto&cd_verbete=74

NUNES, Benedito. A Utopia Antropofágica: A Antropofagia ao alcance de todos. São Paulo: Globo, 1990

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3 comentários em “Tupy or not tupy, this is the question

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  1. Interessante a reflexão no final sobre o movimento, primordialmente a primeira geração dele, ter alcançado ou não o objetivo a que se propunha. Pensar esse fato sob uma perspectiva político-literária daria o que falar, não?

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