25 de Abril, sempre!

Uma homenagem à Revolução dos Cravos


 “Grândola, Vila Morena”, música de Zeca Afonso que serviu de sinal para as tropas revolucionárias em 25 de Abril de 1974.

Portugal, 25 de Abril de 1974. Militares do Movimento das Forças Armadas (MFA) conduziram o golpe de Estado contra o governo ditatorial de Marcelo Caetano, herdeiro político de Antônio Salazar, que governou o país de 1932 a 1968. O movimento contou com amplo apoio popular e foi seguido de numerosas agitações, conflitos e reformas, que teriam como desfecho a Constituição de 1976. O nome “Revolução dos Cravos” é em alusão ao episódio em que uma vendedora de flores resolveu oferecer cravos vermelhos aos soldados que ocupavam a Praça do Rossio em Lisboa; os soldados os colocaram nos canos das armas e o símbolo popularizou-se, batizando a revolução.

A causa freqüentemente atribuída como principal motor da Revolução dos Cravos é a oposição, por parte de setores militares, à guerra empreendida pela política colonial salazarista contra os movimentos de libertação nas colônias portuguesas, que colocavam em maus lençóis os jovens combatentes. Por consumir demasiados recursos do Estado, tal política foi alvo de insatisfação também por parte de outros setores da população portuguesa, visto que diminuíam os investimentos públicos na metrópole. É preciso lembrar que o início dos anos 70 foi palco de uma crise econômica global, que afetou seriamente o PIB português a partir de 1973 (VARELA, 2009, p. 269), afetando ainda mais o orçamento público do país e impulsionando conflitos trabalhistas e sociais.  Somado à insatisfação popular com os mais de 40 anos de restrição feroz às liberdades democráticas, é possível compreender como esse contexto mobilizou tamanho contingente de pessoas e destituiu tão rapidamente um regime.

http://www.youtube.com/watch?v=hdvheuHhF2U&playnext=1&list=PL603BDB9314E29170

“sei que estás em festa, pá”

Entre os anos de 1975 e 1976, a revolução gerou numerosas conseqüências em termos de transformações sociais e conflitos políticos. Transformou-se em revolução social ao permitir, entre outras medidas, o fim da guerra colonial, a independência das colônias, direitos trabalhistas, reforma agrária e a nacionalização de importantes empresas, incluindo bancos (Idem, p. 270). O caráter destes acontecimentos levou alguns autores a considerarem a Revolução dos Cravos o “movimento social mais radicalizado da Europa do pós-guerra” (ARCARY, 2004 apud. VARELA, 2009). No âmbito da disputa pelo poder do Estado, uma sucessão de governos provisórios marcou o período, acompanhados por golpes e contragolpes (SECCO, 2004) até a estabilização em abril de 1976. O movimento radical, de discurso socialista, foi paulatinamente caminhando para um regime social-democrata, mais preocupado em integrar Portugal à comunidade européia (SECCO, 2004), em um modelo de Estado democrático similar aos da Europa Ocidental.

“já murcharam tua festa, pá”

A partir de então e a despeito do fim da revolução, os acontecimentos e sentimentos de 25 de abril ficaram marcados, não só no imaginário português mas também internacionalmente, como símbolos de luta pacífica e popular por direitos civis, políticos e sociais, da negação do colonialismo, da busca contínua por liberdade. Abril de 1974 é exemplo para todos os povos que desejam caminhar neste sentido.

Para Portugal, que vive atualmente um período de profunda crise econômica, política e social, relembrar os valores de Abril 37 anos depois pode contribuir para renovar a crença do povo português na capacidade de mudar o seu próprio destino. No âmbito da ação política, direitos que foram possibilitados pela revolução estão seriamente ameaçados, em virtude dos cortes postos em prática pelo governo como resposta às exigências do FMI e da União Européia, que deverão executar em Portugal operação de “salvação” semelhante à ocorrida na Irlanda e na Grécia. A luta contra estas medidas já está em curso[1]; o entendimento é de que, tal como afirmam os milhares de manifestantes, “com precariedade não há liberdade”[2]. Felizmente, é possível que tenham “esquecido uma semente em algum canto de jardim”.


[1] Manifesto do protesto “Geração à Rasca”: http://geracaoenrascada.wordpress.com/manifesto/portugues/

[2] http://www.publico.pt/Sociedade/protesto-geracao-a-rasca-juntou-entre-160-e-280-mil-pessoas-so-em-lisboa-e-porto_1484504.

Um (belíssimo) texto de Pedro Vasconcelos

Referências bibliográficas:

SECCO, Lincoln. Revolução dos Cravos: Primavera em Lisboa. Portal “Aventuras na História”, 2004. Disponível em: http://historia.abril.com.br/politica/revolucao-cravos-primavera-lisboa-433605.shtml

VARELA, R. A revolução portuguesa de 1974-1975 e o seu impacto na transição espanhola para a democracia vista através da imprensa clandestina espanhola. Espacio, Tiempo y Forma, Serie V, Historia Contemporánea, t. 21, 2009.

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Um comentário em “25 de Abril, sempre!

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  1. Lindo artigo!! Parabéns!! Que bela homenagem, sério!

    Lembrei-me de um documentário interessantíssimo que vi há algum tempo e que não sei se é algo muito conhecido, mas que retrata o contexto da Ditadura de Salazar na perspectiva das Cartas de mulheres em favor do ditador. Os relatos são muito interessantes. De Inês de Medeiros, “Cartas a uma Ditadura”, não achei qualquer link para download, quem encontrar, por favor, compartilhe! =)

    Aqui vai uma sinopse que encontrei do documentário:
    http://osfilmescinema.blogspot.com/2008/05/cartas-uma-ditadura.html

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