Tradição x Racionalização na configuração musical atual

No meio musical, no que diz respeito a eventos, é possível notar duas correntes principais em termos de formato e conceito: O mainstream e o circuito independente. Termos não recentes e tampouco neutros.

            Podemos definir o formato do circuito musical mainstream como englobando um público alvo extenso, pouco seletivo, normalmente consumidor passivo de uma indústria cultural. Quanto aos aspectos técnicos, os eventos mainstream envolvem grande complexidade de organização (estrutura,etc), recursos estilísticos e comerciais, grandes quantias em dinheiro (podendo ser captado de empresas públicas/privadas ou do próprio Estado), grandiosidade e impressionismo. Podem ser citados como exemplos de eventos mainstream o festival Planeta Atlântida, do sul do país, o finado Go! Music Festival de Goiás.

            Quanto ao conceito de um evento mainstream, pode-se dizer que o objetivo principal é menos a propagação cultural e mais o entretenimento, sendo muitas vezes produzidos a pedido do governo, o lucro é pouco condenável e grandes contingentes de pessoas são desejáveis.                            Para caracterizar o circuito independente basta tomarmos todos os contrários da descrição do mainstream com algumas características extras. Como por exemplo, no que diz respeito ao conceito, o ideal de uma cultura restrita a uma elite consumidora, valores como sensibilidade artística, faça você mesmo (DIY), desconstrução técnica e contra-cultura.

            Já foi dito que estes termos não são neutros, isso porque a palavra independente e mainstream trazem consigo uma idéia de oposição e conflito. Na concepção utilizada por Craig O’hara¹, o circuito independente vive tentando resistir ao mainstream, conservando seus artistas, seus ideais e seu formato (mais culturalista que capitalista). O mainstream, por sua vez, não necessariamente quer a eliminação do circuito independente, no entanto, como um monstro aos moldes do Moloch, de Ginsberg² , o circuito simplesmente deseja englobar tudo o que puder, sendo assim, ainda que não seja sua intenção acabar com o circuito independente ele acaba por ameaçá-lo ainda que inconscientemente.

            Dentro dessas duas correntes existem dois tipos de atores, que chamarei aqui de puristas (dentro do circuito independente) e de empreendedores culturais (no mainstream). Os puristas, são aqueles que se declaram contentes com a divisão existente entre os dois circuitos, defendendo a idéia de esferas separadas de atuação, formando dois extremos e atendendo dois tipos de públicos distintos. Argumentam, portanto, ser não só importante como necessário que o circuito independente não vise o lucro cego, tenha bandas com propostas musicais diversificadas, influenciadas por um desenvolvimento musical construído no exterior, público seleto e elitizado, pequena divulgação, eventos não comerciais, eventos tendo como força motriz, única e exclusivamente, o ideal de produção cultural e técnica.

            Os empreendedores culturais, ao contrário, não são necessariamente o outro extremo (que comportaria atores que desejam que o mainstream seja preferível ao independente) antes, são agentes que buscam interligar os dois circuitos de diferentes maneiras. São empresários, produtores, músicos, publicitários, jornalistas, etc, que visam promover o intercâmbio de elementos do independente para o mainstream e vice e versa. Assim, a atuação desses empreendedores fez com que, nos últimos dez anos, os circuitos se aproximassem e incorporassem elementos um do outro. Dessa forma, Festivais até pouco tempo atrás caracterizado como puramente independentes, feitos por coletivos de bandas e produtoras agora são capazes de captar recursos de ordem milionária (vide a lei Rouanet ou o fundo Petrobrás), são patrocinados por grandes marcas (vide Budweiser patrocinadora oficial do festival Vans Warped Tour), contemplam estruturas gigantescas etc.

            Para ficar mais clara a visualização dessa configuração musical pensemos em conjuntos. Temos uma configuração composta por dois conjuntos (independente e mainstream) Dentro desses dois conjuntos estão dois subconjuntos: O independente que possui um mainstream interno e o mainstream que busca elementos do independente.

            Para exemplificar o subconjunto do mainstream interno, peguemos o exemplo do Brasil. Existe no conjunto independente brasileiro um eixo cultural, que comporta as cidades do Rio de Janeiro, São Paulo e Curitiba (que seria o subconjunto do mainstream interno); E um circuito Fora-do-eixo, que engloba o resto do país. Tem-se que no Eixo o nível de eventos é homericamente maior em quesito de freqüência e tamanho. Tendo como freqüentes, por exemplo, grandes nomes do circuito independente internacional, que, por sua vez não se enquadram no conceito do conjunto mainstream puro por não atenderem à seu público massificado. São eventos do mainstream interno ao conjunto independente, por exemplo, o show da banda Social Distortion em são Paulo, em (2010), ou as várias edições do Festival Planeta Terra.

            Percebemos então que o Fora-do-eixo representaria o restante do conjunto independente, sendo mais puro, por assim dizer. No entanto, nos últimos 10 anos o circuito fora-do-eixo também tem se elaborado e desenvolvido na tentativa de fazer frente ao eixo independente nacional desenvolvendo cooperativas, associações, festivais e uma espécie de atuação unificada que possibilitou a criação de um novo cenário, inédito no país, apesar de conhecido no exterior, de um circuito independente comercial como um todo. Como exemplos de cooperativas, temos a própria Fora-do-Eixo desenvolvida pelo coletivo espaço Cubo de Cuiabá. Como exemplo de associações, temos a ABRAFIN, associação brasileira de Festivais que engloba, por exemplo, o Festival do Sol no nordeste, o Festival Calango em Cuiabá, Varadouro no Acre, Goiânia Noise em Goiás, Porão do Rock em Brasília, entre outros.

            Essa emancipação dos dois eixos tem origem no aprendizado direto dos grandes circuitos mainstreams. Esse aprendizado é direto de festivais como VANS WARPED TOUR e South by South West Festival nos EUA.

            Dessa forma podemos testemunhar apresentações únicas de grupos revelações atuais como Dirty Projectors (EUA) em cidades interioranas como Goiânia (Goiânia Noise 2009). Isso faz com que se configure não mais um cenário independente purista e sim dois mainstreams, um maior e de massa e um menor e seleto.

            É importante lembrar que o conjunto Mainstream principal também prendeu muito com o cenário independente nos últimos dez anos e  temos cada vez mais um mainstream principal que bebe um pouco no Rock’n’roll. De uma trajetória histórica construída por bandas como Titãs, Aborto elétrico, Ultraje a rigor, etc. Temos hoje, expoentes como Pitty, Cachorro Grande, Detonautas, CPM 22, Fresno, Nxzero, Cine, Hori, Mallu Magalhaes, Los Hermanos (e todos clientes do Rick Bonadio). Assim, há uma configuração influenciada pelo “independente” no circuito Mainstream principal.

Existe, portanto, um cenário único e singular no país, a quebra total da divisão clássica e a configuração de um novo cenário no qual ambos os extremos se relacionam e absorvem características boas e ruins de si mesmos.

            No entanto, dada a atuação constante e cada vez maior desses empreendedores culturais, configurou-se, no que diz respeito à eventos, uma batalha ideológica e financeira entre puristas e os atores de síntese.

            Puristas como Thiago Ney , jornalista da Folha de São Paulo, Wander Segundo, dono do selo two Beers or not two Beers, Thurston Moore da banda Sonic Youth, entre outros combatem veemente o progresso do meio independente e o aprendizado mútuo dos dois circuitos. Para eles aconteceu a venda, comercialização e prostituição do circuito independente, onde não há mais espaço para o diferencial que era tão benéfico para esse segmento que é justamente o fato de ser seleto e para poucos. Vemos que o esforço do argumento deste texto, é tentar contrapor a lógica da tradição (puristas) à lógica da racionalização (empreendedores culturais).  Para Thurston Moore da banda Sonic Youth, durante uma entrevista no festival “All Tomorrows Parties”: “People see rock and roll as youth culture and when youth culture becomes monopolised by big business, what are the youth to do?
Do you have any idea? I think we should destroy the bogus capitalist process that is destroying youth culture
.”

Consideram a perda de uma cultura elitizada como muito superior ao ganho de comercialização e monopólios. Mas observando de um ponto de vista exógeno podemos ou não considerar essa mudança uma coisa boa? Tradição ou Racionalização?

Acredito, que o circuito independente se aproxima de uma configuração mais do que ideal. Isso se deve a dois fatores principais: O primeiro é no sentido de que por mais ameaçador que seja este aprendizado do subconjunto independente com o mainstream, acredito ser improvável a eliminação do circuito independente como um todo. Isso porque a cultura independente defendida pelos puristas se configurou em outros países, que por mais que também tenham um cenário de quebra de extremos, e a tem viva e sadia perante um mainstream muito mais opressor. Iniciativas como a “Fat-Wreck Records” ou a “Pisces Records” e bandas como “25 ta life” e “lightning Bolt” mantém viva a esfera independente pura.

A outra razão seria que os puristas não só defendem a manutenção das esferas separadas, como também a eliminação da esfera rival. Mas para que isso seja possível, é preciso antes que o sistema de mainstream independente se frustre por si próprio e se destrua a si mesmo que o circuito independente seja preferível àquele pelas pessoas.

Assumo a defesa da racionalização da lógica musical brasileira mas entendo que isso não é uma verdade absoluta, dando valor à tradição. Prefiro apenas pensar na canção em que diz Dylan, “there’s something happening here...” e o que sugiro fazer é que estejamos atentos à essas mudanças para que, na hora certa, possamos fazer parte da geração que indicará os futuros rumos de ambas as esferas da industria cultural musical atual.

¹ – O’hara Craig – A filosofia do Punk – editora Radical Livros

² – Ginsberg, Allen – Howl, Kadish and other poems, poem Howl, p. 1 – 11  – Editora Penguin.

Luiz Fernando Roriz.

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