Juventude & Participação Política: o que é ser estudante hoje em dia?

“1968, o ano que não terminou”, de Zuenir Ventura, é apenas mais um daqueles incontáveis livros que contam as aventuras e desventuras da “geração 68”, aquela geração que é sempre exaltada pelos mais saudosistas como a juventude da militância, da participação política, do engajamento, e do ativismo. É a juventude da luta pela liberdade, da forte produção cultural, da resistência contra a repressão do regime.

Entretanto, alguns nostálgicos estendem essa saudade da década de 60 a uma crítica maior à sociedade atual: uns afirmam que “os jovens hoje em dia são muito passivos” ou que eles não seguem mais líderes como Martin Luther King e ficam apenas “escutando bandas como Restart”.

Todavia, inúmeras questões precedem a essas indagações. Primeiramente, a dificuldade de se estabelecer uma delimitação acerca dos vocábulos “estudante” e “jovem”. Segundo, devido à mudança de contexto político. E por fim, a falsa percepção de que “não estamos fazendo nada”.

A tendência, demonstrada inclusive pelas revoltas de 60, é que os estudantes se mobilizam através inicialmente de uma pauta estudantil para depois expandir seus questionamentos a outros problemas da sociedade, sejam eles valores culturais ou problemas sócio-econômicos. Assim, a identidade, isso é, aquele sentimento de pertencimento, do movimento de 1968 desenvolve-se em um contexto de extrema repressão do governo. Essa estrutura de conflito reflete-se em ações que, com o aumento da repressão, progressivamente vão se tornando mais violentas, e também mais visíveis.

Se de início eram passeatas, depois viraram guerrilhas urbanas. E talvez uma manifestação imensa ou um seqüestro de um embaixador sejam mais visíveis do que uma ocupação à reitoria. Nota-se, aqui, que a repressão do governo serviu para unir na identidade de “estudante” uma gama de interesses distintos, que se agrupavam em torno do caráter contestatório, de oposição ao governo. Essa aglomeração de interesses tornou-se cada vez mais difícil.

E difícil por quê? Vivendo-se em uma democracia formal, fica mais difícil apropriar em apenas um nome (“estudante”) a pluralidade de interesses, posições políticas, que a universidade contém. Pois, afinal, o que é ser estudante? Não é mais ser necessariamente “contra o governo”, como se pode imaginar[1].

E qual o perigo disso tudo? Uma “ditadura da maioria”, ou um “afastamento” por parte daqueles que se consideram suprimidos por uma ideologia dominante. A própria palavra “Movimento Estudantil” abrange inúmeros grupos de posições ideológicas distintas. Talvez, se esses grupos dialogassem mais ou se articulassem entre si de uma forma mais eficiente, aquele estudante, que é chamado de “passivo”, se sentiria mais confortável para participar ou ao menos para discutir, ação tão importante tanto para reflexão de idéias quanto para pô-las em práticas. Pois “ser estudante” significa uma amplitude de atitudes, comportamentos, símbolos diferentes. E conciliar toda essa pluralidade não significa necessariamente homogeneizar.

A ditadura pode ter terminado, mas diversos problemas ainda continuam. Desigualdade econômica, sucateamento do serviço público, corrupção. Para construir uma nova sociedade são necessárias várias mãos.

Edson Luís faleceu no dia 28 de Março de 1968, assassinado em uma invasão militar ao restaurante universitário Calabouço. Durante esses anos que passaram, vários aspectos mudaram: o regime militar caiu, a UNE foi reconstruída, os civis voltaram ao poder, as eleições passaram a ser diretas. Entretanto, o ideal de viver em uma sociedade mais justa ainda continua vivo na memória daqueles que presenciaram e no coração daqueles que, ainda hoje, lutam pelo ideal de liberdade.

Por: Nayara Macedo, em homenagem ao aniversário da morte do estudante.

Que as pessoas não se esqueçam e não desistam de acreditar que um outro mundo é possível.

Referências:

GROPPO, Luís Antonio (2008). 1968: Retratos da Revolta Estudantil no Brasil e no Mundo. Biscalchin: Piracicaba.

MISCHE, Ann (1997). De Estudantes a Cidadãos: redes de jovens e participação política. Revista Brasileira de Educação. No 5/6. Maio-Dezembro. Pp. 134-150.

Foto por: Nayara Macedo (ocupação da reitoria da Universidade de Brasília em 2008)


[1] A própria UNE apoio a eleição do governo do PT, após realização de plebiscito.

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5 comentários em “Juventude & Participação Política: o que é ser estudante hoje em dia?

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  1. Eu acho que ser estudante nos dias de hoje é de extrema responsabilidade. É muito interessante a grande admiração que temos pela geração de 68, e reconhecemos bastante o impulso que ela promoveu a sociedade como um todo. Porém, acho que não devemos nos comparar – e da mesma forma não levarmos a critica dos “mais velhos” pela nossa geração ser passiva e pouco interessada no ativismo político. Lidamos sim com uma demanda de interesses – e oportunidades – muito maior que foi apresentada à aclamada geração de 68. É fruto da globalização, da diminuição das distâncias físicas e da intensa tecnologia que nos rodeiam no dia-a-dia

  2. A imagem era essa aqui: http://img808.imageshack.us/i/ocupacao.jpg/
    Da ocupação da reitoria em 2008 (caso Timothy).

    E eu concordo com você, Guilherme. Só acho que não dá para deixar essa valorização da “geração 68” ofuscar os dias de hoje ou influenciar de formas desmedidas. Alguns ideais permanecem e se aplicam ao contexto atual, outros vão se renovando… Em todo o caso, a história do movimento estudantil é muito interessante.

  3. Teoricamente, eu até concordo que existe um saudosismo em relação à geração de 68. Mas é uma crítica que parte muito de uma geração que vivei à década de 60, de uma luta concentrada contra um estado ditatorial, olhando para uma juventude que se engaja em lutas dipersas, que se movimenta em redes. É uma crítica meio injusta na minha opinião, e a Ann Mische também fala disso no trabalho sobre os caras-pintadas. Mas na dinâmica do movimento estudantil atual, já é bem diferente. O 68 é uma das várias referências que ajudam na construção de um repertório de ações. Mas não é a única.
    Quanto à tentativa de diálogo, acho que tem grupos no movimento estudantil dispostos a dialogar sim. Na ocupação da reitoria isso ficou bem claro. O problema é que há uma certa resistência à participação política que já é bem enraizada mesmo. E para mudar o movimento estudantil precisa de pessoas novas, precisa que mais pessoas se engajem e que critiquem a forma como ele se organiza, proponham mudanças e movimentem para que ele se torne mais inclusivo.

  4. A Ann Mische utiliza a expressão “visão romântica de 68”. A abordagem de redes, da qual ela se utiliza para escrever o artigo, realmente é muito interessante. Li um artigo que se baseava em pesquisa realizada no CONUNE, em entrevistas com os estudantes, muito legal também. Ele citava inclusive a atuação dos grupos extensionistas como novas redes sociais de engajamento. Não acho que todos os grupos sejam fechados ao diálogo, mas tampouco acredito que todos os sejam, o que deve dificultar o processo, uma vez que muitas dessas pessoas que podem trazer críticas construtivas não se sentem confortáveis de fazê-las. O que eu vi na ocupação foi uma posição dominante, e uma enxurrada de vaias a qualquer opinião contrária nas assembléias. Mas é claro que nesse caso não dá para fazer generalizações…

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