Baile de máscaras

“A perspectiva empregada neste relato é a da representação teatral. O palco apresenta coisas que são simulações. Presume-se que a vida apresenta coisas reais e, ás vezes, bem ensaiadas. Mais importante, talvez, é o fato de que no palco um ator se apresenta sob a máscara de um personagem para personagens projetados por outros atores.”

Ela não conseguia mais olhar para as pessoas sem lembrar que não podia enxergar o que elas realmente eram. O salão estava enfeitado como uma hipocrisia feita de mistérios. Rodopios nessa doce valsa que é a vida. Por trás das máscaras sociais, o que se esconde? Uma lágrima? Um suspiro? Uma quimera? Entre tantas as fantasias, a pior era a dela. Estava vestida de si mesma, usando a personagem como uma desculpa para ser o que sempre fora. Não conseguia mais suportar aquele baile de máscaras que en frequentava todos os dias: os sorrisos falsos nos corredores, os abraços gelados, os acenos de um hipócrita sinal de respeito. Era carnaval, todos diziam. Mas era opressor mesmo assim. A obrigação de sorrir, de acenar, de pular, e jogar confetes. E o salão girava, enquanto o vinho tinto escorria pelas mãos. As mesmas mãos que dormiam enquanto os empregados trabalhavam lá fora. Na lavoura, na cozinha. Na preparação da grande festa. Era carnaval, mas eles estavam trabalhando. Ela não conseguia superar as palavras de escárnio fantasiadas de formalidade. O julgamento, o martelo, a sentença. Onde todos são juízes, não há verdadeiro culpado. E tampouco verdade ou mentira. Apenas existem vários pontos de vistas sobre um mesmo fato. Vários ângulo de que se pode assistir ao espetáculo. Vestidos de gala, paletós dourados, medidores de caráter e personalidade. Jóias caras, luvas prateadas, elas dizem “olhem aquele vestido”. E tudo não passa de ornamentos que tentam disfarçar tudo o que eles não querem perceber. Eles sabem, mas preferem esconder. Existe um mundo inteiro do lado de fora dos grandes salões, das carruagens fabulosas, dos vestidos e das jóias. Porém, eles preferem esquecer. Existe um mundo de miséria lá fora em que pessoas passam fome e trabalham o dia inteiro. Mas eles? Eles preferem esquecer. Porque afinal era carnaval, um período de festas, de alegria, de bebidas e charutos, de conversas e chás da tarde. De festas que duravam até ao amanhecer. De encontrar amigos e jogar confetes. Era hora de ser feliz e esquecer os problemas. De colocar a máscara e fingir que os problemas não existiam. E a doce ilusão de ser quem quisesse ser.

 

Mas todo carnaval tem seu fim.

 

Um dia as máscaras caem e tudo o que sobra depois dos vestidos, paletós e jóias, são apenas pessoas. Exatamente como aquelas que ficaram do lado de fora.

Escrito por Nayara Macedo

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3 comentários em “Baile de máscaras

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  1. Muito bom, tanto na forma quanto conteúdo.Poderia citar algumas obras que inspiraram a isso?

  2. Obrigada pelos elogios, Pedro. Quanto às obras, não consigo pensar em nenhuma em particular, a maior inspiração foi a própria vida. O trecho do início me foi passado pelo Fernando. Mas se eu fosse citar algo como referência para o texto em geral, seria a música “Todo Carnaval Tem Seu Fim” dos Los Hermanos. A frase “mas todo carnaval tem seu fim” ao final do texto é uma referência explícita à música, uma das minhas favoritas!

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