Born this way! Por que não falar do pop?

 Achei bem impressionante o número de músicas que surgiram nos últimos meses no meio pop com aquela velha mensagem do capitalismo liberal que assegura o empoderamento pessoal e a força do indivíduo em oposição à estrutura como um todo: “We R Who We R” da Ke$ha, Raise Your Glass” e “Fuckin’ Perfect” da P!nk  e “Firework” da Katy Perry.

Não se trata, no entanto, de julgar puramente que as cantoras seriam meros instrumentos da ideologia hegemônica. (Aliás, fãs mais radicais da Lady Gaga, diriam que foi tudo uma simples reação à música da Mother Monster, cujo título foi anunciado meses atrás, mas como não sou uma fã radical, não me enquadro nesse grupo) Na verdade, a mensagem que todas as músicas querem passar não é nova no pop, e, embora seja, sim, parte de um discurso liberal o qual considero um instrumento de dominação e coerção dos indivíduos dentro de um sistema que não lhes acolhe, mas, ao contrário, cerceia as possibilidades de se ser si mesmo para se encaixar naquilo que é considerado  correto, a mensagem se mostra um tanto diferente neste caso, e, principalmente no caso da música Born this Way, da Lady Gaga.

Me debruço, portanto, sobre tal clipe, lançado dia 27 de fevereiro, para refletir um pouco sobre as origens e efeitos que a cantora tem causado dentro do Pop, e, com mais intensidade, junto à comunidade LGBT (para que o texto faça sentido, vejam o clipe no link acima, ou aqui: http://www.youtube.com/watch?v=wV1FrqwZyKw).

Primeiramente, é fantástico perceber que o início do clipe é um manifesto, uma pequena história do que seria o mundo de acordo com Gaga. Apesar de não ser novidade, porque Telephone contava também com uma longa história, o momento é marcado pelo surgimento de uma raça humana dentro da raça humana, referência à comunidade LGBT. Junto com seu nascimento, que seria o nascimento de uma coisa perfeita (elogios exacerbados aos LGBTs são de praxe já da artista), há o nascimento da maldade. Tomo a liberdade de interpretar tal pequena história como o fato da existência da homossexualidade como identidade e não como prática sexual somente ter surgido em nossa sociedade acompanhado pelo extremismo religioso (Olá, Foucault!), e futuramente, pela homofobia declarada seguida pela homofobia mascarada.

Aliás, o clipe e música de Gaga, envolvem todos esses elementos, a música fala do amor a ele, ou a um Ele com letra maiúscula, como fator independente para que cada um ame a si mesmo – o que, para mim, nada mais é do que a separação de uma crença religiosa e a orientação sexual. O triângulo cor de rosa de cabeça para baixo utilizado pelos nazistas para identificar os homossexuais é um símbolo central no clipe, e aparece no final de cabeça para cima, como um sinal de mudança.

A criação dos seres idênticos que a história de Gaga conta, assim como a maquiagem e roupa da artista, são elementos em referência à igualdade, campanha carro forte da música que Lady Gaga faz. Nesse sentido, eu não concordo com o fato de que temos que ser iguais materialmente/corporificamente para sermos iguais de fato, mas essa é a imagem que Gaga usa, e como também não sei como seria possível fazê-lo de forma diferente, só posso aplaudir.

Há, claro, a inevitável comparação com a música Express Yourself, da Madonna (no dia do lançamento a música de Gaga, e a de 89 de Madonna estavam nos TrendTopics do Twitter, juntas!). Sim, as batidas são extremamente similares, e sim, isso é parte do sentido derivativo que o Pop da Lady Gaga vem reafirmando ao longo dos últimos 2 anos em suas músicas e clipes – quem quer entender de fato sua obra, acaba tendo que assistir com o dedo no pause/play para captar todas as referências. No entanto, embora minha mãe sinta imensa vontade de trocar a letra da Lady Gaga e cantar “Baby, ready or not / Express what you got!” no lugar de “I’m on the right track baby, I was born this way!”, a referência de Gaga mostra-se, como sempre, atual, já que Express Yourself é, também, uma música fantástica. Falha, no entanto, em apresentar alternativas musicais e inovar indo mais além do que Madonna teria feito em 1989. A referência é tão intencional e explícita, que o clipe termina com um sorriso de Gaga a la Madonna, isto é, com um espaçamento entre os dentes.  O pop é, sim, cíclico, “expressar o verdadeiro eu” pode ser, no passado, a mesma mensagem do “eu nasci assim” de Gaga, por que não?

Ainda sobre o título da música, Gaga traz para a música e para o mundo pop, a grande discussão teórica entre Estruturalistas e Funcionalistas que discute, em linhas gerais, se a homossexualidade é inerente aos homossexuais ou se é causada por traumas psicologicos ou pela própria socialização. Lady Gaga, afirmando que os LGBT nascem LGBT se coloca numa posição de grande importância, já que a defesa de tal posicionamento não se trata da garantia de uma verdade sobre o assunto. A importância da posição que Gaga admite se dá em razão das tentativas que existem de transformar os LGBT em função de uma norma sexual e social definida pela maioria da população (será mesmo maioria?). Dizendo que ela e outros nasceram assim não há possibilidades de transformação, de molde, de “salvação” e afins…

O som, em geral, tem sido apontado como barulhento, em contraposição ao límpido som do single lançado num desfile de moda no final do ano passado chamado Anatomy of Change. Eu, como não entendo absolutamente nada de música, me prendo mais às imagens e palavras: a dança foi muito bem desenhada, faz parte de todo um conceito para a igualdade que acompanha um texto verdadeiramente revolucionário e que pretende, mais do que colocar no indivíduo uma força que ele não tem, dar a ele conhecimento de uma força alcançável, para que se empodere e faça politicamente por si o que desejar.

Reconheço, assim, toda a importância do debate que ela traz para o cenário pop e político em relação à comunidade LBGT, com seus diversos vídeos de politização (aqui) e incentivo à participação política (aqui) e  sob forma de empoderamento.

Gaga fez um verdadeiro suspense quanto à música, o clipe, e agora, o cd. O que resta é esperar e ver se ela consegue, mais uma vez, juntar o carater derivativo do pop, discussões de cunho sério, música dançante de boa qualidade, coerografias inovadoras, e a mensagem de força que a figura de Gaga pretende passar, buscando, de fato, mudanças na sociedade.

Um texto de Catarina Corrêa, (levemente) fã da Lady Gaga!

Anúncios

6 comentários em “Born this way! Por que não falar do pop?

Adicione o seu

  1. Catarina, bom texto. Tenho várias críticas, mas vamos começar pelo ponto com o qual concordo:
    1. O posicionamento de GaGa em que defender que os LGBT já nascem LGBT é louvável, já que se opõe ao relativismo daqueles (tanto defensores quanto detratores da causa) que acham que sexualidade não passa de “construção social”, algo fluido e maleável.

    Discordo, no entanto, de alguns pontos da sua análise:
    1. Apontar um discurso claramente em prol do capitalismo liberal nos artistas que você citou, ao meu ver, é inadequado. Além disso, acaba por ressuscitar o velho ranço marxista de achar “dominação”, “ideologia” e “reprodução das classes dominantes na superestrutura” em tudo que é expressão cultural, ignorando quaisquer particularidades e diferenças de contexto. Isso sem falar no óbvio reducionismo que caracteriza esse tipo de crítica musical.
    2. “We R Who We R” é puro deboche, não tem nada de ideológico naquilo! Qual o problema ‘social’ em celebrar a amizade e um estilo de vida junkie? Muitas vezes Ke$ha é menosprezada por ser mais cínica que outras ‘divas pop’, mas ao meu ver é justamente esse o trunfo dela: parecer mais porra-louca do que realmente é. Também não vejo problema na auto-afirmação (com toques patrióticos, rs) de “Fireworks”. E Pink tem preocupações muito intimistas para ser taxada de reprodutora de retórica liberal – a não ser que escrever sobre sentimentos pessoais seja um “sintoma de uma lógica individualista”.
    3. Não acho que a sociedade liberal-democrático-capitalista (!) “cerceia as possibilidades de se ser si mesmo para se encaixar naquilo que é considerado correto”. Pelo contrário, de todas as organizações sociais existentes até hoje, foi a mais permissiva (e até incentivadora!) de comportamentos desviantes, alternativos e idiossincráticos. Tolerância sempre foi algo mais defendido e praticado no Ocidente do que em qualquer outra civilização. Acho até estranho que os LGBT e outros grupos critiquem tanto o individualismo e a auto-expressão da qual tanto se nutrem.
    4. O clipe Born this Way não tem nada de excepcional; é apenas celebração da androginia e repetição de muitas imagens chocantes já utilizadas por Madonna e outras influências de GaGa (vi até um pouco da estética de Marilyn Manson…).
    5. Não se esqueça que Lady GaGa é tão mercadológica, “produto do sistema”, “mainstream” etc. quanto outros artistas pop menos “engajados” do que ela. (Crítica, aliás, que também vale para o ‘humanitário’ Bono Vox)
    Aliás, a preocupação excessiva dela com a sua imagem perante o público e a mídia é uma demonstração explícita de um narcisismo tão característico da chamada “pós-modernidade”, e muitas vezes ela cai em egocentrismo e superficialidade.
    Também gosto das músicas de Lady GaGa, mas sinceramente ela não tem nada de revolucionário. Ela só exagera (e caricatura) algo já presente na cultura pop contemporânea; ou seja, é mais sintoma do que ruptura.
    Para quem fala tanto de afirmação de identidade, imitar descaradamente Madonna não parece ser muito coerente, né?

    1. Olá Kaio,
      primeiramente, obrigada pelo elogio. Vamos lá.

      Bom, eu concordo com a Lady Gaga em relacao ao posicionamento, mas, como eu disse, nao por achar que é mais ou menos verdade, mas por achar mais razoável e por que tal argumento impede correcoes, que sabemos existir. No entanto, a reproducao de comportamentos relacionados á sexualidade, sao, na minha opiniao, construídos socialmente sim. Por isso é possível falar em estereótipos e afins, que aparecem como reproducao de comportamentos admitidos como femininos e masculinos, por exemplo; nocoes que também acho que sao construídas socialmente.

      Em relacao ás acusacoes ás artistas, nao as critiquei diretamente, pelo contrário, disse que nao se trata de julgar que elas seriam um instrumento. No entanto, acho que existe sim dominacao e ideologia nos discursos liberais e capitalistas que pretendem que o indivíduo venca ignorando as estruturas. Mas, como disse, nao sei se é o caso das artistas, nao acho que seja o caso da Lady Gaga particularmente.

      Claro que a sociedade em que vivemos hoje é mais permissiva, mas será que o liberalismo é o motivo? Nao sei. Nao acho que os LGBT se nutram do individualismo como premissa ideológica, mas nutrem, sim, da liberdade. Agora, também acho um tanto reducionista pensar a liberdade como um princípio puramente liberal.

      Quando á mercadologia de Lady Gaga, acho fantástico na verdade, por que ela se usa disso para se tornar ainda mais mercadológica, com músicas como Fame e Dance in the Dark (e suas referencias a Sylvia Plath, por exemplo). Aliás, admitir isso, é parte do que acho bem legal nela. Admitir, e, ao mesmo tempo, nao deixar de usa-lo. Cinismo? Pode ser. Acho, no mínimo, crítico.

      Quanto ás referencias a Madonna, discordo de que seja uma imitacao descarada. Acho que se trata do uso do pop, para fazer pop. Outros o fizeram, inclusive Madonna… O que Gaga faz é “escrachar”, aliás, é o que ela faz em quase tudo.

      Por último, mas nao menos importante, o engajamento de Gaga, é, no meu ponto de vista, exatamente aquilo que completa e dá sentido á toda a obra da autora. Longe de ser parecido com o humanitarismo de Bono, Jolie, etc. faz parte do conceito que ela criou de alguém que se chama Lady Gaga, parte do exagero, da reproducao explícita do mercado, da fuga da mídia que se junta com o apelo que ela faz á mídia, enfim… tudo que ela criou é, para mim, e neste sentido, revolucionário.

      De qualquer forma, agradeco o comentário. É sempre bom conhecer outros pontos de vista!

  2. Pôxa, gostei bastante do texto e da forma como as referências foram feitas ( “olá Foucault!”). Acho que o texto trouxe uma perspectiva interessante para falar do pop, talvez principalmente para quem tá meio por fora dele ^^

    Pessoalmente, não sou sequer sabido para ser fã ou crítico da Lady Gaga, mas acho que as mensagens no trabalho dela, em referência ao artigo da Catarina, demarcam um espaço importante para construção própria de significados e de identidades na comunidade LGBT.

    Em relação ao impasse em discutir se a mensagem pop da Lady Gaga é reprodutora ou não da tal ideologia liberal, tendo a achar (mais uma vez, sem conhecer, como um cachorro vira-lata no horário de pico olhando pras pessoas no ponto de ônibus…) que há sim elementos de reprodução do sistema etc… mas, há, ainda mais importante que isso, uma força para contrapor às perspectivas e vozes já estabelecidas e se legitimar diante delas. Acho que é desse empoderamento que a autora desse artigo trata.

    E, neste sentido, ao mesmo tempo em que essas mensagens reproduzem uma ordem e um conjunto de premissas “hegemônicas” (o que, por sinal, creio ser impossível livrar-se ou construir algo sem que de alguma maneira se parta dela, uma vez que a hegemonia é, de certa forma, as instituições e a ideologia sob a qual fomos formados), “esse pop” constrói também as estruturas de contestação e os recursos para a formação e novas maneiras de entender o mundo e dar visibilidade – e voz – a outros sujeitos – diferentes dos que sempre são vistos, diferentes dos que sempre falam.

    Parabéns pelo artigo, Catarina!

    1. Olá Unevere!

      Obrigada pelo comentário. Eu concordo bastante com voce, no sentido que é bem improvável que nao haja hegemonia naquilo que Gaga faz, afinal, também é pop. Acho, somente, que ela “escracha” o fato de fazer pop, falando da mídia, da fama, e afins. e sendo, ao mesmo tempo, parte do pop, crítica, porta-voz de uma comunidade, e afins.

      De certa forma, acho que a estrutura está em voce, tanto quanto voce está na estrutura. Portanto, nem a gloriosa Gaga, nem ninguém, pode ser totalmente antihegemonico.

      :)
      Catarina

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s

Blog no WordPress.com.

Acima ↑

%d blogueiros gostam disto: