A revolução das coisas

Amanhecera com o cansaço do dia anterior atrapalhando o abrir dos olhos – o dia começa com retornar de uma estafada morte. Urgia já no trabalho para pôr-se frente aos seus iguais convivas e comemorar o expediente. Tinha já separados terno, calça, calços, meias e gravata, restaria fazer barba e escovar dentes; o corpo, autonomamente, já se prontificara de pedi-los.

Eis, pois, que a cabina do banheiro não lhe abrira. que lá, àquela hora, a mulher faria trancada? quanto ainda custaria?

A porta da suíte aberta para o corredor de acesso à sala e à cozinha. Cadê a mesa do café? dera por si: a mulher saíra. Fora passar a semana na casa da praia, acredita.  Quisera comida, recorrera à geladeira. A mão, que a faria arreganhar-se, resoluta e fria, não fora obedecida. Aborrecera-se. O bom senso, surpreendentemente, o socorrera e o fizera vestir-se e aguardar a chegada ao escritório para pedir o seu manjar – não antes de, frustrado, tentar abrir uma das latinhas de conserva perdidas sobre a dispensa.

Não conseguira também abrir torneira da pia da cozinha para lavar o rosto, gargarejar, nem perfumar-se; tentara, pela porta de casa, sair imundo e com a cara sonâmbula e áspera fugindo da vizinhança. Impossível, não sem a chave. Perdera, com a de casa, também as do carro e a da garagem. Iria apressado e a pé para o trabalho – se conseguisse pular uma de suas janelas. Fizera-o com sucesso. Sobraria dali em diante suportar o calor das 10 sobre o negro da mala, do sapato e do seu terno caminhando até o escritório, já que eram três os ônibus que não paravam ao seu aceno atarantado. Lembrou-se de que algo parecido já acontecera com um amigo seu. Temor que tudo ante dele se fecharia. Como poderia, então, ter saído pela janela? já aberta, o vento não permitiu que a mão do homem se abatesse para abrir sequer as cortinas. Tomou-se daí de pavor (como querer que tudo que, antes dele, se fechou, fechasse de então, não maismente?) A partir de então, como que enternecido deparado com algum tipo de morte, passou, enquanto seguia o largo caminho esturricado pelo sol lisonjeiro e reluzente, a se despedir de cada ente que fechara no tempo em que fora o senhor das coisas. Congratulou-se estar vivo pelo privilégio dos olhos que abrira na já distante manhã em que acordou.

Chegara à porta, aberta, do prédio cujo departamento trabalhava. Subiria dele as escadas para não passar pelo constrangimento de entrar no elevador com um colega e, quiçá, trancar-se sozinho no andar de saída. Bastaria já o vexame de chamar o serralheiro para que arrombasse a porta de seu escritório – posto que sua chave, hermeticamente guardada no bolso da calça, não estaria ao alcance da mão. Pois que dera, por desencargo, a mão no bolso e pegara a chave, e abrira a porta; fora, então, surpreso entrar e apanhar as papeladas para compensar na sala do chefe, excusado e bajulante, o seu atraso subindo até o último andar.

Ousa, então, aproveitar a maré súbita de sorte e chamar-lhe o elevador. Espera o apito que, em pouco tardo, soa e, à porta, diz-lhe: “abre” – pela qual ele, confiado e distraidamente, entra tateando com os pés o chão que encontraria só no térreo do vão ascensor. Custaram os avisos da manutenção. Se tivesse àquela hora despencado do andar último teria, de certo, tido tempo de se lamentar por não ter comido antes de ir trabalhar.

João Vinicius Marques
(e a prova de que o blog do PET/POL não possui polícia editorial)

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