Sejamos Livres

Darcy Ribeiro pensou a Universidade de Brasília como um local onde seriam pensadas soluções para os problemas do país. A transformação da sociedade estaria diretamente ligada à educação, e os ambientes universitários seriam locais de reflexão voltadas a essa transformação. Vejo, no entanto, que os ideais de Darcy se encontram muito distantes do que se verifica na realidade.

O que vejo é uma universidade fechada.

Uma universidade pouco inovadora.

Uma universidade que se apega em demasiado a hierarquias desnecessárias.

Uma universidade pouco afeita à inovação.

Uma universidade, enfim, que se isola da sociedade, por mais contraditório que possa parecer.

E justamente por encontrar-se isolada de grande parcela da sociedade, a universidade torna-se incapaz de realizar aquilo que seria sua função, ou seja, pensar a sociedade. No entanto, o que a universidade deve fazer é tornar-se sociedade. Para que uma transformação social realmente ocorra, torna-se necessária a apropriação da universidade pela sociedade.

A reflexão sobre os problemas do país, função da universidade para Darcy, não pode se limitar aos ambientes universitários. Não nego a importância de tais espaços, mas a limitação a eles há muito se mostra nociva. O que me esforço por frisar, nestas linhas pouco originais, é a importância de se pensar uma nova universidade, mas que essa reflexão se confunda com o que se quer em uma nova sociedade. O que devemos buscar é sermos coerentes:

“É fundamental diminuir a distância entre o que se diz e o que se faz, de tal forma que, num dado momento, a tua fala seja a tua prática” (Paulo Freire).

Assim, se o que se busca na sociedade (e na universidade) é torná-la mais livre, não apenas de maneira formal, o que se pede é, antes de tudo, que sejamos livres.

Autor: Salles Dimitri

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4 comentários em “Sejamos Livres

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  1. Boa reflexão. Só acho que a universidade pode ser vista como bastante inserida na sociedade, só que conservando-a ao invés de transformá-la. A manutenção de hierarquias tal como você colocou, a visão muito difundida de “formação para o mercado” figurando como demanda da maioria dos estudantes, o pensamento individualista de querer o diploma pra se dar bem, a reprodução de preconceitos e demais práticas opressoras…acho tudo isto bastante atrelado à sociedade. Portanto, só queria acrescentar esta idéia de que antes de “tornar sociedade”, como você colocou, a universidade deveria pautar alternativas de práticas sociais ainda em seu interior; vejo isto como um “olhar pra dentro” bem vindo.

    Abraços

  2. Muito bons os argumentos. Só acho que enquanto os indivíduos que sustentam a UnB – e aqui me refiro principalmente aos alunos – continuarem a tolerar o sucateamento da universidade, esta se afastará cada vez mais da sociedade como um todo. Não me refiro só à falta de espaços adequados às aulas teóricas e/ou práticas, mas ao descaso com que muitos professores tratam o ensino em si.

    É inaceitável ter que ouvir uma professora tentar defender, durante uma de suas poucas aulas, uma greve alegando melhoria de ensino, quando ela mesma ganha milhares de reais pra ministrar aulas medíocres.

    Essa hierarquia que você mencionou precisa ser quebrada. Não digo que deve haver um patar de plena igualdade entre professores e alunos – afinal, sou contra essa tese – mas o fim desse “endeusamento” dos professores da UnB. Mais do que um funcionário público, os professores da universidade são responsáveis pela aproximação a qual você mesmo se referiu. Aproximação essa que provém, em grande parte, da educação dentro e fora de sala. Se existe uma parcela do corpo docente que não trabalha a favor dessa aproximação, seus componentes têm sim que sofrer as consequências.

    Mas enquanto não houver uma despolitização da UnB, nenhum dos seus outros problemas vão ser resolvidos e vamos que ser obrigados a ir à universidade sem saber se nossos professores vão ter a disposição de estar lá também.

  3. Pedro, concordo com suas colocações, mas ainda acho que esse “olhar para dentro” não pode ser separado de um “olhar para fora”, no sentido de que as práticas sociais alternativas no interior da universidade devem a todo momento estar ligadas ao que ocorre fora dela. É nesse sentido que falo da universidade “tornar-se sociedade”, acreditando que apenas ao se tornar mais aberta, inclusiva, livre enfim, é que a universidade pode se aproximar daquilo que é seu ideal de transformação.

    Thiago, acredito que o descaso com o ensino, assim como o culto a hierarquias que engessam a busca por inovações, devem ser tratadas sim de maneira política. Nesse ponto discordo ligeiramente de você, pois acredito que qualquer prática educacional carrega consigo uma intencionalidade política, assim como a busca por transformações. Não me refiro à política partidarizada, mas a uma postura politizada de transformação, que deve partir de estudantes, professores, funcionários e comunidade externa, e que é necessária para uma elevação da qualidade universitária e para maior inserção social da universidade, sem a qual, acredito, mudanças não se tornam possíveis.

    Abraços.

  4. Entendo. Mas eu me referi justamente à politização da Universidade em termos partidários. A politização da universidade é inevitável e é bom que ela ocorra. Mas levar essa mesma politização pro campo partidário, como você mesmo argumentou, é o que, de certo modo, estragada a UnB.

    Exemplo?! Governo Federal só liberar verbas a Departamentos, Institutos, enfim, mediante certos critérios, quando, na verdade, a educação não deveria ser tratada de tal forma. Não vou entrar em detalhes, mas acho que você entende o que eu quero dizer.

    Abraço!

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