Bate-papo Acadêmico

O bate papo acadêmico aconteceu dia 12 de janeiro de 2011, teve lugar à sala de reuniões do Instituto de Ciência Política (IPOL) tendo início às 18:15 e término às 20:40 aproximadamente. Estiveram presentes 19 pessoas contando com os professores membros da mesa.

Nesta edição contamos com a exposição sobre História Antiga e História Moderna feita pelo professor doutor José Octávio, diretor do Departamento de História da Universidade de Brasília.  A palestra iniciou-se com a apresentação do expositor feita pelo professor Paulo Nascimento, do IPOL, contemplando seu objeto de estudo e sua formação acadêmica. Em seguida o prof. José Octávio iniciou sua abordagem.

Inicialmente foi proposto que analisássemos a história antiga e moderna do ponto de vista da historiografia, ou seja, da metodologia da história, e que pudéssemos compreender um campo particular da historiografia que seria a antropologia histórica, exploradas por autores como Mauss e Levi-Strauss. Feita a proposta do recorte a ser explorado o questionamento levantado pelo prof. José foi o de como a antropologia histórica impactou o estudo da Grécia antiga e de que forma a Europa tomou a tradição grega. Numa palavra, como o estudo da história, baseado na herança Greco-romana, foi influenciado pelo estudo de outros povos como os “selvagens” (termo utilizado pelo prof.) e pela modernidade.

Hannah Arendt foi citada para abordar o conceito de história da natureza (que seria aquela história que possui um caráter eterno, ou seja, enquanto que ações humanas são efêmeras e mortais, a natureza e seus eventos são imortais) e de memória, que surgiria da pequenez da existência humana, significando ações fugazes que permaneceram. Assim a história passou a ser entendida como processo. Fato ilustrado pelo exemplo de Ulisses que chora na última viagem antes de voltar a ítaca, onde se vê diante de um bardo que cantava histórias sobre a guerra de tróia, assim o herói chora pois percebe-se cantado no poema, ou seja, percebe sua historicidade e efemeridade.

O prof. Menciona o autor koselleck para abordar o conceito de experiência, assim a história seria um relato do espaço da experiência, sendo mais presente que futuro, tendo menos um horizonte de expectativas e mais uma perspectiva do presente. Assim, o prof. Assim o professor questiona: Por que escrever o presente?  E responde nos dizendo que o primeiro tipo de história seria aquele da história do presente, não baseado na memória, mas baseado no testemunho, como fez Tucidides e Heródoto, daí vindo a palavra “autópsia” que significa testemunha ocular.. Conforme o tempo avança a história passa a ser a história do progresso, tendo um horizonte de expectativa maior, ou seja, baseado no presente cria-se uma perspectiva do futuro, uma antecipação, uma expectativa. Inclui-se aqui, Paul Vayne que traz a discussão entre história vulgar e história científica, que, literalmente, significa aquela a baseada na memória e esta a baseada em vestígios, fatos, elementos históricos.

Assim, já tendo abordado três tipos de história (a do presente testemunho, a científica e a vulgar) avança-se no tempo para explorar quando nasce a concepção de passado histórico, ou seja, quando a história deixa de se preocupar com o presente para olhar para o passado e reinterpretá-lo. Diz-se que isso acontece ao longo do tempo quando os historiadores deixam de tomar apenas a tradição de autores anteriores como verdade e passam a questioná-la, assim na era moderna a história autópsia é vista com desconfiança. Isso passa a ser denominado prática dos antiquários ou história antiga. Toma-se a partir da era moderna, que toda escrita da história é apenas uma re-escritura da mesma que o testemunho vale menos que uma fonte material. O prof. Cita como exemplo desse processo a história da nota do pé de página que quando começou a aparecer nos livros significava uma cientificação da história, dando a entender que poderiam haver controvérsias teóricas e que nem tudo poderia ser tomado como verdadeiro. Essas controvérsias e a busca por uma maior legitimidade passam a ser denominadas Querela dos antigos e modernos e tendo saído vencedores, os modernos colocam a história antiga aproximada da literatura.

O próximo questionamento do professor, tendo em vista a evolução da metodologia de abordagem da história, seria determinar o impacto de quando os selvagens entram na história. Isso quer dizer, simplesmente, que devemos nos questionar: Porque consideramos os gregos nossos antigos? Porque a história antiga não é a história da China ou de outros povos orientais?  Uma possível resposta seria a de que fomos colonizados por europeus e importamos seu sistema educacional. No entanto, o que se questiona é, hoje, até que ponto somos europeus? Antes de estudarmos a história antiga como prevê os manuais, deveríamos procurar saber que relações estabelecemos com os antigos. Assim, o prof. José Octávio cita Strauss e diz que observamos o passado com as lentes gregas. Para exemplificar este fato o expositor recorre a um relato sobre as índias brasileiras feito na época do descobrimento que concebia essas mulheres como guerreiras amazonas da mitologia grega, além disso, há também o quadro de debret que pinta os índios sul-americanos como guerreiros hoplitas e com elementos Greco-romanos como colunas de mármore complementando a paisagem tropical.

Deixando este tema para uma abordagem posterior, o expositor volta à querela entre antigos e modernos para trazer o conceito de História Exemplar, que seria aquela que não deveria ser questionada e tomada como verdade. A primeira ruptura, diz o professor, acontece com Descartes que em seu método diz que tudo, todas as verdades devem ser questionadas e refletidas apropriadamente, inclusive a verdade histórica. Um segundo momento dessa transição se dá no século 18 quando começa-se a tentar eliminar os filtros clássicos, eliminar as lentes dos antigos, relativizar a verdade re-interpretar os conceitos. Assim cita-se Benjamin Constant que trabalha com uma nova concepção de liberdade para os antigos, dizendo que ela se dava apenas à esfera pública enquanto que a dos modernos é predominantemente tratada na esfera privada. Isso derruba a interpretação de que a democracia grega e a própria polis era espaço de gigantescas liberdades, assim, há uma re-interpretação. Outro exemplo da relativização dos pressupostos históricos se dá em Fustel de Coulanges, que em seu prefácio da Cidade Antiga, diz do perigo de olhar os antigos, questionamento levantado posteriormente por Durkheim e Jean-Pierre Vernant.

Partindo da abordagem anterior , que indica quando a história foi relativizada e questionada, o prof. Retoma o debate sobre os selvagens e a antropologia histórica mencionado acima dizendo que o estudo de outros povos é fator principal para derrubar as verdades e as lentes clássicas. Então, conclui-se tomando a tradição Greco-romana, e portanto ocidental, como construção, ou seja falseável pois quanto é feita por humanos.

Abre-se a palestra à perguntas e a professora Tatiana de formação filosófica questiona: O discurso de que a tradição grega pode ser nociva e errônea, para um filósofo, não faz sentido, pois os gregos definiram e criaram a filosofia, moldaram o pensamento ocidental e ignorar tudo isso seria equivocado. Outro questionamento seria levantado por Mateus Fernandes: Porque os modernos são devedores dos clássicos? A professora Marilde, diretora do IPOL, pede a palavra para comentar ao questionamento da professora Tatiana, que faz sentido sim questionar as lentes ocidentais. O prof. José Octávio dirá em resposta à professora Tatiana, que existe um olhar não eurocêntrico e não etnocêntrico que poderia estar mais ou tão certo quanto o olhar ocidental. O que importa para o professor é que o ocidente é uma construção e sendo uma construção pode ser questionado. Reitera que o ocidente é antes de tudo uma abstração e que não necessariamente a tradição filosófica grega está correta. Exemplifica isso com Heidegger e com Nietzche quando este se propõe a destruir a metafísica e a elogiar os pré-socráticos. Tomando outro exemplo para demonstrar como a tradição grega pode ser questionada, o prof. Cita Hannah Arendt e sua re-interpretação do que seria o trabalho, ou seja, o que antes era entendido na forma como os gregos interpretavam, agora era aprofundado pela filósofa. O prof. Continua dizendo o quão irracionais os gregos podem ser, citando um livro que expõe a religiosidade demasiada dos antigos, que, por exemplo, antes de guerrear, abriam animais para interpretar suas entranhas. Diz ainda, o expositor, que Platão poderia ser tido não como o primeiro dos filósofos, mas como o último dos mitógrafos, pois, escreve em diálogos, usa recursos teatrais e narrativos. Assim, o que se deve entender, é que não existe uma razão única mas isso não quer dizer que o prof. Ignore a contribuição da tradição Greco-romana para o pensamento ocidental.

O aluno de graduação em história, Daniel, aproveita para questionar a tradição grega dizendo como o conceito de ciência é criado e entendido pelos modernos, ou seja, é algo novo que não busca seus fundamentos nos antigos. Em seguida temos o questionamento do aluno de graduação em ciência política Kaio Felipe: Porque os teóricos políticos deixaram de usar a história para fundamentar seus argumentos como fizeram Maquiavel e La boétie? O prof. Responde que os teóricos não deixaram de usar a história, citando que Hobbes foi um dos principais tradutores de Tucidides e a própria Hannah Arendt faz um apanhado Helenista para fundamentar seus argumentos. O aluno de graduação em ciência política Mateus Lobo questiona se a história ensinada é uma falsificação. O prof. Responde que não é uma falsificação mas pode ser falseada. O professor Paulo Nascimento do IPOL pergunta em seguida: Porque a antiguidade grega é a mais universal? O prof. José Octávio não chega a responder essa pergunta por inteiro pois é interrompido por um outro aluno que questiona o prof. Nascimento sobre se conceitos como raça e cor não deveriam sofrer re-interpretações já que a ocidental foi em grande parte “racista”. O prof. Nascimento diz que a questão da branquidade é apenas uma das visões sobre o pensamento ocidental e que não a única. Mateus Fernandes por último questiona se há alguma vantagem em desconstruir os gregos e a tradição ocidental. O prof. José Octávio diz que claro que há, uma vez que se provada falsa, aproximamo-nos mais da verdade, que é o que busca a ciência. Assim a exposição tem seu fim às 20:40, aproximadamente.

 

Luiz Fernando Santos Roriz.

 

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