Pacifismo e Nacionalismo em “Nada de Novo no Front”

“Este livro não pretende ser um libelo nem uma confissão, muito menos uma aventura, pois a morte não é uma aventura para aqueles que se deram face a face com ela. Apenas procura mostrar uma geração de homens que, mesmo tendo escapado às granadas, foram destruídos pela guerra”. Com estas palavras Erich Maria Remarque inicia o emocionante livro “Nada de novo no Front”, ele que conheceu as trincheiras da primeira guerra mundial aos dezoito anos de idade, foi ferido em três ocasiões e marcado psicologicamente pelo resto de sua vida. O livro nos traz a comovente história de um soldado que, muitos diriam, não representa um, mas vários, um exemplo típico do soldado anônimo, esquecido e apagado pela guerra. No entanto, é justamente o contrário que Remarque procura dizer, ao longo da obra vemos uma tentativa ferrenha em atribuir uma identidade a este jovem anônimo e a seus companheiros, a diferenciá-lo dos demais, individualizá-lo construindo assim o argumento de que nenhum membro daquela geração foi apenas mais um.

Paul Baümer era apenas um jovem de 16 anos quando conheceu pela primeira vez o sentimento do nacionalismo. Na escola, em meio à literatura romântica e equações de álgebra, um professor, Kantorek, inflamava as mentes dos garotos com a idéia de nação, unidade, força e principalmente, de cidadania. Instigados pelo mestre, a geração de Paul foi vítima de uma propaganda digna de ser comparada às piores lavagens cerebrais. A idéia de lutar pelo país, de representar seus princípios políticos, era traduzida da maneira mais peculiar possível, como por exemplo, pais que renegavam filhos que não eram recrutas, professores que reprovavam, policiais que reprimiam etc.             Vemos que Paul conheceu o que é caracterizado como nacionalismo cívico que “é baseado na concepção política de cidadania, independentemente de raça, religião, língua, etnia e até local de origem.” (Nascimento, 1996). Isto porque Remarque procura desconstruir que havia um sentimento étnico e xenófobo naquela geração. Durante uma cena em que Paul luta de mãos nuas com um francês, o autor levanta a seguinte reflexão: “Porque um ferreiro, um sapateiro francês nos atacaria? Eu nunca havia visto um francês antes de vir à guerra, e seria exatamente o mesmo com a maioria dos franceses em relação a nós. São meramente os governantes”. Assim pode-se inferir que há uma tentativa explícita de tirar o sentimento de nacionalismo étnico da conduta do jovem Paul, assim, “o que torna um indivíduo cidadão não é a língua que ele fala, nem o lugar de onde é proveniente, mas a adesão aos princípios políticos” (Nascimento, 1996).          A tese sustentada por Remarque é a de que Paul antes de ser soldado era apenas um garoto e por motivo algum que não uma transvaloração de valores, que seria a transformação de valores estrangeiros em algo ruim frente à glorificação de valores nacionais como algo bom (Greenfeld, 1985), sentiria aversão ao outro, ou à nação do outro. Isso é demonstrado pois, justamente após matar o francês com quem lutou, Paul se ajoelha pedindo desculpas, dizendo desesperadamente que tinha sido culpa do francês que não deveria estar naquela trincheira com ele. Como um jovem confuso e sensível, Paul sente um golpe mais árduo que qualquer tiro de fuzil, um golpe em sua consciência. Baümer é antes de tudo humano, Remarque descaracteriza a idéia de soldado herói, isso porque Paul sente emoção e falha na tentativa de ser herói porque ele sente compaixão, “nós não lutamos, nós nos defendemos da aniquilação”. Segue-se daí que o que se tenta, ao longo do livro, é deslegitimar o nacionalismo cívico E o nacionalismo étnico. Vê-se que tanto o patriotismo (lealdade ao Estado) quanto o nacionalismo (lealdade à nação) nada valem para Paul Baümer a partir do momento em que os morteiros começam a voar e os tiros começam a zunir. Há ainda o argumento que tenta transformar a guerra de glória em guerra de horror, como diria Brecht “infeliz o povo que precisa de heróis”.

Além dessa deslegitimação, a tese do autor assume um viés quase que psicopedagógico. Isso porque um dos pontos mais ressaltados pelo autor é a perda da juventude. Remarque não esquece nem por um momento que Paul tem apenas 18 anos, que Baümer teve de se tornar adulto, saltar a juventude, perder a inocência, a beleza e o amor sem poder pensar sobre isso. Fato ilustrado por duas passagens em especial: A primeira quando Paul visita Kemmerich, um colega recruta, no hospital militar e este morre em seus braços. A morte do amigo é uma metáfora forte para a morte da inocência, uma vez que Baümer acabara de chegar ao front e não havia entrado em combate ainda. A segunda é quando Paul cruza a fronteira para ter um “encontro romântico” com algumas meninas francesas em troca de pão. Paul não consegue sentir nada que se aproxime de amor, nem se quer prazer, muito menos extingue sua solidão, é como se aquela noite não significasse absolutamente nada.

O que acontece com Baümer não convém dizer, mas um tom um tanto quanto óbvio rodeia seu destino, o que cabe inferir é apenas que sua história constitui um dos maiores documentos em favor do pacifismo na literatura (até porque mostra o lado Alemão na WWI), um combate inesgotável ao sentimento nacionalista e acima de tudo um relato que rompe a barreira da ficção e dá vida aos fantasmas verídicos do autor. Sem dúvida não é uma aventura, é a própria condição humana e todas as suas especificidades que afloram a sensibilidade de qualquer leitor. Ficam, pois, minhas recomendações.

Por Luiz Fernando Santos Roriz

 

 

NASCIMENTO, Paulo. Dilemas do Nacionalismo. In: BIB: revista brasileira de informação bibliográfica em ciências sociais / Associação Nacional de Pós-Graduação e Pesquisa em Ciências Sociais nº. 41. 1996, São Paulo : ANPOCS, 1996

 

REMARQUE, Erich Maria. Nada de Novo no Front (All’s quieto on the western front). Porto Alegre: L&PM Pocket, 2008.

 

GREENFELD, Liah. “Nationalism and class struggle: two forces or one?” Survey: A Journal of East & West Studies, 1985, 29(3): 153 – 174, Fall.

 

Anúncios

2 comentários em “Pacifismo e Nacionalismo em “Nada de Novo no Front”

Adicione o seu

  1. Gostei do texto e aceito de bom grado a recomendação. Já está na minha lista de leituras futuras.

    Aos próximos leitores, gostaria apenas de fazer uma ressalva, e uma outra recomendação de leitura: trata-se de Além do Bem e do Mal, de Nietzsche, no qual ele explana essa tal “tresvaloração”, ou “transvaloração” de todos os valores, citado pelo nosso amigo.

    Em grande parte por obra de sua pérfida irmã, Nietzsche foi um dos autores mais deturpados pelos nacionalistas alemães. É reveladora uma foto na qual ele aparece, já catatônico, posando ao lado de oficiais do III Reich, com a irmã a tiracolo.

    A tresvaloração dos valores não tem nada a ver com a glorificação da identidade nacional alemã, à qual, de resto, Nietszche repudiava fortemente. Tem a ver com a superação dos valores cristãos e pequeno-burgueses, dos valores “do rebanho” e da afirmação de uma nova e superior liberdade.

    André Shalders

    1. Muito obrigado pelo comentário André.
      Também vou incluir sua recomendação na minha lista de livros a ler
      Mas para esclarecimentos, o conceito que utilizei, até onde sei e principalmente pela minha bibliografia, não é o de Nietzche.
      Acredito que tenha ocorrido uma falha minha, o conceito de Liah Greenfeld, chama-se “transvalorização de valores” e não “transvaloração”. Minhas mais sinceras desculpas, e obrigado pela recomendação
      Para sanar qualquer dúvida basta consultar o artigo do professor nascimento neste endereço: http://www.anpocs.org.br/portal/images/bib56.pdf
      grande abraço

      Luiz.

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s

Crie um website ou blog gratuito no WordPress.com.

Acima ↑

%d blogueiros gostam disto: